A segurança do sistema eletrônico de votação voltou ao centro do debate eleitoral brasileiro. Nesta semana, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza uma mobilização nacional para mostrar ao público como funcionam as urnas, quais mecanismos permitem fiscalizá-las e como são feitas as auditorias antes e durante as eleições.
A primeira Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação começou na segunda-feira (3) e segue até domingo (9). A programação inclui abertura de urnas, visitas guiadas, exposições, palestras e ações contra a desinformação em diferentes estados.
A iniciativa acontece a dois meses do primeiro turno das Eleições 2026, marcado para 4 de outubro.
Além disso, surge em um momento no qual questionamentos sobre as urnas voltaram ao debate político, inclusive por parte de um dos pré-candidatos à Presidência.
Urna eletrônica foi aberta durante programação
Um dos destaques da primeira etapa foi mostrar o equipamento por dentro.
A programação denominada “O Sistema Eletrônico por Dentro” inclui a abertura física da urna e explicações sobre seus componentes.
O TSE também programou demonstrações voltadas a estudantes e transmissões pela internet. A proposta é permitir que pessoas sem conhecimento técnico compreendam as etapas básicas de funcionamento do equipamento.
Além disso, os técnicos explicam que a simplicidade da operação para o eleitor não significa ausência de mecanismos sofisticados de segurança.
O sistema combina diferentes camadas de proteção, verificações de integridade, assinatura digital e procedimentos públicos de fiscalização.
TSE cria semana anual sobre sistema de votação
A Semana Nacional não foi criada apenas para as eleições deste ano.
Em 3 de junho, o TSE instituiu oficialmente um grupo responsável pela implantação da iniciativa.
A Portaria nº 293/2026 estabelece que a programação deve ocorrer na primeira semana de agosto de cada ano.
Segundo o documento, o objetivo é ampliar o conhecimento, a transparência, a segurança e a confiança pública no sistema eletrônico brasileiro. A norma também determina atenção especial ao eleitorado jovem.
Assim, a edição de 2026 inaugura uma ação que deverá continuar nos próximos anos.
Nunes Marques convida população a fiscalizar
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, lançou oficialmente a semana durante a abertura do segundo semestre da Corte.
Na ocasião, destacou a importância da transparência para a credibilidade das eleições.
“As portas da Justiça Eleitoral permanecem abertas para quem deseja conhecer, acompanhar e fiscalizar o processo eleitoral”, afirmou.
A mensagem está alinhada à estratégia adotada pelo tribunal para ampliar o acesso às informações técnicas sobre as eleições.
Atualmente, partidos, instituições públicas e diferentes entidades da sociedade podem acompanhar diversas etapas de preparação do sistema.
Código-fonte está aberto para fiscalização
Uma dessas possibilidades é a inspeção dos códigos-fonte.
O procedimento ocorre desde 2002 e está previsto na legislação eleitoral. Sendo assim, desde o ciclo das eleições de 2022, o prazo de fiscalização foi ampliado de seis meses para aproximadamente um ano antes do pleito.
Para as Eleições 2026, os códigos foram abertos em outubro de 2025.
Dessa forma, entre as instituições habilitadas estão partidos políticos, Congresso Nacional, Polícia Federal, Ministério Público, OAB, universidades, Tribunal de Contas da União e Sociedade Brasileira de Computação.
Em junho, por exemplo, representantes do Senado e da Sociedade Brasileira de Computação realizaram inspeções no TSE.
Especialistas também podem tentar encontrar falhas
Outra ferramenta é o Teste Público de Segurança (TPS).
O primeiro foi realizado em 2009.
Nesse procedimento, pesquisadores e especialistas inscritos elaboram planos de ataque e tentam encontrar vulnerabilidades no sistema em ambiente controlado.
Quando algum problema é identificado, a Justiça Eleitoral pode promover ajustes antes do pleito.
Por isso, o objetivo do teste não é demonstrar que o sistema é invulnerável.
Ao contrário, a proposta é justamente submetê-lo a tentativas reais de exploração antes que seja utilizado nas eleições.
Auditorias também acontecem no dia da eleição
A fiscalização não termina antes da votação.
No próprio dia da eleição, os Tribunais Regionais Eleitorais realizam Testes de Integridade das Urnas Eletrônicas.
Nesse procedimento, votos previamente registrados em cédulas são digitados em urnas selecionadas. Posteriormente, o resultado eletrônico é comparado aos registros feitos em papel.
Além disso, há verificação da autenticidade e integridade dos sistemas instalados nos equipamentos.
Desde 2024, parte dos testes também utiliza a biometria de eleitores voluntários depois que eles votam normalmente.
Não há comprovação de fraude que tenha alterado resultado
Ao longo da utilização das urnas eletrônicas no Brasil, não houve comprovação de fraude no equipamento que tenha alterado o resultado de uma eleição, segundo os registros da Justiça Eleitoral.
Isso não significa que o sistema deixe de ser testado.
Pelo contrário, a legislação determina sucessivas etapas de fiscalização e auditoria.
Além disso, o boletim de urna emitido ao final de cada seção permite comparar os votos contabilizados localmente com os números posteriormente divulgados na totalização.
Flávio Bolsonaro voltou a falar sobre urnas
O debate ganhou novo componente político em julho.
Durante encontro com diplomatas estrangeiros em Brasília, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que máquinas utilizadas nas eleições brasileiras teriam a mesma origem de equipamentos associados à empresa Smartmatic.
A informação é falsa.
A Smartmatic não fornece urnas nem softwares utilizados nas eleições brasileiras. Segundo o TSE, o projeto e a gestão do sistema eletrônico são feitos pela própria Justiça Eleitoral.
O senador utilizou como referência documentos da inteligência norte-americana relacionados à Venezuela.
Entretanto, esses documentos não dizem que as urnas brasileiras sejam produzidas pela Smartmatic nem tratam do sistema eleitoral do Brasil.
Flávio diz que não questionou processo brasileiro
Após a repercussão, Flávio Bolsonaro apresentou outro lado da declaração.
O pré-candidato afirmou que não colocava em dúvida o processo eleitoral brasileiro.
Segundo ele, a intenção era defender maior presença de observadores internacionais nas eleições de outubro.
No encontro, Flávio pediu que outros países enviem representantes e especialistas para acompanhar o pleito.
Portanto, a reportagem deve registrar tanto a falsidade da associação feita com a Smartmatic quanto a explicação posterior apresentada pelo senador.
Caso lembra episódio que tornou Jair Bolsonaro inelegível
A presença de diplomatas também remete a um episódio anterior.
Em 18 de julho de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada e fez acusações contra o sistema eleitoral.
Posteriormente, o TSE concluiu que houve abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.
Em junho de 2023, Bolsonaro foi declarado inelegível por oito anos, em decisão por 5 votos a 2.
É importante, porém, não tratar os dois episódios como juridicamente idênticos.
Qualquer eventual consequência eleitoral das declarações de Flávio dependeria de ação própria, provas, análise das circunstâncias e julgamento pela Justiça Eleitoral.
Francischini criou precedente ainda em 2021
Antes do caso Bolsonaro, o TSE já havia estabelecido um precedente relevante.
Em outubro de 2021, a Corte cassou o mandato do então deputado estadual Fernando Francischini, do Paraná.
Além disso, na eleição de 2018, ele realizou uma transmissão ao vivo afirmando, sem provas, que urnas haviam sido fraudadas e não aceitavam votos em Jair Bolsonaro.
Dessa forma, por 6 votos a 1, o TSE reconheceu abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. A própria Corte classificou a decisão como inédita naquele momento.
Assim, a jurisprudência eleitoral já admite sanções quando a divulgação de informações falsas sobre o processo de votação alcança gravidade suficiente dentro do contexto eleitoral.
Brasil negou vistos a funcionários dos Estados Unidos
O tema também passou a integrar uma disputa diplomática.
Em julho, o Brasil negou vistos a dois funcionários do governo dos Estados Unidos que pretendiam viajar ao país antes das eleições.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou posteriormente que a decisão ocorreu porque o governo considerou que a visita poderia representar interferência no processo eleitoral.
O Departamento de Estado norte-americano rejeitou essa interpretação.
Contudo, segundo Washington, a viagem teria caráter rotineiro e trataria de democracia e direitos humanos.
Portanto, a acusação de interferência é uma posição do governo brasileiro, contestada pelos Estados Unidos.
Semana segue até domingo
Enquanto o debate político continua, a programação institucional do TSE seguirá durante toda a semana.
Nesta terça-feira (4), estudantes visitam o Museu do Voto.
Na quarta (5), o eixo “Caminho do Voto” apresentará as etapas que vão do desenvolvimento das urnas à totalização.
Já quinta-feira será dedicada a fatos e boatos sobre o sistema eletrônico.
Na sexta, haverá demonstrações de votação e atividades de acessibilidade na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília.
Entretanto, a programação termina domingo (9), com a Corrida Pela Democracia.
Enfim, mais do que pedir confiança sem questionamentos, a estratégia adotada pelo TSE é expor os mecanismos da votação à fiscalização, aos testes e ao acompanhamento público.
Assim, em um ano eleitoral novamente marcado por disputas sobre a credibilidade das urnas, essa transparência tende a ocupar espaço central no debate até outubro.








