
A dispersão é uma alegria a parte para todas as agremiações. Foto: Angel Cavalcanti
Independentemente dos resultados pontuais do julgamento dos jurados oficiais do carnaval de 2026, na Marquês de Sapucaí, o espetáculo de luzes e sons para muitos não foi o ponto central da festa. Mas, de fato, um marco histórico. A força da presença feminina e o protagonismo das ideias sustentáveis junto à ética animal.
A Passarela do Samba transformou-se em um palco onde a tradição encontrou a consciência contemporânea. Com isso, tais quesitos, ausentes na avaliação do desfile, foram, e sempre serão, os caminhos da inovação criativa e da abertura de espaços inovadores. Ser inédito e pioneiro é passo de coragem de quem é grande no contexto geral. Isso porque, ao longo da história, há muitas vezes, o reconhecimento e o prestígio de quem ousa nas ideias. Logo, toda essa presença feminina junto com as ideias sustentáveis não devem inibir iniciativas do tipo no futuro.
O Império das Mulheres 2026: O Pioneirismo do Arranco
O Arranco do Engenho de Dentro deu uma aula de gestão e empoderamento. Certamente mereceu notas melhores. Em um universo historicamente dominado por homens na tomada das decisões, a escola desfilou sob o comando de uma “espinha dorsal” do pioneirismo feminino. Isso vale o registro e homenagem!
A presidente Tatiana Santos, a carnavalesca Annik Salmon e a mestra de bateria Laísa Lima — que conduziu a “Bateria Pura Cadência” com precisão cirúrgica — provaram que o lugar da mulher é onde ela quiser e onde ela puder fazer com competência o seu melhor. Da diretoria ao apito final o desfile foi lindo. Além disso, o enredo “A Gargalhada é o Xamego da Vida”, sobre a primeira palhaça negra do Brasil, Maria Eliza, foi o pano de fundo perfeito para celebrar essa resistência.
Maria Eliza foi pioneira, trabalhava camuflada e disfarçada de homem, como “palhaço Xamego”. Por isso, foi mais uma mulher que defendia o direito de ser, mas escondeu seu gênero devido à discriminação e à desvalorização feminina. Será que estas realidades já foram ultrapassadas e já não fazem parte do presente?
Jurados não souberam reconhecer o enredo
Foi uma decepção a colocação da escola diante a votação dos jurados que claramente não reconheceram o poder do enredo, do pioneirismo feminino, e de quem, o fez brilhar em um colorido que só o circo pode apresentar na passarela do samba.
Reaproveitando materiais ganhos de outras escolas a Arranco retransformou carros, materiais e adereços fazendo uma revisão do poder do reaproveitamento em um momento em que o mundo precisa repensar o consumo desenfreado, a poluição e o desperdício.
O Carnaval de 2026 mostrou que a beleza não precisa vir do sofrimento animal ou do desgaste físico dos nossos veteranos”, afirmou Annik Salmon na dispersão.
Após o desfile de 2026, Annik anunciou seu desligamento do Arranco para seguir novos desafios, deixando uma marca de inovação estética e valorização da história de mulheres pretas e artistas populares. Ela é uma renomada artista do carnaval carioca, designer, figurinista e professora, com uma trajetória de destaque em grandes agremiações como Unidos da Tijuca, Porto da Pedra e Mangueira. No Carnaval 2026, Annik Salmon foi a carnavalesca do Arranco do Engenho de Dentro, sendo a única mulher a assinar sozinha um desfile na Sapucaí (considerando os grupos Especial e Série Ouro).
Mocidade: O Cão Orelha e a Revolução das Penas
A Mocidade Independente de Padre Miguel protagonizou um dos momentos mais emocionantes e éticos da avenida. Ao homenagear Rita Lee, a escola não apenas celebrou a “Padroeira da Liberdade”, mas abraçou sua causa maior: a defesa dos animais.
Justiça por Orelha e por leis brasileiras mais severas para quem comete crimes contra os animais também esteve presente. Um dos carros alegóricos trouxe a imagem do cão Orelha, mascote comunitário vítima da violência de menores em Santa Catarina, em janeiro deste ano, que comoveu o país. A homenagem simbolizou o apoio pela luta contra os maus-tratos que está ganhando força com mobilização nas redes sociais.
“Padroeira da Liberdade” não é apenas um apelido carinhoso, mas um título, autodenominação que resume sua trajetória de transgressão, autenticidade e pioneirismo na cultura brasileira.
Por que Padroeira da Liberdade?
A própria Rita sugeriu esse título em sua primeira autobiografia, em 2016. Na ocasião, ela escreveu que, se fosse para ser lembrada como algo, que não fosse como “Rainha do Rock” (rótulo que ela achava cafona e limitador), mas sim como a Padroeira da Liberdade. Ela queria ser um símbolo feminino brasileiro de quem ousou fazer o que quis.
Rita foi a primeira mulher no Brasil a empunhar uma guitarra e liderar uma banda de rock, de projeção nacional. Além disso, ela quebrou a barreira do “clube do Bolinha” da música brasileira, provando que mulheres podiam ser instrumentistas, compositoras e donas do próprio palco.
Durante a ditadura militar, foi uma das artistas mais visadas pela censura. No entanto, ela desenvolveu habilidades particulares de usar o sarcasmo e a ironia para passar suas mensagens. Isso porque ela falava de sexo, prazer e política de uma forma que desafiava a moral e os bons costumes. Mas, com a inteligência de quem se aproximava desviando do perigo e fazendo cultura. Também falava abertamente sobre o uso de drogas e o processo de parar, tratava a menopausa e as rugas sem os tabus impostos pela indústria da beleza. Além disso, a artista nunca se prendeu a gêneros musicais, transitando do rock psicodélico ao pop e à bossa nova com a mesma naturalidade.
O Legado da Liberdade
Diferente de uma “rainha”, que detém o poder sobre um território, uma padroeira é aquela que protege e inspira uma causa. Rita Lee protegia a natureza, a causa de quem quer ser esquisito, autêntico e, sobretudo, livre de rótulos.
A sorte de ter sido quem eu fui, de estar onde estou e de ser quem eu sou, é minha única religião.” — Rita Lee
Mocidade e a postura Cruelty-Free
Em um movimento vanguardista, a escola aboliu o uso de penas naturais (faisão, pavão), substituindo-as integralmente por penas sintéticas e materiais alternativos de origem não animal. Graças a essas ideias sustentáveis, a estética não perdeu o brilho, mas ganhou em consciência. “Cruelty-free” (livres de crueldade) em sua essência são aqueles que não realizaram testes em animais em nenhuma fase da produção. Isso inclui o não-uso de ingredientes e produto final. Consequentemente, há a substituição por métodos alternativos.
Assim como aconteceu com a Arranco a pontuação da Mocidade foi incompreensível. Isso porque ambas as escolas prestigiaram mulheres fortes e marcantes, pioneiras e históricas em seus contextos profissionais.
Agremiações que apostaram no reaproveitamento de materiais, mostraram que a crueldade contra os animais não é e jamais pode ser tolerada. Além disso, há alternativas para o desuso de penas reais. Sobrou motivo para notas melhores. Pode ter custado pontos pela visão ainda ultrapassada de julgamento que não contempla o inusitado partindo de valores de primeiro mundo. Foi triste as notas tão baixas. Inesperado e surpreendente para quem assistiu com olhos que analisaram além!
Jéssica Martin na Beija-Flor
No grupo especial a presença feminina também se fez marcante na Beija-Flor de Nilópolis que rompeu um hiato de décadas ao oficializar Jéssica Martin como sua intérprete principal. Sucedendo o lendário Neguinho da Beija-Flor,
Jéssica tornou-se a primeira mulher puxadora oficial de uma grande escola no Grupo Especial. Sua performance impecável rendeu o prêmio de Revelação do Estandarte de Ouro 2026. Isso prova que o gogó feminino tem a força necessária para sustentar o canto de uma comunidade inteira.

Jéssica Martin intérprete principal sucedendo o lendário Neguinho da Beija-Flor, foi destaque no grupo especial, ao lado de Nino. Foto: Angel Cavalcanti
Sustentabilidade e o Novo Luxo: Materiais de TI e Reaproveitamento
O “luxo do lixo” celebre pelo talento de Joãozinho Trinta, marco de desacordo pela postura muito a frente do seu tempo em um desfile que rompeu paradigmas, ganhou uma nova roupagem técnica em 2026. Diversas agremiações, seguindo a linha ecológica e de uma nova forma de sustentabilidade, investiram no reaproveitamento de materiais tecnológicos e insumos alternativos, o mundo do carnaval está evoluindo, e vale o registro:
- Escamas de Peixe e Plásticos: Substituindo pedrarias caras e poluentes, escolas como a Vila Isabel e Portela utilizaram escamas de peixe (descarte da indústria pesqueira) e plásticos reciclados cortados a laser para criar efeitos de brilho inéditos.
- Respeito ao Tempo: A valorização das mulheres e idosos foi traduzida em fantasias de baixo peso e comissões da velha guarda em carros alegóricos, substituindo a longa caminhada da ala pela Sapucai. O uso de materiais de TI (como espumas de alta densidade e estruturas de fibra de carbono) permitiu que as alas das baianas e baluartes desfilassem com conforto. Portanto, não houve o peso excessivo das armações de metal tradicionais.

















