Brasil

Carnaval 2026: União da Ilha se reencontra através do Cometa Halley, mas se perde com puxador

Desfile do Carnaval 2026 marca reencontro estético da União da Ilha do Governador com seu estilo | João Salles/Riotur

Desfile do Carnaval 2026 marca reencontro estético da União da Ilha do Governador com seu estilo | João Salles/Riotur

André Freitas

Por André Freitas

Diretor-executivo e repórter do Folha do Leste, desde os anos 1990 cobrindo carnaval direto da Marquês de Sapucaí

De Niterói • Atualização às 06h44

Sexta escola a pisar na Passarela do Samba, a União da Ilha do Governador promoveu reencontros históricos em seu desfile pela Série Ouro neste Carnaval 2026. O primeiro, acima de tudo, com sua própria identidade: alegre, vibrante e lúdica. Sob o enredo “Viva o hoje! O amanhã fica pra depois”, assinado por Marcus Ferreira e Henrique Pessoa, a escola transformou o medo da vinda do Cometa Halley em 1910 em uma explosão de Halley-folia.

União da Ilha se reencontra através do Cometa Halley, mas se perde com puxador

Comissão de Frente da União da Ilha do Governador | Alex Ferro/Riotur

Contudo, o brilho visual encontrou um obstáculo severo: a interpretação do samba-enredo não acompanhou o vigor da comunidade.

O Veredito Técnico: Equilíbrio Plástico vs. Caos Sonoro

Uma análise técnica detalhada de nossa parte revela um descompasso entre o que se viu e o que se ouviu. Embora a Baterilha tenha sustentado o ritmo com a competência habitual, o entrosamento com o que nos habituamos a chamar de “carro de som” foram o ponto crítico.

Abre Alas com máscaras de gas vendidas para passagem do cometa | Alex Ferro/Riotur

Abre Alas com máscaras de gas vendidas para passagem do cometa | Alex Ferro/Riotur

O desempenho dos puxadores, liderados por Tem Tem Jr., apresentou falhas que comprometem a fluidez melódica e a clareza da obra, especificamente, por meio do excesso de “gritos” e “cacos” mal desenhados. Em meio a uma estética impecável, há de se lamentar essa poluição sonora.

Infelizmente, o artista não entregou um trabalho à altura da agremiação. Sua comunidade, mesmo cantando e desfilando com muita alegria, não conseguiu anular o efeito negativo.

A Belle Époque Carioca e o Legado de Maria Augusta

O carnavalesco Marcus Ferreira trouxe à avenida um Rio de Janeiro pouco lembrado daquela época. Para isso, utilizou o coreto — elemento central da comissão de frente — como símbolo de quando a vida ainda pulsava nos espaços públicos. A jornada do desfile, dividida em missões, culminou em uma bela homenagem à eterna Maria Augusta e ao antológico carnaval “O Amanhã“.

Alegoria que homenageou Maria Augusta na União da Ilha neste Carnaval 2026 | Alex Ferro/Riotur

Alegoria que homenageou Maria Augusta | Alex Ferro/Riotur

A plástica da escola, a nosso ver, trouxe uma grande nostalgia daqueles carnavais que permanecem vivos na memória. Em síntese, um deleite, e sem dúvidas o melhor trabalho individual que vi do Marcus Ferreira.  A começar pela fantasia do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira João Oliveira e Duda Martins,  representando a Via Láctea. Ainda há de se considerar a beleza da ala das Baianas, descritas no texto adiante.

A trajetória do Cometa Halley que a Ilha imortalizou

A narrativa levada à avenida pela União da Ilha não foi apenas um delírio carnavalesco, embora a licença poética já tenha consagrado campeonatos dessa natureza. O desfile reconstruiu um Rio de Janeiro que parou para olhar o céu, cujo enredo resgatou um episódio de histeria coletiva. Isso ocorreu em 19 de maio de 1910, quando o temor pelo fim do mundo fez com que cariocas lotassem igrejas. Ao mesmo tempo, de modo paradoxo, celebraram a vida com uma intensidade raramente vista fora dos dias de folia.

2º carro alegórico da União da Ilha | Alex Ferro/Riotur

2º carro alegórico da União da Ilha | Alex Ferro/Riotur

O carnavalesco Marcus Ferreira traçou um paralelo inteligente entre o medo ancestral e a esperança renovada. A ala das Baianas, um dos pontos altos da plástica, trouxe a fantasia “A Preta-Velha Perereca”, uma referência direta às figuras populares que habitavam o imaginário da Belle Époque carioca. Em suas duas faces, a roupa personificou a resistência cultural persistente nos morros e subúrbios.

Essa jornada culminou em um tributo à Maria Augusta, a carnavalesca que em 1978 assinou o antológico “O Amanhã“. Ao projetar o Halley-61 (próxima passagem do cometa), a Ilha não apenas olhou para o passado, mas estabeleceu um compromisso com a continuidade de sua própria linhagem artística, reafirmando que o “amanhã” só existe se cuidarmos do “hoje”.

Ilha reencontra alma plástica, mas ainda busca sua voz

O desfile da União da Ilha do Governador neste Carnaval 2026 deixa uma lição clara: que a agremiação recuperou sua essência. Após anos de buscas estéticas por vezes distantes de sua natureza, a agremiação voltou a ser a escola do lúdico, das cores vibrantes e da comunicação direta com o espectador. Visualmente, a escola está pronta para figurar entre as grandes do Grupo Especial.

Entretanto, o jornalismo técnico exige honestidade: uma escola de samba é um organismo onde o visual e o sonoro precisam caminhar em absoluta simetria. Enquanto a Baterilha deu um show de sustentação e a comunidade provou que o samba está “na ponta da língua”, o carro de som não esteve à altura do espetáculo.

O excesso de cacos e a falta de desenho melódico na interpretação de Tem Tem Jr. criaram um ruído desnecessário em uma obra que merecia mais sutileza. Não se tratou de um primor de samba, daqueles que esquentam a arquibancada. Todavia, para quem almeja o topo, o erro técnico no canto é um alerta que não pode ser ignorado.

A Ilha reencontrou sua alma, é fato. Agora, precisa urgentemente reencontrar o equilíbrio de sua voz para que o “amanhã” no Grupo Especial não fique, novamente, para depois.

André Freitas
André Freitas é diretor-executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Jornalista e radialista desde a década de 1990, é narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Possui ampla experiência na cobertura da editoria de política, em razão de funções exercidas nos poderes Legislativo e Executivo, com atuação nas Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo e Campos dos Goytacazes, além da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e da Prefeitura de Niterói. Dirigiu por 15 anos a Rádio Absoluta, onde apresentou programas noticiosos diários e conduziu coberturas esportivas, incluindo mais de uma década acompanhando a seleção brasileira de futebol. Nesse período, esteve presente em duas Copas do Mundo e em uma edição dos Jogos Olímpicos. Trabalhou também nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e Litorânea (ES). Exerceu o cargo de editor-chefe nos jornais Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ), além de atuar como colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

More in:Brasil

You may also like

Comments are closed.