
Boto admite que Flamengo pode vender até três jogadores em pior cenário sem bets | Gilvan de Souza/Flamengo
O Flamengo pode precisar vender até três jogadores e não conseguir repor as saídas com atletas do mesmo nível caso se confirme o cenário financeiro mais desfavorável provocado pela perda das receitas das bets. Diretor de futebol do clube, José Boto apresentou nesta quinta-feira (1º) pela primeira vez uma consequência diretamente ligada ao elenco profissional.
O português não revelou nomes e tampouco afirmou que alguma venda já está planejada. A possibilidade integra os diferentes cenários que a diretoria começou a projetar para 2027 depois da entrada em vigor da Medida Provisória 1.394/2026, que proibiu apostas de quota fixa e sua publicidade no Brasil.
Boto resumiu a hipótese mais negativa:
“O pior cenário, se calhar, passa por termos que vender um jogador, ou dois ou três jogadores.”
Nesse quadro, o Flamengo utilizaria recursos obtidos com negociações para cumprir compromissos já assumidos. Além disso, poderia encontrar dificuldades para contratar substitutos com o mesmo nível esportivo dos atletas vendidos.
Flamengo já trabalha com diferentes cenários para 2027
A declaração ocorreu depois de uma conversa de aproximadamente quatro horas entre Boto e o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap.
Segundo o diretor, a área de futebol passou a trabalhar levando em consideração diferentes níveis de perda de receita.
O contrato com a Betano, patrocinadora máster, poderia render ao Flamengo aproximadamente R$ 268 milhões por ano. A proibição alcança também publicidade, propaganda, marketing e patrocínio ligados às apostas de quota fixa.
Bap já havia estimado anteriormente um impacto total entre R$ 400 milhões e R$ 430 milhões nas receitas de 2027, considerando diferentes fontes relacionadas direta ou indiretamente ao setor. Trata-se de uma projeção da diretoria rubro-negra, não de uma perda já realizada.
O Folha do Leste mostrou que Bap chegou a citar as parcelas da contratação de Lucas Paquetá ao explicar o impacto das bets no planejamento do Flamengo.
Boto descarta atraso de salários
Apesar do cenário apresentado, Boto fez uma distinção importante.
Segundo o diretor, os salários dos jogadores e funcionários não estão ameaçados, inclusive no planejamento para 2027. A preocupação está nos compromissos financeiros assumidos pelo clube com outras equipes e no dinheiro necessário para manter a capacidade de investimento do departamento de futebol.
Um desses compromissos envolve justamente Lucas Paquetá.
Quando Bap questionou publicamente como pagaria a contratação do meia, Boto explicou que o presidente se referia às parcelas acertadas com o West Ham, e não ao salário do jogador.
O Flamengo montou seu planejamento contando com receitas decorrentes de contratos que estavam legalmente vigentes quando os compromissos foram assumidos. Agora, a diretoria precisa refazer essas projeções.
Venda não significa que Flamengo já escolheu jogadores
A fala de Boto exige uma diferença importante entre cenário e decisão.
O Flamengo não colocou três jogadores à venda, tampouco existem nomes definidos para negociação por causa das bets.
O dirigente apresentou uma hipótese dentro do pior cenário estudado pelo clube.
Portanto, qualquer associação entre jogadores específicos e uma eventual saída extrapolaria o que Boto afirmou nesta quinta-feira.
O impacto também pode surgir de outras maneiras. A diretoria poderá reduzir investimentos, adiar contratações ou trabalhar com reposições mais baratas caso precise adequar o futebol à nova realidade financeira.
Renovações podem ganhar importância
Curiosamente, a restrição para contratar pode aumentar a importância de preservar jogadores que já pertencem ao elenco.
Boto explicou que o problema financeiro não altera, a princípio, as negociações de renovação. Pelo contrário: se houver menor capacidade de comprar atletas no mercado, manter peças importantes passa a ter ainda mais peso.
Esse raciocínio conversa diretamente com uma estratégia que o Flamengo já havia iniciado.
Em setembro, o Folha do Leste mostrou que o clube colocou as renovações de Pedro e Léo Pereira entre as prioridades do planejamento.
Assim, a eventual perda de capacidade de investimento poderia mudar também a equação do mercado: vender somente quando necessário e proteger jogadores difíceis de substituir.
Flamengo já levou disputa ao STF
Enquanto o departamento de futebol monta cenários, a diretoria atua em outra frente.
Nesta quinta-feira, o ministro Luiz Fux autorizou o Flamengo a participar como amicus curiae de três ações que discutem as bets no Supremo Tribunal Federal. A decisão permite ao clube apresentar argumentos e documentos, mas não suspendeu a MP nem liberou novamente as apostas.
O Folha do Leste explicou o que mudou depois que Fux aceitou a entrada do Flamengo nas ações sobre bets.
Portanto, as duas frentes avançam simultaneamente.
No jurídico, o clube tenta alterar os efeitos da nova regra. No futebol, Boto precisa preparar o orçamento caso isso não aconteça.
Boto teme perda de competitividade
O dirigente também ampliou a preocupação para o futebol brasileiro.
Na avaliação de Boto, uma queda generalizada das receitas poderá reduzir a capacidade dos clubes do país de disputar jogadores no mercado internacional e, consequentemente, afetar a competitividade na Copa Libertadores. Essa é uma projeção do diretor, não um efeito já demonstrado da medida.
Para o Flamengo, entretanto, a consequência mais concreta apresentada nesta quinta-feira apareceu pela primeira vez em número de jogadores.
No cenário mais adverso trabalhado pelo departamento de futebol, uma venda pode virar duas ou três — e as reposições podem não ter o mesmo nível.







