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Última usuária de pulmão de aço dos EUA morre aos 78

Martha Lillard utiliza o pulmão de aço que a ajudou a respirar após contrair poliomielite na infância

Última usuária de pulmão de aço dos EUA morre aos 78 | Reprodução/Julia Scott/STEM Story Project

Martha Lillard, última pessoa conhecida nos Estados Unidos que ainda utilizava um pulmão de aço devido às sequelas da poliomielite, morreu aos 78 anos. A americana faleceu em 26 de junho, em Oklahoma, após passar mais de sete décadas dependente do equipamento para respirar.

A certidão de óbito apontou insuficiência respiratória crônica e síndrome pós-pólio entre as causas da morte. Segundo a irmã, Cindy McVey, complicações associadas à Covid longa também contribuíram para a piora da saúde nos últimos anos.

A morte encerra um capítulo da história médica dos Estados Unidos. O pulmão de aço marcou as epidemias de poliomielite do século XX, mas perdeu espaço após a vacinação em massa e o desenvolvimento de ventiladores modernos.

Martha Lillard contraiu poliomielite aos cinco anos

Martha nasceu em 1948 e contraiu poliomielite em 1953, pouco depois de completar cinco anos. A doença provocou paralisia parcial e comprometeu os músculos responsáveis pela respiração.

Depois de permanecer hospitalizada durante meses, ela passou a utilizar um pulmão de aço. O equipamento envolvia quase todo o corpo, deixando apenas a cabeça para fora.

Apesar dos prognósticos médicos desfavoráveis, Martha viveu até os 78 anos. Familiares disseram que médicos inicialmente não esperavam que ela chegasse aos 20.

Como funcionava o pulmão de aço

O pulmão de aço era um ventilador de pressão negativa. Uma bomba retirava e devolvia ar à câmara metálica, alterando a pressão ao redor do tórax.

Quando a pressão diminuía, o peito se expandia e o ar entrava nos pulmões. Em seguida, a mudança inversa ajudava o corpo a expulsar o ar.

Dessa maneira, a máquina realizava parte do trabalho que os músculos respiratórios paralisados já não conseguiam executar.

O equipamento ganhou importância principalmente durante os grandes surtos de poliomielite. Contudo, ventiladores menores e mais modernos acabaram substituindo a tecnologia.

Americana frequentou a escola com adaptações

As limitações físicas não impediram Martha de continuar os estudos. Durante parte da infância, ela conseguia deixar o equipamento por períodos limitados e frequentar a escola presencialmente.

No ensino médio, acompanhava as aulas por um sistema de comunicação conectado às salas. Assim, podia conversar com professores e colegas sem sair de casa.

A família também adaptou sua rotina para permitir viagens. Um trailer transportava o pulmão de aço, enquanto o pai verificava antecipadamente se os hotéis tinham espaço para receber a máquina.

Peças do respirador se tornaram raras

A manutenção do equipamento ficou cada vez mais difícil. Fabricantes deixaram de produzir motores, correias, colares de vedação e outras peças necessárias ao funcionamento.

O colar colocado ao redor do pescoço era particularmente importante. A peça criava a vedação que permitia controlar a pressão dentro da câmara.

Em entrevista publicada em 2021, Martha relatou dificuldades para encontrar novos colares. Os antigos precisavam ser trocados quando o material começava a permitir a entrada de ar.

Além disso, quase não existiam técnicos capazes de reparar a máquina. Por isso, parentes e amigos procuravam soluções improvisadas sempre que algum componente apresentava problemas.

Síndrome pós-pólio agravou limitações

Com o envelhecimento, Martha desenvolveu a síndrome pós-pólio. A condição pode aparecer décadas depois da infecção original e causar nova perda de força muscular, fadiga e dificuldades respiratórias.

Ela também contraiu Covid-19 duas vezes. Segundo a família, os efeitos prolongados da doença comprometeram ainda mais sua capacidade respiratória.

Nos últimos anos, Martha permaneceu dentro do pulmão de aço durante quase todo o tempo. Antes disso, ainda conseguia deixar o equipamento por algumas horas com auxílio de outras formas de ventilação.

Martha escrevia poemas e ajudava animais

Além de escrever poemas e compor músicas, Martha se envolveu com ações de proteção animal.

Ela ajudava no resgate de cães, principalmente da raça beagle, e divulgava campanhas pelas redes sociais. Também acompanhava filmes antigos, pintava e mantinha contato com outras pessoas pela internet.

Martha chegou a escrever o próprio obituário. O texto destacava sua espiritualidade, o amor pelos animais e as pessoas que participaram de sua trajetória.

Relacionamento à distância terminou em casamento

Martha conheceu o egípcio Baha Salh pela internet. Os dois mantiveram um relacionamento à distância por mais de duas décadas.

Depois que Baha obteve autorização para viajar aos Estados Unidos, o casal se casou em fevereiro de 2026, poucos meses antes da morte de Martha.

A irmã da americana descreveu os dois como almas gêmeas e afirmou que o marido ficou profundamente abalado com a perda.

Vacinação transformou história da poliomielite

A poliomielite é uma doença viral altamente contagiosa. O vírus pode atingir o sistema nervoso e provocar paralisia irreversível.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente uma em cada 200 infecções causa paralisia. Entre as pessoas paralisadas, de 5% a 10% morrem quando os músculos respiratórios deixam de funcionar.

Em 1988, o mundo contabilizava uma estimativa de 350 mil casos anuais de poliomielite causada pelo vírus selvagem, distribuídos por mais de 125 países. Em 2021, esse total havia caído para seis casos, uma redução superior a 99%.

O resultado ocorreu principalmente devido às campanhas internacionais de vacinação.

Brasil não registra poliovírus selvagem desde 1989

O último caso de infecção pelo poliovírus selvagem no Brasil ocorreu em 1989, no município de Sousa, na Paraíba.

O país recebeu a certificação de eliminação da doença em 1994. Contudo, o Ministério da Saúde alerta que a baixa cobertura vacinal mantém o risco de reintrodução por meio de casos importados.

Por isso, a ausência de casos não torna a vacinação desnecessária. Ao contrário, manter a proteção infantil elevada impede o retorno de uma doença capaz de provocar paralisia permanente e morte.

Morte encerra uma era médica nos Estados Unidos

Martha tornou-se a última usuária conhecida de pulmão de aço nos Estados Unidos depois da morte de Paul Alexander, em março de 2024.

Embora existam ventiladores modernos, ela afirmava que o equipamento antigo era a alternativa mais confortável e eficiente para suas necessidades.

Sua trajetória preservou a memória de uma época em que hospitais mantinham fileiras de crianças dentro de respiradores metálicos.

Ao mesmo tempo, sua morte evidencia a transformação provocada pelas vacinas. Equipamentos que antes eram essenciais tornaram-se raros porque a imunização evitou novos casos semelhantes.

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Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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