
Donald Trump recebe Lula na Casa Branca com tapete vermelho estendido | Reprodução
Os presidentes do Brasil e Estados Unidos da América, Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, estão reunidos neste momento na Casa Branca, em Washington, DC. O encontro acontece no pior momento de popularidade do chefe de governo americano e com cenário político no Brasil indicando a derrota de Lula para Flávio Bolsonaro nas eleições de outubro. Apesar do antagonismo ideológico, ambos precisam um do outro nesse momento para reverter as situações políticas adversas que vivem.
Lula chegou na sede do governo americano pouco depois das 12h, juntamente com sua comitiva de autoridades para os assuntos que fazem parte da agenda. Especificamente, estão com o presidente brasileiro os seguintes membros do governo:
- Mauro Vieira, Ministro das Relações Exteriores;
- Wellington César, Ministro da Justiça e Segurança Pública;
- Andrei Rodrigues, Diretor-geral da Polícia Federal;
- Dario Durigan, Ministro da Fazenda;
- Márcio Elias Rocha, Ministro da Indústria e Comércio;
- Alexandre Silveira, Ministro das Minas e Energia.
Apesar dos governos não terem divulgado as tratativas do encontro, sabe-se que, pelo menos, haverá a discussão pautas relacionadas à segurança pública, terras raras, PIX, tarifaço,
O ganha-ganha de Trump e Lula
Atualmente, Donald Trump vive o pior momento de avaliação do seu governo. Dados da pesquisa Reuters/Ipsos apontam aprovação de apenas 34%. Porém, esse número cai ainda mais, para 22%, quando a aprovação se refere à condução do custo de vida.
O problema político de Trump não é inflação abstrata, mas como o preço é visto pelo eleitor no mercado. A Reuters apontou alta forte durante o atual mandato de Trump, sobretudo com a carne bovina e vitela registrando aumento de 12,1% em 12 meses nos EUA, enquanto frutas e vegetais subiram 4%. Além disso, o café também encareceu.
No Brasil, a maior parte dos institutos de pesquisa mostra Lula em desvantagem em relação a Flávio Bolsonaro, com cenários de empate técnico. Logo, um acordo com Trump pode lhe dar a margem necessária para virar esse jogo fora do campo ideológico.
Americanos querem comida mais barata
Nesse cenário, o Brasil tem papel decisivo e fundamental para tirar o presidente americano do buraco cavado por ele próprio. A solução está em mais oferta brasileira e menos tarifa sobre produtos alimentares.
Com Lula, Trump tem uma saída concreta: mais oferta brasileira e menos tarifa sobre produtos alimentares. Caso o presidente dos EUA reduza tarifas ou barreiras sobre itens brasileiros, seu governo pode vender isso internamente como medida para baratear comida.
Por outro lado, Lula poderia permitir que Trump anunciasse um “acordo alimentar” com o Brasil. Na prática, seria redução de barreiras, previsibilidade comercial e ampliação de oferta.
Politicamente, ambos teriam bons discursos internos. Trump diria: “forcei o Brasil a negociar e baixei preços”. Já Lula sustentaria: “derrubei tarifas e defendi exportadores brasileiros”.
Enfim, Lula pode dar a Trump uma vitória de supermercado. Já Trump pode dar a Lula uma vitória de soberania.
Lula patriota
Caso Trump recue, Lula ganharia ativos eleitorais importantes. Inicialmente, tendo um forte discurso para fazer o eleitorado refletir sobre aura patriótica de Flávio Bolsonaro.
Vale destacar que cada encontro que Lula tem com Trump — este é o terceiro em 8 meses — esvazia a narrativa de que o bolsonarismo tem uma ponte exclusiva com Washington. O reconhecimento de Trump da legitimidade do governo brasileiro dá a Lula maior respeitabilidade e prestígio internacional. Sobretudo se Trump admitir que a pressão tarifária imposta ao Brasil jamais esteve ligada ao caso Bolsonaro.
Lula pode inverter o discurso sobre a defesa do Brasil e de seus interesses econômicos. Terá em seu favor a narrativa de que desatou o nó cego sobre as tarifas. Ainda poderá dizer que enfrentou Trump, negociou sem baixar a cabeça e protegeu exportadores, empregos e soberania.
Além disso, poderá dizer que matou a fome do povo estadunidense. Jogará o peso o encarecimento dos alimentos sobre o grupo político de Flávio Bolsonaro, que celebrou pressão estrangeira contra o próprio país.
Segurança Pública versus Terrorismo
Primeiramente, a de enfrentamento ao crime organizado. Muito por conta da pressão dos EUA para enquadrar facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. Como resultado, isso abriria espaço para arbítrios unilaterais do governo americano.
O maior temor brasileiro é de que isso sirva de pretexto para justificar medidas extraterritoriais. Sobretudo, que resultem em ameaça à soberania brasileira no seu próprio território. Basta recordar o que aconteceu na Venezuela recentemente.
Esse enquadramento pode justificar medidas extraterritoriais, sanções e ações unilaterais, ainda que uma invasão aberta contra o Brasil fosse outro patamar, com custo diplomático gigantesco
Sobre esse assunto, o Brasil quer, claramente, evitar interferência norte-americana em território nacional. Por esse motivo motivo pelo qual o Diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o Ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César, participam do encontro.
Economia: PIX na mira dos EUA e tarifaço
O Pix virou um problema para os interesses do governo americano porque reduz espaço de intermediação financeira dos meios de pagamento. Em suma, porque é rápido, barato e massivo. Logo, tornou-se um concorrente direto de cartões, carteiras digitais e soluções de pagamento de empresas dos EUA. Por exemplo, Visa, Mastercard, Apple, Google, Meta e bancos.
Por conta disso, o governo Trump abriu uma investigação comercial contra o Brasil pela Seção 301. Sobre o Pix, alega que o país adota práticas “injustas” em comércio digital e serviços de pagamento eletrônico.
Ou seja: o Pix é barato, popular e brasileiro demais para passar despercebido por quem se entende presidente do mundo.
Geopolítica, Terras Raras e Política Eleitoral
Lula e Trump têm uma conversa sensível sobre geopolítica e conflitos globais, sobretudo no Oriente Médio, com foco em Gaza e Irã. Lula pode defender cessar-fogo, proteção humanitária e solução diplomática, enquanto Trump tende a priorizar Israel, pressão sobre Teerã e contenção da influência iraniana. Nesse ponto, o Brasil tenta preservar uma posição de mediação, sem se alinhar automaticamente à estratégia americana.
Em terras raras e minerais críticos, Trump quer reduzir a dependência dos EUA em relação à China. O Brasil tem reservas estratégicas e pode virar fornecedor importante. Lula, porém, precisa exigir mais do que exportação de matéria-prima: quer indústria, tecnologia, refino, pesquisa e empregos no Brasil.
Nas eleições, o gesto mais forte seria Trump não dar asilo nem proteção política a bolsonaristas investigados. Isso enfraqueceria a narrativa de perseguição e deixaria Flávio Bolsonaro sem a retaguarda simbólica de Washington. Lula poderia vender o movimento como vitória da soberania brasileira e respeito dos EUA às instituições do Brasil.







