
Lagoa de Piratininga: obra do Túnel do Tibau avança | Divulgação/Claudio Fernandes/Prefeitura de Niterói
A recuperação ambiental da Lagoa de Piratininga entra em uma nova etapa com o avanço das obras do Túnel do Tibau, em Niterói. Uma bomba hidráulica de grande porte chegou à região e será utilizada no sistema temporário que manterá a circulação da água durante a intervenção.
As equipes já trabalham na instalação de um emissário. A estrutura levará água do mar até a lagoa enquanto a comporta original permanecer fechada para a execução dos serviços.
A obra busca recuperar a conexão entre a Lagoa de Piratininga e o oceano. Além disso, pretende melhorar a circulação e a oxigenação da água.
A expectativa é que essas mudanças ajudem a reduzir episódios de mortandade de peixes. Entretanto, pesquisadores ressaltam que os resultados ambientais dependerão também de outras ações realizadas no sistema lagunar.
Obra do Túnel do Tibau recebe investimento de R$ 38 milhões
A Prefeitura de Niterói assumiu a recuperação do Túnel do Tibau após anos de problemas na estrutura.
Construído pelo Governo do Estado em 2005, o túnel sofreu um desmoronamento parcial em 2019. Desde então, a circulação de água ficou comprometida.
O município contratou a intervenção por aproximadamente R$ 38 milhões.
Segundo a Prefeitura, a atual etapa possui prazo estimado de 12 meses.
O prefeito Rodrigo Neves afirma que a responsabilidade pela gestão das lagoas é estadual. Mesmo assim, segundo ele, Niterói decidiu assumir a obra diante da demora na recuperação da estrutura.
“A Lagoa de Piratininga não podia mais esperar”, afirmou.
O prefeito também destacou que o município aguardou a licença ambiental antes de iniciar os trabalhos.
Bombeamento manterá circulação durante a obra
A recuperação do túnel exige o fechamento temporário da estrutura existente.
Por isso, será implantado um sistema de bombeamento para auxiliar na circulação hídrica durante os trabalhos.
O emissário deverá transportar água do mar enquanto a intervenção ocorre no interior do túnel.
Ao final dessa fase, o sistema provisório será desmontado.
As motobombas e suas bases serão retiradas com auxílio de escavadeira hidráulica. Depois, os equipamentos serão transportados para fora da área.
Os demais componentes também serão removidos pela equipe responsável pela obra.
A previsão é que os locais utilizados durante a operação temporária recuperem suas características anteriores após a desmontagem.
Túnel permite troca de água entre lagoa e mar
O Túnel do Tibau foi construído justamente para melhorar a renovação das águas da lagoa.
A estrutura cria uma ligação hidráulica entre o sistema lagunar e o mar.
Com o desmoronamento parcial, porém, essa capacidade ficou comprometida.
A redução da circulação contribui para condições desfavoráveis principalmente em períodos de calor intenso.
Entre os problemas estão a baixa oxigenação e episódios de mortandade de peixes.
Por isso, recuperar o funcionamento da estrutura é considerado um passo importante para aumentar a renovação das águas.
Pesquisadores evitam prever aumento da pesca
Apesar da expectativa em torno da obra, pesquisadores adotam cautela ao projetar seus efeitos sobre a pesca.
O professor Cassiano Monteiro Neto, da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que ainda não é possível calcular quanto a produção pesqueira poderá aumentar.
Segundo ele, o principal benefício esperado está na redução dos episódios de mortalidade.
“Não há como prever, neste momento, em termos percentuais, se haverá aumento na produção de pescado”, explicou.
Por outro lado, uma melhora da circulação e da oxigenação pode trazer maior estabilidade ao ecossistema.
Consequentemente, isso também pode beneficiar os pescadores.
Mortandade pode comprometer meses de produção
Segundo Cassiano, os episódios de mortandade causam efeitos prolongados.
Em média, essas ocorrências podem representar uma perda equivalente a três ou quatro meses de produção pesqueira.
Um dos motivos é a morte dos peixes mais jovens, conhecidos como recrutas.
Esses animais teriam potencial para crescer e formar parte dos estoques pescados nos meses seguintes.
Por isso, reduzir a frequência desses episódios pode ser tão importante quanto aumentar imediatamente a quantidade de pescado.
Pescadores monitoram a Lagoa de Piratininga desde 2019
A recuperação do sistema lagunar também conta com a participação dos pescadores artesanais.
Desde 2019, eles registram informações sobre as espécies capturadas, quantidade de pescado, locais de pesca e períodos de maior produtividade.
Os dados fazem parte do Automonitoramento Assistido da Pesca.
O projeto reúne pescadores e pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Depois da coleta, os dados são analisados pelos cientistas e discutidos novamente com a comunidade.
Assim, o conhecimento acadêmico se combina à experiência de quem vive diariamente da lagoa.
Lagoa produziu cerca de sete toneladas de pescado
Os levantamentos mostram que, apesar dos problemas ambientais, a Lagoa de Piratininga mantém atividade pesqueira.
Somente no primeiro quadrimestre monitorado de 2025, foram registradas cerca de sete toneladas de pescado.
O dado ajuda a mostrar que o ecossistema ainda possui capacidade produtiva.
Entretanto, essa produção sofre oscilações diante de eventos ambientais extremos.
Por isso, o monitoramento continuará durante e depois das obras.
A intenção é comparar as condições da lagoa antes e depois da recuperação do túnel.
Trabalho virou referência acadêmica
O projeto de monitoramento também ganhou espaço em encontros científicos.
O trabalho foi apresentado no 20º Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar (Colacmar) e no 8º Congresso Brasileiro de Oceanografia.
A pesquisa reúne informações produzidas ao longo de vários anos.
Entre os responsáveis estão pesquisadores que estudam o sistema Piratininga-Itaipu desde antes da abertura do Canal do Tibau.
Dessa forma, as equipes conseguem comparar diferentes fases ambientais da lagoa.
Pescadores esperam redução das mortandades
Para quem depende economicamente da lagoa, a recuperação do túnel representa uma expectativa antiga.
O presidente da Associação dos Pescadores Artesanais da Lagoa de Piratininga (Apalap), Luiz Mendonça, lembra que a comunidade continuou pescando mesmo durante os períodos mais críticos.
“Enquanto muita gente dizia que ela estava perdida, nós continuamos pescando, participando das pesquisas e acreditando na recuperação”, afirmou.
Segundo ele, uma renovação maior das águas pode melhorar as condições para a atividade.
A expectativa dos pescadores é principalmente reduzir a mortandade e aumentar a estabilidade da produção.
Esgoto também interfere na recuperação da lagoa
A obra do túnel, porém, não resolve sozinha todos os problemas ambientais.
O lançamento de esgoto e a chegada de nutrientes ao sistema lagunar também influenciam a qualidade da água.
Por isso, Niterói mantém o programa Ligado na Rede.
A iniciativa realiza gratuitamente ligações de imóveis de famílias de baixa renda à rede coletora de esgoto em comunidades da bacia de Piratininga.
Segundo o balanço mais recente apresentado pelo município, 951 imóveis já receberam intervenções.
A Prefeitura calcula que as ligações evitem o lançamento mensal de mais de 20 milhões de litros de esgoto no sistema.
Ações alcançam diferentes comunidades
O programa atende áreas como Jacaré, Cafubá, Boa Esperança, Jardim Fazendinha, Bonsucesso e Caniçal.
Ao conectar os imóveis à rede regular, a Prefeitura pretende reduzir despejos em rios, valas e canais que chegam à lagoa.
Além disso, outras ações trabalham sobre diferentes fontes de degradação.
A Companhia de Limpeza de Niterói (Clin) realiza operações para retirar resíduos descartados irregularmente.
Já o Gecopav atua na fiscalização e remoção de materiais das margens do sistema lagunar.
Parque Orla Piratininga também integra recuperação
Outro projeto relacionado ao sistema é o Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis.
Com aproximadamente 680 mil metros quadrados, a área reúne infraestrutura de lazer e soluções ambientais.
Entre elas estão os chamados jardins filtrantes.
Essas estruturas utilizam plantas e processos naturais para ajudar a filtrar águas antes que elas cheguem à lagoa.
Além disso, o parque possui 10,6 quilômetros de ciclovia, píeres de pesca e contemplação, mirantes e áreas de lazer.
O espaço também abriga um Centro Ecocultural voltado à educação ambiental.
Renaturalização do Rio Jacaré faz parte das ações
A recuperação do Rio Jacaré também está ligada ao trabalho realizado na bacia da Lagoa de Piratininga.
O projeto busca recuperar características naturais do curso d’água e reduzir impactos provocados pela urbanização.
Assim, diferentes iniciativas atuam sobre problemas distintos.
Enquanto o túnel trabalha na circulação entre lagoa e oceano, o saneamento reduz a chegada de esgoto.
Ao mesmo tempo, a limpeza combate resíduos e os projetos ambientais buscam diminuir sedimentos e nutrientes.
População será informada sobre etapas da obra
Durante os trabalhos no Túnel do Tibau, a área deverá permanecer sinalizada.
Segundo o subsecretário de Mobilidade e Infraestrutura, Vicente Temperini, a medida busca proteger moradores, pescadores, trabalhadores e banhistas.
A Prefeitura também afirma que manterá diálogo com pescadores e pesquisadores durante a execução.
Além disso, o monitoramento científico continuará acompanhando as mudanças no sistema lagunar.
Dessa maneira, será possível avaliar os efeitos reais da nova circulação hídrica.
Recuperação da Lagoa de Piratininga depende de várias ações
A chegada da bomba hidráulica representa, portanto, uma nova fase da intervenção no Túnel do Tibau.
Entretanto, a recuperação da Lagoa de Piratininga não depende apenas dessa obra.
Saneamento, controle de resíduos, recuperação de rios, monitoramento científico e participação dos pescadores também interferem no futuro do sistema.
A reconstrução do túnel tem uma função específica: restabelecer uma circulação mais eficiente entre a lagoa e o mar.
Se a intervenção atingir esse objetivo, pesquisadores esperam maior oxigenação e menos episódios de mortandade de peixes.
Agora, as próximas etapas da obra e os dados produzidos pelo monitoramento deverão mostrar como a Lagoa de Piratininga responderá à retomada dessa conexão com o oceano.







