
Anemia em idosos pode ser confundida com sinais do envelhecimento e aumentar risco de quedas e morte | Reprodução/Pixabay
Cansaço constante, tontura, perda de força, falta de ânimo e alterações na memória costumam ser atribuídos ao avanço da idade. No entanto, esses sintomas podem indicar anemia, condição frequente entre idosos e que, apesar de muitas vezes silenciosa, pode comprometer a autonomia, agravar doenças preexistentes e aumentar o risco de hospitalização e morte.
A anemia ocorre quando há redução da hemoglobina ou da quantidade de glóbulos vermelhos saudáveis no sangue. Com isso, o transporte de oxigênio para o cérebro, o coração, os músculos e outros órgãos fica prejudicado.
De acordo com a clínica geral e geriatra Dra. Márcia Umbelino, a condição nunca deve ser tratada como uma consequência inevitável do envelhecimento.
“É comum que o idoso e a própria família atribuam o cansaço, a lentidão e a perda de disposição à idade. Mas envelhecer não significa viver permanentemente cansado, sem força ou com falta de ar. Quando esses sinais aparecem, é preciso investigar”, alerta.
Na população idosa, o impacto pode ser maior devido à presença de doenças crônicas, ao uso contínuo de medicamentos, à perda de massa muscular e à menor capacidade do organismo de reagir a alterações clínicas.
Dados sobre internações por anemia ferropriva no Brasil registraram mais de 42 mil hospitalizações de idosos entre 2017 e 2023. No período, houve crescimento de 5,7% no número de internações, enquanto a taxa anual passou de 21 para 24 casos a cada 100 mil idosos.
A mortalidade também chama a atenção. Pessoas com mais de 60 anos concentram 83,13% dos óbitos relacionados à anemia nutricional. Entre aqueles com mais de 80 anos, o percentual corresponde a 55,21% das mortes.
Sintomas podem parecer depressão ou demência
Em adultos mais jovens, a anemia costuma provocar sinais conhecidos, como palidez, sonolência, tontura, unhas frágeis, queda de rendimento, falta de ar durante esforços e cansaço persistente.
Nos idosos, porém, a manifestação pode ser menos evidente. Apatia, confusão, esquecimentos, instabilidade ao caminhar e redução da capacidade para realizar atividades cotidianas podem ser interpretados como depressão, demência, sedentarismo ou consequência natural da idade.
“A anemia no idoso nem sempre aparece apenas como fraqueza ou palidez. Ela pode se manifestar por meio de piora da memória, confusão, quedas frequentes, desânimo e perda de autonomia. Por isso, qualquer mudança funcional ou comportamental precisa ser observada com atenção”, explica a geriatra.
A redução da oxigenação também pode provocar perda de força muscular e dificuldade para caminhar, elevando o risco de quedas e fraturas. Em pessoas com doenças cardíacas, a anemia pode sobrecarregar ainda mais o coração, causando palpitações, piora da falta de ar e redução da capacidade funcional.
Segundo estudos, a presença de anemia pode elevar o risco de morte em até 58% entre homens idosos e 68% entre mulheres idosas. Em instituições de longa permanência, a mortalidade entre idosos anêmicos pode chegar a 50%.
Deficiência de ferro é frequente, mas não é a única causa
A anemia ferropriva, provocada pela deficiência de ferro, é a forma mais comum da doença. Informações da Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde indicam que aproximadamente 90% das anemias estão relacionadas à carência desse nutriente.
Nos idosos, entretanto, encontrar a deficiência de ferro não encerra o diagnóstico. É necessário descobrir por que ela surgiu.
“Não basta identificar que o ferro está baixo e iniciar uma suplementação. No idoso, essa deficiência pode estar relacionada a uma alimentação inadequada, mas também pode ser consequência de sangramentos ocultos, doenças digestivas, inflamações crônicas ou dificuldades de absorção”, afirma Dra. Márcia Umbelino.
Entre as causas mais frequentes da anemia na terceira idade estão a deficiência de ferro, vitamina B12 ou ácido fólico, doenças renais, inflamações crônicas, má absorção de nutrientes e perdas de sangue pelo trato gastrointestinal.
O uso contínuo de determinados medicamentos também pode contribuir para o problema. Anti-inflamatórios podem provocar lesões e sangramentos no sistema digestivo, enquanto anticoagulantes podem favorecer perdas sanguíneas. Alguns medicamentos que alteram a acidez do estômago também podem prejudicar a absorção de nutrientes.
Além disso, fatores como perda de apetite, dificuldade de mastigação, alterações no paladar, isolamento social e redução do consumo de alimentos ricos em ferro e proteínas podem aumentar a vulnerabilidade dos idosos.
Falta de vitamina B12 pode provocar sintomas neurológicos
Com o envelhecimento, algumas pessoas passam a apresentar maior dificuldade para absorver determinados nutrientes. É o caso da vitamina B12, que depende de uma função adequada do estômago para ser aproveitada pelo organismo.
A carência desse nutriente pode provocar a chamada anemia megaloblástica, que, além de cansaço e fraqueza, pode causar formigamentos, alterações de equilíbrio, confusão e comprometimento da memória.
“Quando a deficiência de vitamina B12 não é identificada e tratada, o paciente pode desenvolver alterações neurológicas. Algumas delas podem ser confundidas com doenças próprias do envelhecimento e, em determinadas situações, podem se tornar irreversíveis”, adverte a médica.
Por isso, sintomas como piora repentina da memória, instabilidade para caminhar, quedas repetidas, formigamentos, falta de ar desproporcional ao esforço e redução súbita da disposição devem levar o idoso a uma avaliação médica.
Hemograma identifica a anemia, mas investigação não termina no exame
O diagnóstico começa, geralmente, com o hemograma, exame que permite avaliar os níveis de hemoglobina e as características das células do sangue. Detectar a anemia, porém, é apenas a primeira etapa.
Para encontrar a causa, o médico pode solicitar exames como ferritina, ferro sérico, saturação de transferrina, vitamina B12, ácido fólico, avaliação da função renal e marcadores de inflamação.
Em alguns casos, também pode ser necessária a investigação de perdas sanguíneas ocultas, principalmente no trato gastrointestinal. Dependendo da avaliação clínica, exames como pesquisa de sangue oculto nas fezes, endoscopia ou colonoscopia podem ser indicados.
“A anemia é um sinal de que existe algo acontecendo no organismo. O tratamento adequado depende da identificação dessa origem. Corrigir apenas o resultado do hemograma, sem investigar a causa, pode atrasar o diagnóstico de problemas importantes”, destaca Dra. Márcia.
Suplementação por conta própria pode mascarar doenças
Apesar de o ferro ser facilmente encontrado em farmácias, a suplementação sem orientação médica não é recomendada. Nem toda anemia é provocada por falta desse mineral.
O uso inadequado pode mascarar alterações importantes, atrasar o diagnóstico e provocar efeitos adversos, como dor abdominal, náuseas, constipação e, em situações específicas, acúmulo excessivo de ferro no organismo.
“Tomar ferro por conta própria pode transmitir uma falsa sensação de que o problema está sendo tratado. Se houver um sangramento oculto ou uma doença crônica por trás da anemia, a causa continuará presente”, orienta a geriatra.
O tratamento deve ser individualizado. Alguns pacientes respondem bem à reposição oral de ferro, enquanto outros precisam de administração intravenosa, especialmente em casos de má absorção, intolerância ao medicamento oral, perdas persistentes ou necessidade de recuperação mais rápida.
Quando a origem é a deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico, a reposição também deve ser específica. Já nos casos relacionados a doenças renais, inflamações crônicas ou outras condições, o controle da doença de base faz parte do tratamento.
Tratamento pode devolver autonomia ao idoso
Corrigir a anemia vai além de normalizar um resultado laboratorial. O tratamento pode melhorar a energia, a capacidade de concentração, a força muscular, a segurança para caminhar e a disposição para as atividades diárias.
Para os idosos, esses ganhos podem representar menor risco de quedas, mais independência e redução da necessidade de ajuda para tarefas cotidianas.
“Quando tratamos corretamente a anemia, podemos devolver ao idoso parte da vitalidade que ele havia perdido. Muitas vezes, a família acredita que aquela limitação veio para ficar, quando, na realidade, existe uma condição tratável por trás dela”, ressalta Dra. Márcia Umbelino.
A orientação é procurar atendimento médico sempre que houver cansaço persistente, palidez, tonturas frequentes, falta de ar, palpitações, perda de força, quedas, piora da memória ou dificuldade para realizar atividades que antes faziam parte da rotina.
“Envelhecer bem não significa aceitar toda limitação como normal. Significa observar o corpo, investigar as mudanças e tratar aquilo que pode comprometer a saúde, a autonomia e a qualidade de vida”, conclui a geriatra.







