O método Wolbachia em Niterói reduziu em 89% a incidência de casos notificados de dengue após a implantação em toda a cidade. A experiência foi destaque nesta sexta-feira (31), durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
O pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Luciano Andrade Moreira apresentou a palestra “Projeto Wolbachia, Wolbito, no controle da dengue”. O encontro integrou a programação científica realizada em Niterói entre 26 de julho e 1º de agosto.
Durante a apresentação, Luciano explicou a trajetória da tecnologia, os resultados científicos e os próximos passos da expansão nacional.
Niterói alcançou cobertura total em 2023
O projeto começou em 2015, no bairro de Jurujuba. Posteriormente, as equipes ampliaram a liberação dos mosquitos com Wolbachia para outras regiões do município.
Após oito anos de trabalho, o método alcançou 100% do território de Niterói em 2023. Com isso, o município se tornou uma das principais referências brasileiras na aplicação da tecnologia como política pública de saúde.
Segundo Luciano Moreira, o processo exigiu monitoramento científico, atuação das equipes municipais e diálogo permanente com os moradores.
“Niterói é uma cidade muito importante para o desenvolvimento do método Wolbachia no Brasil. Foram oito anos de trabalho para cobrir todo o município”, afirmou.
Além disso, o pesquisador destacou que a bactéria permanece na população local de mosquitos mesmo após o encerramento das liberações.
“O que construímos nesses 10 anos foi uma tecnologia que saiu da pesquisa científica e passou a ser uma ferramenta de saúde pública”, acrescentou.
Pesquisa aponta redução de 89% nos casos de dengue
Um estudo sobre a implantação em toda a cidade identificou uma incidência de dengue 89% menor após as liberações. A comparação considerou o período de dez anos anterior à intervenção, entre 2007 e 2016.
O trabalho também avaliou a permanência da bactéria nos mosquitos e o impacto da tecnologia durante períodos de forte circulação da dengue.
Anteriormente, estudos sobre as primeiras áreas atendidas em Niterói já indicavam redução de 69,4% nos casos de dengue. Os resultados mais recentes abrangem o período posterior à expansão para todo o território municipal.
Portanto, os percentuais não representam dados contraditórios. Cada estudo analisou etapas e períodos diferentes da implantação.
Como funciona o método Wolbachia
A Wolbachia é uma bactéria encontrada naturalmente em diversas espécies de insetos. Entretanto, ela não ocorre originalmente no mosquito Aedes aegypti.
Os pesquisadores introduzem a bactéria no mosquito em ambiente controlado. Depois, liberam os chamados Wolbitos nas áreas selecionadas.
Quando a Wolbachia se estabelece no Aedes aegypti, ela reduz a capacidade do mosquito de transmitir vírus como dengue, zika e chikungunya.
Além disso, as fêmeas transmitem a bactéria aos descendentes. Dessa forma, a população de mosquitos com Wolbachia cresce naturalmente e mantém o efeito protetor ao longo do tempo.
A estratégia, contudo, não elimina o Aedes aegypti. Por isso, a população deve continuar combatendo criadouros e evitando o acúmulo de água parada.
Participação popular teve 92% de aprovação
Antes das liberações, Niterói promoveu reuniões, ações educativas e conversas com escolas, moradores e lideranças comunitárias.
O trabalho buscou explicar por que o projeto combate doenças por meio da liberação de mosquitos, estratégia diferente do controle tradicional.
Segundo os dados apresentados na SBPC, a implantação alcançou 92% de aprovação da comunidade.
O coordenador do Centro de Controle de Zoonoses de Niterói, Francisco de Faria Neto, destacou a importância dos profissionais que atuaram nos bairros.
“Foi um grande desafio, porque a proposta era combater uma doença soltando mosquitos, em vez de eliminar mosquitos”, afirmou.
Agentes comunitários de saúde, agentes de combate às endemias e profissionais do controle de zoonoses participaram do processo de mobilização.
Método mudou rotina de enfrentamento à dengue
A diretora-geral da Fundação Estatal de Saúde de Niterói, Maria Célia Vasconcellos, afirmou que a estratégia transformou a rotina do município.
Maria Célia relatou ter contraído os quatro sorotipos da dengue durante diferentes epidemias. Por isso, ela destacou o impacto da tecnologia para moradores e profissionais de saúde.
“O método Wolbachia trouxe uma tranquilidade muito grande para a cidade e mostrou que o grande segredo foi unir ciência, serviço público e participação da comunidade”, declarou.
Apesar dos resultados, o município deve manter as demais ações de vigilância, prevenção e controle do mosquito.
O Ministério da Saúde classifica a Wolbachia como uma estratégia complementar. Portanto, o método não substitui a eliminação de criadouros, a vigilância epidemiológica ou o atendimento aos pacientes.
Tecnologia avança pelo Brasil e pelo mundo
Atualmente, o método está presente em 16 cidades brasileiras e protege aproximadamente 5 milhões de pessoas no país, segundo os dados apresentados durante a SBPC.
Em âmbito internacional, projetos operam em 15 países e já alcançaram mais de 16 milhões de pessoas.
Além disso, o Ministério da Saúde incorporou a tecnologia às estratégias nacionais de prevenção e controle das arboviroses.
A nova capacidade de produção em larga escala deverá permitir a expansão para dezenas de municípios. O objetivo é levar a proteção a regiões com maior incidência de dengue e outras doenças transmitidas pelo Aedes aegypti.
Assim, a experiência construída em Niterói poderá servir como referência para outras cidades brasileiras.








