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Celular e crise de ansiedade. Uma relação que parece não ter fim

Pesquisa revela que brasileiros passam mais de três horas por dia no celular. Foto: Pixabay.

O costume de conferir a última atualização de uma rede social pode não ser apenas um mero hábito. Isso porque é cada vez maior o número de pessoas que desenvolvem crise de ansiedade por causa do uso frequente da internet no celular. E duas pesquisas corroboram essa situação.

Em 2023, um levantamento do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel apontou que 43,5% dos brasileiros que utilizam redes sociais por três horas, ou mais, ao dia possuem diagnóstico de ansiedade. E outra estatística, também do mesmo ano, mostra que esse uso é cada vez mais frequente. Isso porque a pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) apontou que 92 milhões de brasileiros acessam a internet exclusivamente pelo celular. Este número representa 62% dos pouco mais de 150 milhões de habitantes que têm acesso à conexão de rede. Embora tenham quase três anos de realização, ambas as pesquisas são as mais recentes sobre o tema.

A psicanalista Andrea Ladislau alerta que o consumo desenfreado de conteúdo digital atua como gatilho para diversos transtornos.

O uso excessivo estimula doenças emocionais e físicas que, se não tratadas a tempo, podem se tornar irreversíveis. Alguns exemplos dissão são a queda da autoestima e a comparação constante. Também há o estímulo à fobia social e a menor interação presencial; o medo patológico de estar desconectado ou longe do aparelho. E o uso das redes como refúgio por quem já sofre de depressão, evitando o enfrentamento de sentimentos reais”, destaca.

Andréa Ladislau é psicóloga e trata pessoas dependentes em rede social. Foto: Divulgação.

Crises de temor em jantar com o marido

Profissional que atua há mais de 10 anos com marketing digital, Caroline Carvalho conhece bem essa realidade. Isso porque já enfrentou até crises de tremor ao passar algumas horas ausente do aparelho.

Em conversa com o portal Folha do Leste, Carol, como é carinhosamente chamada pelos amigos, afirma que precisa lidar constantemente com o celular pelo aparelho ser o instrumento de trabalho dela. Entretanto, reconhece que já ficou “pilhada” em horários quando devia dar uma pausa.

Como trabalho direto com mídias sociais, a gente fica pilhada até quando não está trabalhando. Eu já acordo com o celular. Então começa por aí. Durante meu aniversário de casamento, minha terapeuta sugeriu que eu saísse com o meu marido e que ficasse sem o telefone. Avisei à minha sócia para ficar de olho nas publicações. Antes de encontrá-lo, fui à aula de jiu-jitsu do meu filho para levá-lo até minha sogra, justamente para poder aproveitar com o meu esposo. Porém, queria falar com ele e fiquei aflita, pois não tinha o celular para ligar ou mandar mensagem. E aí minha mão suava, fiquei nervosa e tentei me distrair conversando com outras pessoas”, recorda.

Caroline Carvalho precisa do celular para o trabalho com marketing digital. Foto: Reprodução/redes sociais.

Pouco depois da espera, o marido, de nome Marcelo, a encontrou e ambos foram ao restaurante. Mas ao chegar ao local, Carol, novamente, se viu com crise de ansiedade.

Depois que meu marido chegou, saímos para o restaurante. Ao chegarmos lá, novamente fiquei nervosa. Esperávamos a comida e, nesse tempo, fiquei desesperada para ter acesso ao telefone. Só fui relaxar depois de umas duas ou três horas. Essa experiência serviu para me mostrar que tenho uma dependência. É algo assustador saber o quão dependentes somos do telefone”, admite Carol.

Atividades que podem ajudar a preencher o tempo sem uso da tela

Diante de exemplos como o que Carol descreveu, o que fazer?

Andréa Ladislau sugere hábitos simples, como a leitura por um livro físico; uma boa conversa com amigos, filhos e familiares; aplicar a calma e paciência para saborear e degustar um alimento. Além disso, sugeriu que a pessoa ouça uma boa música relaxante; deitar e se permitir não fazer nada ou fazer uma atividade física prazerosa.

A conscientização sobre o tempo dedicado aos eletrônicos é, hoje, um pilar fundamental para garantir relações pessoais, profissionais e acadêmicas mais leves e saudáveis”, explica Andrea.

Pensando nisso, a psicóloga e professora universitária Fátima Antunes pensou na ideia de um jogo onde as pessoas pudessem se reunir sem a necessidade do celular. Graças a isso, surgiu o Papo Cabeça.

A iniciativa funciona da seguinte forma. Durante um treinamento, ela sentiu falta de um recurso que estimulasse o diálogo de forma objetiva, leve e, ao mesmo tempo, profunda. Por isso, a ideia do jogo é usar frases de pensadores importantes da história, que servem como disparadores para reflexões sobre temas como autoconhecimento, emoções, tomada de decisão, orientação de carreira, relacionamentos e propósito.

A dinâmica se aplica de maneira individual ou em grupo, tanto em contextos terapêuticos quanto educacionais, corporativos ou de desenvolvimento pessoal. Isso porque, segundo Fátima, a simplicidade é um dos grandes trunfos do jogo.

Ele é fácil de aplicar, não exige tecnologia e cria um ambiente de troca muito rico. A partir de uma frase objetiva, a pessoa acessa sua própria subjetividade”, explica.

A psicóloga Fátima Antunes (centro) joga o Papo Cabeça junto com duas amigas. Foto: Divulgação.

Com a experiência de quem atua há 30 anos na área de Recursos Humanos, Fátima reforça a necessidade de experiências presenciais que favoreçam o foco, a escuta e a interação humana.

Mesmo não sendo digital, os jovens se identificam rapidamente com o Papo Cabeça. O celular fica de lado e a conversa acontece, Ele cria lacunas para o diálogo, para pensar possibilidades e ampliar o olhar sobre um mesmo tema”, avalia a psicóloga.

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