
Niterói prepara plano para El Niño com protocolos para chuva, vento e calor | Divulgação/Claudio Fernandes/Prefeitura de Niterói
Chuvas intensas, ventos fortes e calor extremo são os três cenários que Niterói colocou no centro de um plano de preparação para a primavera e o verão de 2026/2027. Defesa Civil, Saúde, Educação, Trânsito, Conservação, Assistência Social, Segurança e outras áreas elaboram respostas para eventos meteorológicos adversos durante o fortalecimento do El Niño.
O fenômeno climático está confirmado. Além disso, o boletim nacional mais recente aponta probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro. A NOAA também mantém o status de “El Niño Advisory” e informa que o sistema continua se fortalecendo.
Porém, isso não significa que Niterói terá necessariamente mais temporais, ventanias ou ondas de calor. O El Niño altera a circulação atmosférica em escala ampla, enquanto cada episódio de chuva ou vento depende dos sistemas meteorológicos que atuam naquele momento.
A própria NOAA ressalta essa diferença. Para outubro a dezembro, o órgão calcula 69% de chance de o índice usado no monitoramento superar os eventos anteriores desde 1950. Mesmo nesse cenário, os impactos típicos do El Niño ficam mais prováveis, mas não são garantidos.
O Folha do Leste já vinha acompanhando a evolução do El Niño e seus possíveis reflexos para Niterói desde junho, justamente com a ressalva de que os efeitos não se repetem de forma uniforme entre regiões e cidades.
Plano ainda está em fase de consolidação
Apesar do anúncio desta quarta-feira (2), o plano municipal ainda não aparece como documento integral publicado junto ao comunicado oficial. A Prefeitura afirma que o grupo de trabalho está constituído e que os planos setoriais “estão sendo entregues”.
Até o fechamento desta reportagem, os portais oficiais municipais consultados não apresentavam, de forma pública e reunida, a matriz completa de responsabilidades, os gatilhos de acionamento nem todos os protocolos de cada secretaria.
Por isso, ainda não há base documental pública para afirmar, por exemplo, qual temperatura acionará medidas específicas de calor, qual velocidade de vento poderá suspender aulas ou qual acumulado de chuva determinará automaticamente um bloqueio viário.
O que já está definido publicamente é a estrutura geral. O plano organiza as ações em prevenção, preparação e resposta e reúne áreas como Defesa Civil, Saúde, Educação, Conservação, Trânsito, Assistência Social e Segurança. A Secretaria do Clima coordena o trabalho.
Além disso, a Defesa Civil mantém seu sistema de quatro estágios — Vigilância, Atenção, Alerta e Alerta Máximo — e o Centro de Monitoramento e Operações acompanha permanentemente as condições meteorológicas.
Setembro pode ter chuva e temperaturas acima da média
As previsões climáticas exigem outra distinção importante. Para setembro isoladamente, o Inmet projeta chuva acima da média histórica em praticamente todo o Sudeste. O instituto também prevê temperaturas acima da média em grande parte do Rio de Janeiro, com desvios que podem chegar a 1,5°C em áreas do estado.
Entretanto, uma previsão mensal não equivale a uma previsão diária para Niterói. Ela indica uma tendência estatística para o conjunto do mês.
Além disso, o horizonte de três meses apresenta um desenho diferente. O Painel El Niño, produzido por Inmet, INPE, ANA, Cemaden, SGB, Defesa Civil Nacional e Censipam, concentra o sinal mais consistente de excesso de chuva no Sul e em parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul. O documento também aponta possibilidade de déficit em partes de Minas Gerais e Espírito Santo.
Assim, os documentos atuais não permitem transformar o El Niño em previsão de chuva excessiva permanente para Niterói durante toda a primavera.
Por outro lado, as temperaturas acima da média aparecem com maior consistência nos prognósticos nacionais. Esse cenário ajuda a explicar por que o município incorporou calor extremo ao mesmo planejamento que trata chuva e vento.
Niterói já enfrentou episódios recentes de vento
A preparação também ocorre depois de uma sequência de episódios de vento que exigiu mobilização municipal.
No fim de julho, a Prefeitura registrou uma rajada de 92 km/h e colocou Niterói em estágio de Alerta. A Seconser contabilizou, depois do episódio, 42 ocorrências envolvendo quedas de árvores e galhos, das quais 37 já tinham recebido atendimento no momento do balanço.
Já em 7 de agosto, diante de outra previsão de ventos fortes, Niterói adotou medidas preventivas mais amplas: suspendeu as aulas da rede municipal e fechou parques públicos. Defesa Civil, Educação, Conservação, Ordem Pública, NitTrans e Comunicação participaram do gabinete de crise.
Mais recentemente, nesta terça-feira (1º), o Centro de Monitoramento informou rajada de 45,4 km/h em Charitas, às 6h, enquanto a cidade estava em estágio de Atenção. O Folha do Leste acompanhou o alerta de chuva e vento em Niterói.
Esses casos mostram medidas que o município já adotou em situações concretas. Porém, não significam que suspensão de aulas ou fechamento de parques passem automaticamente a ocorrer toda vez que houver determinada velocidade de vento.
Além disso, não há base técnica para atribuir esses episódios diretamente ao El Niño. Uma análise desse tipo exige identificar os sistemas atmosféricos que produziram cada evento.
Calor extremo entra no planejamento
O calor ganhou um eixo próprio porque a exposição prolongada a temperaturas elevadas exige respostas diferentes das adotadas para chuva e vento.
Em janeiro, a Secretaria Municipal de Saúde já havia colocado a rede em preparação para altas temperaturas e divulgado orientações específicas. Entre elas estavam hidratação frequente, menor exposição direta ao sol entre 10h e 16h e atenção especial a crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores expostos ao sol.
Na mesma ocasião, a Clin alterou a rotina de garis durante o calor extremo. A companhia ampliou o intervalo no horário de maior exposição, reforçou a distribuição de água e informou o uso de roupas com proteção UV, chapéus e protetor solar.
Essas ações já existem, mas não devem ser confundidas com novos gatilhos do plano para o El Niño. O comunicado desta quarta ainda não detalha quais parâmetros de temperatura levarão Saúde, Educação ou outros órgãos a ampliar ou modificar serviços no próximo verão.
Defesa Civil mantém sistema de quatro estágios
A Defesa Civil não depende apenas de uma quantidade fixa de chuva para mudar o estágio operacional.
Documentação municipal explica que o Centro de Monitoramento avalia dados dos instrumentos meteorológicos, previsão de curto prazo, estudos técnicos e impactos observados. A partir desse conjunto, a Defesa Civil define o estágio e mobiliza os protocolos correspondentes.
Portanto, um valor isolado de chuva ou vento não deve ser apresentado como gatilho universal.
Em janeiro de 2024, por exemplo, Niterói chegou a Alerta Máximo durante um episódio que registrou 120,2 milímetros em uma hora. Aquele valor descreve o evento específico e não deve ser transformado em limiar fixo para todos os futuros acionamentos.
Nos níveis de Atenção, Alerta e Alerta Máximo, a orientação já divulgada pela Defesa Civil inclui evitar áreas alagadas e proximidades de rios, canais e córregos sujeitos a transbordamento. Moradores de áreas de risco também devem acompanhar sinais de instabilidade e obedecer ao acionamento das sirenes.
Reservatório do Caio Martins terá 102,7 milhões de litros
Entre as medidas de infraestrutura citadas no plano, o projeto do Caio Martins é o mais volumoso financeiramente e também o mais avançado documentalmente.
O projeto atual prevê um reservatório subterrâneo fechado de detenção de picos de cheias com capacidade para 102.659 metros cúbicos. Isso corresponde a aproximadamente 102,7 milhões de litros de água.
A estrutura ocupará cerca de 15 mil metros quadrados de parte do atual campo do complexo esportivo. Além disso, o projeto contempla aproximadamente 6 quilômetros de redes de macrodrenagem e microdrenagem.
Três bombas deverão conduzir a água para o reservatório. Depois, o sistema fará a liberação controlada para o Rio Icaraí, reduzindo os picos de vazão. A intervenção abrange trechos das ruas Lopes Trovão e Presidente Backer e um quadrilátero que inclui a Avenida Roberto Silveira.
O anúncio municipal desta quarta também relaciona a estrutura à drenagem do Largo do Marrão e da Avenida Roberto Silveira. Segundo a ION, o projeto ainda pretende beneficiar áreas próximas de Santa Rosa, Pé Pequeno, Cubango e Viçoso Jardim.
O Folha do Leste acompanha o projeto de drenagem do entorno do Caio Martins desde a fase do projeto básico. Desde então, a engenharia foi revista: a capacidade divulgada em 2025 era de 80 milhões de litros; o edital de 2026 elevou o dimensionamento para 102,659 milhões de litros.
Contratação chega a R$ 381,8 milhões
A ION homologou em junho a licitação para o Consórcio Rio Icaraí, formado por MPE Engenharia e Serviços, DP Barros Pavimentação e Construção e Construtora Zadar.
A proposta vencedora alcançou R$ 381.801.003,66, diante de um orçamento estimado em R$ 390,1 milhões.
Entretanto, o reservatório ainda não deve ser apresentado como infraestrutura disponível. A página pública da Licitação nº 01/2026 continuava classificada como “Em andamento” na última atualização disponibilizada pela ION.
Além disso, não foi localizada, até o fechamento desta reportagem, ordem pública de início que permita fixar uma data de conclusão.
A documentação também traz prazos que precisam ser distinguidos. A ION informou, no lançamento do edital, 30 meses para conclusão das obras após a ordem de início. Já a homologação registra condições de entrega dos serviços em 42 meses, dentro do escopo contratual mais amplo.
Portanto, não existe neste momento uma data segura para afirmar quando o reservatório começará a operar.
O comunicado municipal afirma que a implantação ocorre após cessão de espaço pelo Governo do Estado. Já os documentos técnicos delimitam a intervenção a parte do terreno do campo e à área das arquibancadas voltadas para a Rua Presidente Backer. Assim, não há base nesse anúncio para afirmar que todo o Complexo Caio Martins passou ao município.
El Niño aumenta necessidade de acompanhamento, não de alarmismo
O fenômeno deve permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, segundo o Painel El Niño. Além disso, os modelos apontam probabilidade elevada de grande intensidade nos próximos meses.
Contudo, intensidade do El Niño e intensidade de um evento meteorológico em Niterói são coisas diferentes.
Uma chuva forte depende, por exemplo, da presença e posição de frentes frias, áreas de baixa pressão, umidade disponível e circulação regional. Já o El Niño modifica o pano de fundo climático no qual esses sistemas atuam.
Por isso, o próprio Painel nacional recomenda monitoramento contínuo das condições meteorológicas, hidrológicas e dos riscos. É esse acompanhamento de curto prazo, e não apenas o diagnóstico do El Niño, que permitirá à Defesa Civil decidir quando elevar um estágio ou emitir um alerta.
O que Niterói prevê para cada risco
Chuva intensa
O plano municipal inclui chuvas intensas entre os cenários centrais. Já existem monitoramento meteorológico permanente, sistema de estágios, alertas e protocolos de sirene para áreas de risco. Entretanto, a Prefeitura ainda não publicou, no anúncio do plano, os novos gatilhos quantitativos ou a matriz completa de ações setoriais para a primavera e o verão.
Ventos fortes
Ventos fortes também integram o planejamento. A Defesa Civil já orienta evitar árvores, coberturas metálicas e estruturas sujeitas a desprendimento durante episódios de rajadas. Em agosto, o município chegou a fechar parques e suspender aulas diante de uma previsão de vento forte. O novo plano, porém, ainda não torna públicos os critérios para repetir essas medidas.
Calor extremo
O município incluiu calor extremo entre os cenários do plano. A Saúde já possui orientações preventivas para períodos de altas temperaturas e informou preparação da rede no último verão. Entretanto, ainda não foram publicados os níveis de temperatura, duração ou outros indicadores que acionariam medidas específicas dentro do novo plano.
Deslizamentos e alagamentos
A Defesa Civil mantém protocolos para áreas suscetíveis e pode acionar sirenes e orientar deslocamento para pontos seguros quando a avaliação de risco justificar. Já o reservatório do Caio Martins integra uma estratégia estrutural de drenagem, mas a obra ainda não está disponível para o próximo evento de chuva.
Comunicação com moradores
O Centro de Monitoramento e Operações acompanha permanentemente as condições meteorológicas. A população pode receber comunicados pelo ALERTA DCNIT e pelo SMS 40199.
Quem faz o quê
| Área | O que já está documentado | O que o novo plano ainda não detalhou publicamente |
|---|---|---|
| Defesa Civil | Monitoramento, definição dos estágios, emissão de alertas e coordenação de resposta | Gatilhos específicos para cada cenário do El Niño |
| Secretaria do Clima | Coordena o grupo de trabalho | Matriz completa de responsabilidades e metas |
| Saúde | Mantém orientações e preparação da rede para calor | Critérios para reforço de unidades e acionamento do plano |
| Educação | Integra o grupo; já houve suspensão preventiva de aulas em episódios de vento | Critérios automáticos para suspensão, adaptação ou retomada |
| Trânsito/NitTrans | Atua em ocorrências e desvios durante eventos meteorológicos | Vias prioritárias e gatilhos de bloqueio do novo plano |
| Conservação | Atua na retirada de árvores, galhos e desobstrução após eventos | Cronograma e nível de mobilização previsto em cada estágio |
| Assistência Social | Integra o planejamento conjunto | Regras de acolhimento e públicos prioritários ainda não divulgadas no plano |
| Segurança | Participa do grupo municipal | Emprego de equipes e protocolos por cenário ainda não publicados |
A Prefeitura informa que todas essas áreas produziram planos setoriais seguindo os eixos de prevenção, preparação e resposta. Porém, o conteúdo integral desses documentos não acompanha a publicação municipal desta quarta-feira.
Entenda os quatro estágios
| Estágio | O que significa | O que muda | Orientação à população |
|---|---|---|---|
| Vigilância | Primeiro estágio e condição operacional normal | Centro de Monitoramento acompanha previsão, instrumentos e riscos | Acompanhar os canais oficiais |
| Atenção | Segundo de quatro estágios | Monitoramento e medidas preventivas aumentam diante da possibilidade de agravamento | Redobrar atenção e acompanhar os avisos |
| Alerta | Terceiro estágio | Resposta municipal ganha intensidade; sirenes podem ser acionadas em locais com risco, conforme avaliação | Evitar áreas alagadas e seguir imediatamente as orientações da Defesa Civil |
| Alerta Máximo | Quarto e mais elevado estágio | Protocolos podem chegar à retirada de pessoas de áreas de risco | Se houver sirene ou ordem de saída, dirigir-se ao ponto de apoio ou a outro local seguro |
A Defesa Civil considera previsão, medições, estudos técnicos e impactos observados na mudança dos estágios. Por isso, não existe nos documentos públicos consultados um único número universal de chuva ou vento que explique todas as mudanças de nível.
Reservatório do Caio Martins
Tipo: reservatório subterrâneo fechado de detenção de picos de cheias
Capacidade: 102.659 m³, ou aproximadamente 102,7 milhões de litros
Área aproximada: 15 mil m²
Rede prevista: cerca de 6 quilômetros de macro e microdrenagem
Bombas: três equipamentos para transferência da água
Localização: parte do terreno atualmente ocupado pelo campo do Complexo Caio Martins
Áreas relacionadas: entorno do Caio Martins, Largo do Marrão, Avenida Roberto Silveira e áreas adjacentes
Valor da proposta vencedora: R$ 381.801.003,66
Empresa vencedora: Consórcio Rio Icaraí, formado por MPE Engenharia e Serviços, DP Barros Pavimentação e Construção e Construtora Zadar
Situação: licitação homologada, mas página da ION ainda classifica o procedimento como “Em andamento”
Prazo: ION citou 30 meses de obras após a ordem de início; homologação registra entrega dos serviços em 42 meses
Ordem de início: não localizada nos documentos públicos consultados até o fechamento
Objetivo técnico: armazenar temporariamente parte da água captada e liberá-la de forma controlada para reduzir picos de vazão na bacia do Rio Icaraí.
Como receber alertas
Aplicativo: ALERTA DCNIT
SMS: 40199
Como cadastrar no SMS: envie o CEP sem pontos, espaços ou hífen para 40199.
Corpo de Bombeiros: 193
Defesa Civil: 199
Defesa Civil de Niterói: 2620-0199
O SMS e o aplicativo servem para receber avisos e orientações. Já os números 193, 199 e 2620-0199 devem ser usados nas situações correspondentes de emergência e atendimento.
O que é o El Niño e o que ele pode — e não pode — dizer sobre Niterói
O El Niño ocorre quando águas do Pacífico Equatorial permanecem anormalmente aquecidas e interagem com a atmosfera. Essa alteração modifica padrões de circulação, chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
Em agosto, a NOAA classificou o fenômeno como El Niño Advisory e informou que ele continua se fortalecendo. A agência calcula mais de 90% de probabilidade de um evento muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/2027.
No Brasil, o painel produzido por sete instituições federais aponta mais de 90% de probabilidade de intensidade muito forte entre setembro e novembro e permanência do fenômeno pelo menos até o começo de 2027.
Para setembro, o Inmet prevê chuva acima da média em praticamente todo o Sudeste e temperaturas acima da média em grande parte do Rio de Janeiro. No entanto, isso descreve uma tendência climática mensal e não permite prever quantas chuvas fortes ocorrerão em Niterói nem em quais dias.
Da mesma forma, uma rajada de vento, uma frente fria ou uma chuva intensa não podem ser atribuídas automaticamente ao El Niño. Para episódios específicos, a previsão do tempo e a análise meteorológica de curto prazo continuam sendo as referências adequadas.








