A segurança pública é o principal problema apontado pelos eleitores do Rio de Janeiro e volta ao centro do debate eleitoral com uma nova tentativa do Estado de enfrentar o avanço do crime organizado.
É nesse cenário que o Rio de Janeiro anunciou, nesta quinta-feira (3), uma nova estratégia para retomar áreas dominadas pelo crime organizado e manter a presença do poder público nesses locais. O plano foi formalizado com a assinatura de dois acordos entre os governos federal e do estado do Rio.
A proposta prevê atuação conjunta das forças estaduais e federais, com uso de inteligência, tecnologia e investigação financeira. Poderão participar das ações a Força Nacional, Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Penal Federal.
O segundo acordo tem foco nos principais corredores de circulação e logística do estado. Avenida Brasil, Linha Vermelha, Linha Amarela e os acessos ao Porto do Rio e ao Aeroporto Internacional Tom Jobim estão entre as áreas que terão atenção especial.
Os documentos foram assinados pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, e pelo governador do Rio em exercício, Ricardo Couto de Castro, durante cerimônia no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ).
“Essa é uma cooperação federativa no sentido pleno: o Estado define suas prioridades territoriais, e a União coloca à disposição suas capacidades operacionais, de inteligência e de investigação patrimonial”, afirmou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva.
“Segurança pública é um serviço essencial à população e exige uma ação coordenada de todas as instituições. A parceria entre o Estado e a União amplia nossa capacidade de atuação, com mais inteligência, tecnologia e integração, para que o poder público esteja presente onde a população mais precisa. O objetivo é melhorar a vida das pessoas, levando mais segurança e presença do Estado aos territórios”, destacou o governador do Rio de Janeiro em exercício, desembargador Ricardo Couto de Castro.
Tentativas ao longo de 26 anos
Ao longo de 26 anos, o Rio passou por diferentes modelos de tentativa dos governos de retomar os territórios em poder de criminosos — GPAE, UPPs, intervenção federal e Cidade Integrada — e agora apresenta uma nova estratégia..
A diferença do novo acordo está na tentativa de combinar policiamento, inteligência, tecnologia, investigação financeira e serviços públicos, com participação direta de órgãos federais.
O que muda com o atual projeto
Na prática, o novo modelo prevê:
- operações integradas entre forças estaduais e federais;
- troca de informações e ações de inteligência;
- investigação das fontes de financiamento das organizações criminosas;
- identificação e bloqueio de bens e recursos usados pelo crime;
- reforço da segurança nos principais corredores logísticos;
- uso de câmeras, leitores automáticos de placas e cercamento eletrônico;
- utilização de drones e sistemas contra drones;
monitoramento aéreo; - integração de centros de comando e controle;
- ações para impedir que áreas retomadas voltem ao domínio de criminosos.
A participação da PRF não é inédita no combate aos crimes nas rodovias do Rio. A novidade está na integração formal da corporação a uma estratégia conjunta entre União e Estado para proteger os principais corredores logísticos, ao lado das polícias estaduais, PF, Força Nacional e Polícia Penal Federal.
Estado promete presença além da polícia
Um dos pontos centrais do acordo é evitar que a retomada de uma área fique limitada a uma operação policial.
O Governo do Rio deverá escolher os territórios considerados prioritários e elaborar planos específicos para cada região. Depois das ações de segurança, a proposta é ampliar a presença do poder público com infraestrutura, serviços, desenvolvimento social e econômico e acesso à Justiça.
Também estão previstas medidas para facilitar a documentação de moradores, atender vítimas da violência, proteger grupos vulneráveis e garantir serviços públicos essenciais.
A ideia é enfrentar um dos principais problemas das experiências anteriores: entrar em uma área é apenas a primeira etapa. O desafio é permanecer nela.
Combate ao dinheiro do crime
O novo plano também pretende atingir as organizações criminosas pelo lado financeiro.
As forças de segurança deverão trabalhar na identificação de empresas, bens e atividades utilizadas para movimentar ou esconder recursos do crime organizado.
A estratégia prevê integração com órgãos responsáveis pelo controle financeiro e tributário para rastrear dinheiro, bloquear recursos e apreender patrimônios.
A aposta é reduzir a capacidade das organizações criminosas de financiar armas, integrantes, veículos e a expansão territorial.
Avenida Brasil e Linhas Vermelha e Amarela terão reforço
O segundo acordo concentra esforços nos principais corredores de transporte e logística do Rio.
A meta é combater principalmente roubo de cargas, roubo de veículos e receptação, crimes que afetam moradores, empresas e a circulação de mercadorias.
Para isso, poderão ser utilizadas câmeras, leitores automáticos de placas, cercamento eletrônico, drones, sistemas antidrones e monitoramento aéreo.
A Polícia Federal deverá apoiar investigações contra organizações criminosas, inclusive em casos relacionados à lavagem de dinheiro e à receptação de cargas e veículos.
Já a PRF poderá atuar, dentro de suas atribuições, no policiamento, fiscalização, patrulhamento e proteção das vias.
União e Estado vão compartilhar informações
Outro ponto previsto nos acordos é a integração dos bancos de dados das forças de segurança.
Informações de sistemas como Sinesp, Infoseg e SISP, do Rio, poderão ser utilizadas para identificar áreas de risco, acompanhar a movimentação das organizações criminosas e planejar operações.
O andamento das medidas deverá ser acompanhado por grupos de gestão e indicadores de desempenho.
Rio já tentou retomar áreas outras vezes
A tentativa de recuperar áreas dominadas pelo crime organizado não é nova no Rio.
Uma das primeiras foi o Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (GPAE), implantado em 2000, durante o governo de Anthony Garotinho. O modelo foi ampliado durante a gestão de Benedita da Silva e teve continuidade no governo de Rosinha Garotinho.
Anos depois, vieram as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A primeira foi instalada em 2008, no governo de Sérgio Cabral. O programa se expandiu durante os governos de Cabral e Luiz Fernando Pezão, mas perdeu força e passou por mudanças nos anos seguintes.
A proposta dos dois modelos era semelhante: aumentar a presença do Estado e reduzir o controle de grupos criminosos sobre determinadas áreas.
Com o passar dos anos, porém, diferentes regiões voltaram a registrar o fortalecimento de facções e milícias.
Intervenção federal veio em 2018
Em 2018, o Rio passou por uma intervenção federal na segurança pública, decretada pelo então presidente Michel Temer, durante o governo de Luiz Fernando Pezão.
A medida começou em 16 de fevereiro e durou até 31 de dezembro daquele ano. A segurança pública do estado passou para o comando de um interventor federal, o general Walter Braga Netto.
O governo federal justificou a decisão com o que classificou como um “grave comprometimento da ordem pública”.
Foi durante esse período, em 14 de março de 2018, que a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes foram assassinados a tiros, no centro do Rio. O crime provocou forte repercussão nacional e internacional e se tornou um dos casos mais emblemáticos da violência e da atuação de grupos criminosos no estado. A intervenção terminou no fim daquele ano e não significou uma solução definitiva para o problema da segurança no Rio.
Quatro anos depois, o governo de Cláudio Castro lançou o Cidade Integrada, em janeiro de 2022. O programa retomou a ideia de combinar ações de segurança com iniciativas sociais e urbanas. As primeiras grandes ações ocorreram no Jacarezinho e na Muzema. Mais uma vez, a proposta era ampliar a presença do Estado em áreas sob influência de organizações criminosas.
O novo acordo anunciado em 2026 retoma parte dessa lógica, mas amplia a integração entre União e Estado, com participação de forças federais, tecnologia, inteligência e investigação financeira.
A sequência das tentativas
- 2000 – GPAE: governo Anthony Garotinho;
- 2002 – expansão do GPAE: governo Benedita da Silva;
- 2003 a 2006 – continuidade do GPAE: governo Rosinha Garotinho;
- 2008 – primeira UPP: governo Sérgio Cabral;
- 2014 a 2018 – UPPs: governo Luiz Fernando Pezão;
- 2018 – intervenção federal na segurança: Michel Temer, na Presidência, e Luiz Fernando Pezão, no estado;
- 2022 – Cidade Integrada: governo Cláudio Castro;
- 2026 – novo acordo entre União e Rio: foco em reocupação de áreas, inteligência, combate financeiro ao crime, tecnologia e proteção de corredores estratégicos.









