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“Até o próximo voo”: Lito Sousa morre aos 59 anos

Lito Souza, criador do Aviões e Músicas, morre aos 59 anos | Reprodução

Lito Souza, criador do Aviões e Músicas, morre aos 59 anos | Reprodução

Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, morreu nesta quinta-feira, 1º de outubro, aos 59 anos. Ele enfrentava a doença de Creutzfeldt-Jakob, condição neurológica rara, de rápida evolução e sem cura. A família comunicou a morte sem fazer uso da palavra em si, mas com um vídeo intitulado “Até o próximo voo” como despedida, expressão usada por Lito no encerramento de seus vídeos:

A homenagem reúne imagens da carreira, assim como momentos da vida com a esposa, Mila Seidl. De igual forma, o nascimento do filho Malone. Atualmente, o menino tem sete anos.

Entre explicações sobre aviões e registros familiares, o vídeo apresenta, principalmente, o lado humano do homem. Acima de tudo, Lito sempre teve coragem de acreditar que podia ir além. Assim, dos primeiros vídeos tremidos às produções mais profissionais, nasceu o comunicador que realizou o sonho de tornar a aviação compreensível para milhões de pessoas.

“Eu não sei explicar sua partida. Talvez ninguém saiba”, diz Mila na despedida.

Antes do sucesso no YouTube, Lito fez carreira como mecânico de aeronaves. Ao passo que o Aviões e Músicas crescia no YouTube, Lito sofria preconceito e discriminação de pilotos. Então, após algum tempo, tornou-se piloto não só para realizar seu sonho mas também para justificar sua expertise em segurança aérea.

Quem era Lito Sousa

Joselito Geraldo de Sousa nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 25 de janeiro de 1967. Ainda adolescente, iniciou sua formação em um curso técnico ligado à Força Aérea Brasileira, no litoral paulista.

A manutenção de aeronaves abriu caminho para uma trajetória de mais de três décadas no setor. Lito trabalhou na Varig, na Transbrasil e na United Airlines, acumulando experiência técnica e funções de supervisão.

Na United, chegou ao cargo de chefe internacional de manutenção de aeronaves. Também se especializou em fatores humanos, área que examina como decisões, comunicação e limitações das pessoas interferem na segurança das operações.

Antes da projeção nas redes sociais, trabalhou no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo. A experiência na aviação africana inspirou o livro “Onde Morrem os Aviões”, publicado em 2018.

Em 2021, conquistou a licença de piloto privado. O público acompanhou sua formação na série “Decola Lito”.

Dos hangares para milhões de seguidores

Vale destacar que Lito transformou seu conhecimento técnico em explicações acessíveis no Aviões e Músicas. Primordialmente, sobre turbulência e incidentes aéreos. Além disso, apresentou roteiros importantes sobre acidentes, motores, manutenção, segurança de voo e outros assuntos.

Lito também analisava acidentes e incidentes. Dava explicações sobre procedimentos assim como ponderava acerca dos fatores envolvidos nas ocorrências. Desse modo, o pioneirismo de seu trabalho aproximou o público do universo da aviação. Para muitos passageiros, um ambiente cercado de dúvidas e medo.

A atuação ultrapassou os vídeos. Ao lado de Mila — a mulher que ele conheceu por ter medo de voar e que se tornou sua esposa — desenvolveu projetos de educação e formação profissional. Nesse sentido, a Lito Aviation Academy, com cursos voltados ao setor aeronáutico.

Outra frente de trabalho atendia pessoas com medo de viajar de avião. Além dos cursos, publicou “Medo de Avião Nunca Mais”.

Do câncer ao diagnóstico da doença neurológica

Em julho de 2026, Lito tornou público que havia recebido um diagnóstico de câncer de próstata, identificado durante acompanhamento médico.

Enquanto organizava o tratamento, passou a apresentar sintomas neurológicos. Relatou formigamento e perda progressiva de coordenação no braço e na mão esquerdos.

Inicialmente, os médicos investigaram um quadro de inflamação no sistema nervoso. Com a continuidade dos exames, a família recebeu outro diagnóstico.

Em 21 de agosto, Mila anunciou que o marido tinha a doença de Creutzfeldt-Jakob, conhecida pela sigla DCJ. Na ocasião, relatou que ele perdia habilidades motoras, embora permanecesse lúcido.

O diagnóstico deu início a uma mobilização de familiares, amigos e seguidores para buscar alternativas experimentais no exterior.

A busca por tratamento experimental

Em 4 de setembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa autorizou excepcionalmente a importação e o uso individual do ALN-6457.

O pedido partiu da equipe do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. A substância ainda não havia passado por estudos clínicos formais em seres humanos para aquela doença.

Lito recebeu o medicamento em setembro, tornando-se o primeiro ser humano a utilizar o ALN-6457. O acesso ocorreu em caráter compassivo, diante da gravidade do quadro e da ausência de uma terapia comprovada contra a doença.

A autorização não significava comprovação de segurança ou eficácia. A família manteve a esperança, mas enfrentou a progressão do quadro.

Em 25 de setembro, Mila desmentiu informações sobre uma suposta recuperação dos movimentos do marido. Ela afirmou que não havia melhora naquele momento.

O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob

A DCJ pertence ao grupo das doenças priônicas. Está associada a proteínas anormais, chamadas príons, que provocam danos progressivos ao cérebro.

A condição pode comprometer movimentos, coordenação, visão, memória e linguagem. Sua evolução costuma ser rápida.

Não existe tratamento comprovadamente capaz de interromper a progressão da doença. A assistência busca controlar sintomas e oferecer suporte ao paciente e à família.

A despedida de Mila e Malone

Na homenagem publicada nesta quinta-feira, Mila relembra os projetos construídos pelo casal e dá destaque à chegada de Malone.

“Mas o nosso maior feito foi o nosso filho Malone”, afirma, enquanto aparecem imagens do menino ainda bebê.

O vídeo alterna registros de Lito nos aeroportos, diante das câmeras e com a família. Ao recordar sua trajetória, Mila deixa uma mensagem sobre o legado do marido:

“Eu sei que você cumpriu a sua missão.”

Na legenda da despedida, ela escreveu:

“Um grande abraço e até o próximo voo. Foi uma honra ter viajado com você. Te amo. Sempre.”

Texto completo do vídeo

No vídeo “Até o próximo voo”, Mila Seidl se despediu do marido com uma mensagem que reúne lembranças da vida em família e da trajetória construída ao lado de Lito. Abaixo, a íntegra da homenagem narrada por ela, intercalada, na gravação, com imagens de arquivo:

“Por mais de 15 anos, vocês assistiram ao Lito dizendo: ‘Saudações aeronáuticas! Tudo bem com vocês? Tudo bem!’

Juntos, construímos uma comunidade e criamos uma relação de amigos. Aquele amigo que ajuda o outro, que acolhe os medos e transforma em segurança.

Por mais de 15 anos, vocês conheceram o Lito do Aviões e Músicas.

Eu conheci o Lito pai do Malone, meu marido, o filho de Terezinha e Sebastião, irmão de cinco, amigo leal e o ser humano mais íntegro que eu já conheci.

Conheci o Lito que nasceu no Rio Grande do Norte e cresceu em Santos. Na infância humilde, observava os navios atracando, mas foi nos aviões que ele alcançou voos que nunca imaginou.

E foi assim que as nossas vidas se cruzaram.

Você veio para me salvar. Me salvar do medo de voar e também cobrir os meus pés antes de dormir, para os espíritos não me pegarem.

Eu, com muito medo de voar; você, com toda a sua sabedoria, me deu mais do que um próximo destino. Me deu um novo caminho pela imensidão do céu.

Começamos com nada. Comemos pizza no chão da sala, construímos tijolo por tijolo o Aviões e Músicas, o Lito Group. Tantos sonhos, tantas histórias.

Mas o nosso maior feito foi o nosso filho Malone. Um sonho materializado em um amor inigualável.

Foi com você que eu aprendi que a aviação trabalha todos os dias pela decolagem e pela aterrissagem em segurança.

No canal, falamos de tantas chegadas e partidas, de planos de voo que deram errado e precisaram ser reajustados.

Mas nunca eu imaginei que um dia precisaríamos falar da sua partida.

A vida é uma viagem com bilhete de ida e volta e a rota desse voo é planejada pelo grande Comandante. Como não questionar esse plano de voo?

O grande Comandante decidiu levá-lo para perto dele. Para perto dos seus pais e do seu irmão Geraldo.

Por quê?

Me falaram que as pessoas boas que cumprem sua missão com excelência e vão para perto de Deus mais rápido.

Eu não sei explicar a sua partida. Talvez ninguém saiba.

Mas, olhando para a vida que você viveu, eu sei que você cumpriu a sua missão.

O Brasil inteiro te ama porque você deixou muita gente mais segura para seguir viagem.

Teria a aviação se inspirado na vida?

Passageiro vem do latim passus: aquele que passa.

Somos passageiros na vida e também nos aviões. Passamos por lugares, por experiências, por pessoas.

Vivemos entre pontos de partida e de chegada e, assim como nos aeroportos, precisamos aprender a lidar com as despedidas.

Só que essa é uma despedida diferente. Um voo para outra rota, outro destino, outro plano.

E talvez seja aqui que a gente precise aprender mais, mais uma vez, uma coisa que você nos ensinou o tempo todo: que não precisamos ter medo de voar.

Você nos ensinou a olhar para cima.

Então, vou imaginar que você me diria:

‘Não chores pela minha partida. Olhe para o céu, como procuras um avião. Ao olhar, eu vou estar lá.’”

 

André Freitas
André Freitas é diretor-executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Jornalista e radialista desde a década de 1990, é narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Possui ampla experiência na cobertura da editoria de política, em razão de funções exercidas nos poderes Legislativo e Executivo, com atuação nas Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo e Campos dos Goytacazes, além da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e da Prefeitura de Niterói. Dirigiu por 15 anos a Rádio Absoluta, onde apresentou programas noticiosos diários e conduziu coberturas esportivas, incluindo mais de uma década acompanhando a seleção brasileira de futebol. Nesse período, esteve presente em duas Copas do Mundo e em uma edição dos Jogos Olímpicos. Trabalhou também nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e Litorânea (ES). Exerceu o cargo de editor-chefe nos jornais Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ), além de atuar como colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

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