BrasilJustiçaPolítica

Sem visita íntima e penas de 120 anos: Senado aprova “prisão quase perpétua” contra o crime organizado

Por André Freitas, da REDAÇÃO, atualização às 07h08
Fim da visita íntima e penas de 120 anos: Senado aprova "prisão quase perpétua" contra o crime organizado

Senado aprova marco legal para desorganizar o crime e endurecer penas no país

O Senado deu um passo unânime e histórico para fechar o cerco contra o crime organizado. Com a aprovação do novo marco legal que estabelece penas de 120 anos e proíbe a visita íntima, as facções sentirão o golpe da “prisão quase perpétua”. O texto aumenta as penas, endurece a progressão e impõe regime federal para líderes de facções e milícias.

O PL Antifacção atualiza a Lei das Organizações Criminosas. O texto busca atingir grupos que controlam territórios, ameaçam comunidades e limitam a presença do Estado. As penas ficam mais altas. Desse modo, integrantes podem receber condenações de 15 a 30 anos. Já os líderes, por outro lado, podem chegar a 60 anos, com possibilidade de aumento para 120 anos em situações específicas.

O projeto também endurece a progressão de regime. Condenados por crimes hediondos precisarão cumprir 70% da pena no fechado. Integrantes de facções ou milícias cumprirão entre 75% e 85%, com índices maiores para reincidentes. A mais importante das medidas, entretanto, é a de que chefes deverão cumprir pena em presídios federais de segurança máxima.

Segundo o relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), o objetivo é atingir grupos que exercem controle armado sobre regiões inteiras. Ele afirmou que diversos setores pressionaram o Senado. Disse também que a única voz sem lobby é a das vítimas.

“O que a gente quer é entrega de resultado. Ferramentas mais ágeis de investigação, penas muitíssimo mais duras, processos um pouco mais rápidos e execução da pena também muito mais dura. É isso que a gente está garantindo com a legislação”, diz o relator.

Como a Pena Chega a 120 Anos

A possibilidade de 120 anos de prisão resulta da aplicação de agravantes severos sobre a pena máxima base, além da acumulação de penas (somatório) pelos crimes que o líder comete.

  1. Pena Base para Líderes: A lei aumenta a pena base para quem ocupa posição de comando em facção ou milícia, que pode ser dobrada e chegar a 60 anos.

  2. Homicídio Agravado: O projeto endurece as punições. Por exemplo, homicídios cometidos por membros desses grupos passam a ter uma pena máxima de 20 a 40 anos.

  3. Acumulação: O relator incluiu novas situações de agravamento que, quando somadas à pena máxima base de 60 anos, e acumuladas a múltiplos crimes gravíssimos (como homicídios), permitem que a condenação total atinja até 120 anos.

Em resumo, a pena de 120 anos é alcançada quando o líder é condenado pela pena máxima por chefiar a organização (60 anos) e por cometer outros crimes graves (como homicídio, lesão corporal seguida de morte, entre outros) no contexto da facção, acumulando-se o novo limite máximo de cada pena.

Terrorismo divide o plenário, mas proposta não avança

Parte da oposição tentou equiparar ações de facções e milícias ao terrorismo. A maioria rejeitou. Vieira argumentou que o terrorismo exige motivação política, ideológica ou religiosa. Disse que facções produzem terror, mas não atuam com objetivos políticos. O relator afirmou que uma classificação equivocada poderia gerar riscos diplomáticos.


Investigações terão ferramentas mais rápidas e rígidas

O texto moderniza instrumentos de investigação. A proposta libera escutas ambientais, softwares avançados e pedidos emergenciais de dados em situações de risco à vida. Interceptações terão autorização mais rápida e poderão ser renovadas. O relator retomou a possibilidade de infiltração de delatores, retirada na Câmara.


Estado ganha novo nível de integração institucional

O projeto formaliza as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficcos). A medida reúne polícias, inteligência e órgãos de fiscalização. Também cria um cadastro nacional de integrantes de organizações criminosas, replicado nos estados. No sistema prisional, presos enquadrados na lei não terão visita íntima. Conversas e visitas poderão ter maior monitoramento.


Cide para apostas on-line financiará segurança pública

O texto institui uma Cide de 15% sobre depósitos em plataformas de apostas. Os recursos irão para o Fundo Nacional de Segurança Pública. Empresas financeiras terão responsabilidade solidária ao operar com bets irregulares. Segundo o relator, a medida fecha brechas usadas para lavagem e financiamento ilegal.

Outras mudanças aprovadas

  • Crime para recrutar crianças e adolescentes, com penas de 5 a 30 anos.

  • Possibilidade de bloqueio de energia, internet e telefonia de investigados.

  • Prazos de 90 dias para conclusão de inquéritos com presos e 270 dias para soltos.

  • Servidores envolvidos com facções perderão o cargo e ficarão inelegíveis por oito anos.


O Brasil vive sob camadas de medo: do criminoso, da milícia e até mesmo da própria polícia. Medo de ir trabalhar, voltar para casa, em suma, de existir. O marco legal aprovado no Senado tenta responder a esse cenário com rigor punitivo. Sobretudo, adotando medidas contra o crime organizado, deixando seus poderosos líderes sem visita íntima e em prisão quase perpétua.

Mesmo assim, devemos observar que o rigor sozinho não sustenta país nenhum. Segurança pública é tríade: repressão, desenvolvimento e presença social. Só punir não funciona, assim como somente proteger socialmente não funciona. Apenas estimular a economia também não funciona. Afinal, quando aceitamos a organização do crime estamos decretando a desorganização do Estado.  Logo, quem deve ser organizado é o Estado, não o crime.

Quando não tivermos que nos referir mais ao crime como um negócio organizado, não tem que ser simplesmente porque o criminoso está sem visita íntima ou porque seu poder acabou com o tempo de sua condenação, uma prisão quase perpétua.

As novas regras criam instrumentos sólidos mas o efeito real dependerá de integração, inteligência e políticas duradouras. A lei abre caminho, porém o Brasil terá de atravessá-lo — com coragem e com planejamento.

André Freitas
Diretor-Executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Radialista e Jornalista desde a década de 1990. Narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Tem vasta experiência na cobertura da editoria de política em razão dos cargos públicos que exerceu nos poderes Legislativo e Executivo: Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo, Campos dos Goytacazes, além da Alerj e ainda na Prefeitura de Niterói. Dirigiu a Rádio Absoluta por 15 anos, onde apresentou programas noticiosos diários. Pela emissora, cobriu por mais de uma década a seleção brasileira de futebol e esteve em duas Copas do Mundo e uma Olimpíada. Narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, tem 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Trabalhou, também, nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e (Litorânea/ES). Exerceu cargo de editor-chefe em Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ). Colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

Mais emBrasil

Você também pode gostar!

Comments are closed.