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Anemia pode sobrecarregar o coração e agravar doenças cardiovasculares

Paciente conversa com cardiologista durante investigação de anemia, palpitações e falta de ar

Anemia pode sobrecarregar o coração e agravar doenças cardiovasculares | Reprodução

Cansaço persistente, falta de ar, palpitações e dificuldade para realizar atividades que antes pareciam simples podem indicar um problema no coração. Mas esses mesmos sintomas também podem ser provocados pela anemia, condição que reduz a capacidade do sangue de transportar oxigênio e obriga o sistema cardiovascular a trabalhar em ritmo mais intenso.

A anemia acontece quando há diminuição da hemoglobina ou da quantidade de glóbulos vermelhos saudáveis. A hemoglobina funciona como uma transportadora de oxigênio: leva o elemento captado pelos pulmões para o cérebro, os músculos, o coração e os demais órgãos.

Quando essa capacidade diminui, o organismo tenta compensar. O coração passa a bater mais rápido e a bombear um volume maior de sangue para entregar aos tecidos o oxigênio de que precisam.

Segundo a cardiologista Dra. Isa Bragança, fundadora da Cardiomex, essa resposta pode gerar sintomas mesmo em pessoas sem diagnóstico prévio de doença cardíaca e representar um risco adicional para quem já possui algum comprometimento cardiovascular.

“Quando o sangue transporta menos oxigênio, o coração precisa aumentar o esforço para manter o funcionamento do organismo. Esse mecanismo pode provocar aceleração dos batimentos, palpitações, cansaço e falta de ar. Para quem já tem uma doença cardíaca, a sobrecarga pode ser ainda mais significativa”, explica.

Coração tenta compensar a falta de oxigênio

Em condições normais, o coração bombeia sangue rico em oxigênio para todo o corpo. Na presença de anemia, porém, cada porção de sangue transporta uma quantidade menor desse combustível vital.

Para compensar a deficiência, o organismo pode aumentar a frequência cardíaca e o débito cardíaco, que corresponde à quantidade de sangue bombeada pelo coração em determinado período. É uma espécie de plano de emergência do corpo: como cada viagem leva menos oxigênio, o coração tenta fazer mais viagens.

Quando essa exigência se mantém por muito tempo ou ocorre em uma pessoa com menor reserva cardiovascular, os mecanismos de compensação podem não ser suficientes. O paciente passa a apresentar indisposição, fraqueza, tontura, falta de ar durante pequenos esforços e sensação de coração acelerado.

“Uma palpitação persistente não deve ser automaticamente atribuída à ansiedade, assim como o cansaço não deve ser considerado apenas resultado de estresse ou falta de condicionamento. O hemograma faz parte da investigação porque alterações no sangue podem estar por trás de sintomas que parecem exclusivamente cardíacos”, afirma Dra. Isa.

A intensidade das manifestações depende do grau da anemia, da velocidade com que ela se desenvolveu, da idade do paciente e da presença de outras doenças. Uma queda lenta da hemoglobina pode levar o organismo a se adaptar temporariamente, fazendo com que os sinais apareçam de maneira discreta. Já uma perda rápida de sangue pode provocar sintomas intensos, mesmo quando a redução ainda é recente.

Insuficiência cardíaca e anemia podem formar um ciclo

A preocupação é maior entre pessoas com insuficiência cardíaca, condição em que o coração não consegue bombear sangue adequadamente ou apresenta dificuldade para se encher e funcionar com eficiência.

Nesses pacientes, a anemia aumenta a demanda sobre um órgão que já enfrenta limitações. O resultado pode ser a piora da falta de ar, do inchaço, do cansaço e da intolerância aos esforços, além de maior dificuldade para realizar tarefas cotidianas.

“Na insuficiência cardíaca, o paciente já possui uma capacidade cardiovascular comprometida. Quando a anemia se soma ao quadro, o coração precisa enfrentar uma exigência maior justamente quando dispõe de uma reserva menor. Essa combinação pode favorecer a descompensação”, esclarece a cardiologista.

A relação também acontece no sentido inverso. Pessoas com insuficiência cardíaca podem apresentar anemia ou deficiência de ferro em razão de inflamação crônica, alterações na função dos rins, perdas sanguíneas, redução da absorção intestinal e uso de determinados medicamentos.

Com isso, as duas condições podem formar um ciclo: a doença cardíaca favorece alterações que prejudicam a produção ou a disponibilidade de glóbulos vermelhos, enquanto a anemia aumenta a sobrecarga sobre o coração.

A deficiência de ferro merece atenção especial. Dados reunidos pela American Heart Association indicam que ela está presente em aproximadamente metade dos pacientes com insuficiência cardíaca sintomática. O problema pode existir mesmo quando o hemograma ainda não mostra anemia.

“Deficiência de ferro e anemia não são exatamente a mesma coisa. O paciente pode ter estoques insuficientes de ferro sem apresentar uma queda importante da hemoglobina. Ainda assim, pode sentir mais cansaço, perda de rendimento físico e piora da qualidade de vida”, observa Dra. Isa.

Por isso, a investigação não deve se limitar ao hemograma. Em pacientes com insuficiência cardíaca, a avaliação pode incluir ferritina e saturação de transferrina, exames que ajudam a identificar se há ferro disponível em quantidade suficiente para o organismo.

Doença coronariana exige atenção redobrada

A anemia também pode representar um risco adicional para pessoas com doença arterial coronariana, caracterizada pelo estreitamento ou pela obstrução das artérias que levam sangue ao músculo cardíaco.

Nesse cenário, o coração já pode receber uma quantidade menor de sangue por causa da dificuldade de circulação nas artérias. Quando o sangue também transporta menos oxigênio, a oferta ao músculo cardíaco sofre uma segunda limitação.

A combinação pode facilitar o aparecimento ou a piora da angina, dor ou desconforto no peito provocado pela falta de oxigênio no coração. O risco é especialmente relevante em idosos, pessoas que já tiveram infarto e pacientes com múltiplas doenças crônicas.

“Na doença coronariana, existe uma dificuldade mecânica para o sangue chegar a determinadas áreas do coração. Na anemia, o sangue que consegue chegar leva menos oxigênio. Por isso, um paciente que estava estável pode passar a sentir dor no peito, falta de ar ou perda de capacidade física quando a hemoglobina cai”, explica a médica.

Isso não significa que toda pessoa com anemia desenvolverá um infarto ou uma doença cardíaca. A anemia, porém, pode revelar sintomas antes silenciosos ou agravar uma condição cardiovascular já existente.

Sintomas semelhantes podem confundir o diagnóstico

Anemia e doenças cardiovasculares compartilham diferentes sinais, como falta de ar, palpitação, tontura, fraqueza, dor de cabeça, cansaço e dificuldade para praticar exercícios.

Essa sobreposição pode atrasar o diagnóstico. Uma pessoa com problema cardíaco pode acreditar que todos os sintomas são provocados pelo coração. Em sentido contrário, alguém sem diagnóstico cardiovascular pode considerar a indisposição apenas uma consequência da anemia, sem investigar se existe uma doença cardíaca associada.

Idosos merecem cuidado especial, pois o cansaço e a perda de capacidade funcional ainda são frequentemente naturalizados como parte do envelhecimento.

“Nem todo cansaço vem do coração, mas todo cansaço persistente precisa ser investigado. O mesmo vale para a falta de ar. O papel do médico é avaliar o paciente de forma integral, sem olhar apenas para um órgão ou para um resultado isolado”, destaca Dra. Isa Bragança.

O hemograma é o exame inicial para identificar a anemia, mas a investigação pode incluir dosagem de ferro, ferritina, saturação de transferrina, vitamina B12, ácido fólico e avaliação da função renal.

Também pode ser necessário pesquisar perdas de sangue, inflamações crônicas, alterações gastrointestinais, doenças renais e problemas na produção das células sanguíneas.

Uso de anticoagulantes requer acompanhamento

Pacientes com doenças cardiovasculares frequentemente utilizam medicamentos que reduzem a formação de coágulos, como anticoagulantes e antiagregantes plaquetários. Esses remédios são fundamentais em diversas situações, mas podem aumentar a gravidade de sangramentos ou tornar mais evidente uma perda de sangue que já estava ocorrendo.

O surgimento de anemia em uma pessoa que utiliza esses medicamentos deve ser investigado. Isso não significa que o tratamento deva ser suspenso por conta própria.

“Um paciente que usa anticoagulante nunca deve interromper a medicação sem orientação. Diante de uma queda da hemoglobina, precisamos investigar se existe sangramento, avaliar a origem do problema e equilibrar os riscos. Suspender o remédio sozinho também pode causar eventos graves, como trombose ou acidente vascular cerebral”, alerta a cardiologista.

Sinais como fezes muito escuras, sangue nas fezes ou na urina, sangramentos frequentes, manchas roxas extensas, palidez intensa e piora rápida do cansaço devem ser comunicados ao médico.

Reposição de ferro não deve ser feita por conta própria

Embora a deficiência de ferro seja uma causa comum de anemia, ela não é a única. A alteração também pode estar relacionada à falta de vitamina B12 ou ácido fólico, doença renal, inflamações, perdas sanguíneas, doenças da medula óssea e outras condições.

Tomar ferro sem identificar a origem do problema pode atrasar diagnósticos importantes e provocar efeitos adversos, como náuseas, dores abdominais e constipação.

Em pacientes com insuficiência cardíaca e deficiência de ferro, a reposição intravenosa pode ser indicada em situações específicas para melhorar sintomas, capacidade para exercícios e qualidade de vida. A decisão, no entanto, depende do tipo de insuficiência cardíaca, dos exames laboratoriais e da avaliação individual.

“Não existe uma reposição padrão que sirva para todos. O tratamento precisa considerar a causa da anemia, os níveis de hemoglobina, os estoques de ferro, a função renal, as doenças associadas e os medicamentos utilizados pelo paciente”, ressalta Dra. Isa.

Tratar somente o resultado do hemograma também não resolve o problema quando há uma perda de sangue, doença renal ou inflamação persistente por trás da alteração.

Dor no peito e falta de ar em repouso são sinais de alerta

A procura por atendimento deve ser imediata quando a pessoa apresenta dor ou pressão no peito, falta de ar em repouso, desmaio, confusão, suor frio, palidez intensa ou palpitação acompanhada de tontura e mal-estar.

Também é importante buscar avaliação quando ocorre redução progressiva da capacidade física, como precisar parar várias vezes ao caminhar, sentir falta de ar ao tomar banho ou perceber dificuldade para executar tarefas que faziam parte da rotina.

“O corpo costuma avisar quando não está conseguindo compensar. Dor no peito, falta de ar importante e desmaio não são sintomas para esperar passar. A avaliação rápida pode identificar tanto uma anemia grave quanto uma emergência cardiovascular”, orienta a especialista.

Cuidar do sangue também ajuda a proteger o coração

A avaliação cardiovascular vai além da pressão arterial, do colesterol e dos exames de imagem. A saúde do sangue, a função dos rins, os estoques de ferro e a presença de inflamações também interferem no funcionamento do coração.

Para Dra. Isa Bragança, reconhecer essa conexão permite diagnosticar mais cedo condições que poderiam permanecer escondidas atrás de sintomas considerados genéricos.

“O coração não trabalha isoladamente. Ele depende dos pulmões para receber oxigênio, dos rins para controlar líquidos e do sangue para transportar tudo aquilo de que os órgãos precisam. Investigar e tratar corretamente a anemia também é uma forma de reduzir a sobrecarga cardiovascular e cuidar do paciente por inteiro”, conclui.

Sobre a especialista

Dra. Isa Bragança é cardiologista e fundadora da Cardiomex. Atua na prevenção, no diagnóstico e no acompanhamento das doenças cardiovasculares, com abordagem voltada à avaliação integral e individualizada do paciente.

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Adriana Diniz
Adriana Leite Diniz é jornalista com mais de 20 anos de experiência em grandes redações do Rio de Janeiro, com passagens por Jornal do Brasil, Jornal do Commercio, Expresso e Jornal Extra. Atuou na cobertura de política, saúde, economia e hard news, exercendo funções de repórter, redatora, chefe de reportagem e subeditora. Recebeu a Medalha Tiradentes da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e integrou série especial do Jornal Extra selecionada para concorrer ao Prêmio Esso de Jornalismo. Atualmente é repórter especial e colunista de Saúde do Folha do Leste, onde escreve sobre saúde pública, prevenção, bem-estar e políticas do setor.

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