
Dia do Saci: por que o Brasil também celebra seu folclore em 31 de outubro? | Folha do Leste/Imagem ilustrativa gerada por IA
Enquanto abóboras iluminadas, fantasias de bruxas e histórias de fantasmas dominam o Halloween, o Brasil também reserva o 31 de outubro para celebrar uma de suas figuras folclóricas mais conhecidas: o Saci-Pererê.
Neste sábado, 31 de outubro de 2026, o Dia do Saci compartilha o calendário com o Dia das Bruxas. Entretanto, a celebração brasileira possui um propósito diferente: incentivar o reconhecimento das lendas, tradições orais e personagens que integram a cultura popular nacional.
A escolha da data surgiu de um movimento de valorização do folclore brasileiro no início dos anos 2000. Desde então, o personagem de uma perna só, carapuça vermelha e fama de travesso passou a representar também um debate sobre identidade cultural.
Mas a história do Saci é muito mais antiga que a comemoração. Suas diferentes versões reúnem influências indígenas, africanas e europeias, além de características que mudaram conforme as narrativas circularam pelo país.
Por que o Dia do Saci é comemorado no Halloween?
A escolha do dia 31 de outubro não aconteceu por acaso. A proposta surgiu como uma resposta à crescente presença do Halloween na cultura brasileira.
Segundo o Instituto Butantan, entusiastas da cultura popular passaram a defender uma celebração que destacasse personagens nacionais, em vez de concentrar todas as atenções nas tradições estrangeiras.
O movimento ganhou força em São Luiz do Paraitinga, no interior paulista, município conhecido por suas manifestações culturais tradicionais.
Em 2003, integrantes desse movimento fundaram a Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci). A organização passou a incentivar atividades voltadas ao folclore brasileiro e à valorização de seus personagens.
A proposta não exigia necessariamente abandonar o Halloween. Entretanto, seus defensores queriam ampliar o espaço destinado às histórias brasileiras nas escolas, nos eventos culturais e nas comemorações populares.
Assim, o Saci tornou-se símbolo de uma celebração que também contempla figuras como a Cuca, o Curupira, o Boitatá e outras criaturas presentes nas tradições do país.
O Folha do Leste já abordou a convivência dessas celebrações na reportagem Halloween: origens e tradições da festa das bruxas, publicada em 2024.
O Dia do Saci é uma data oficial no Brasil?
O reconhecimento da celebração exige uma distinção entre iniciativas culturais, legislações estaduais e propostas de alcance nacional.
Em 13 de janeiro de 2004, o Estado de São Paulo sancionou a Lei nº 11.669, que instituiu o Dia do Saci para comemoração anual em 31 de outubro.
A legislação pode ser consultada no acervo oficial da Assembleia Legislativa de São Paulo.
Também houve iniciativas no Congresso Nacional. Em novembro de 2003, a deputada Angela Guadagnin apresentou o Projeto de Lei nº 2.479/2003, com o objetivo de valorizar o folclore nacional por meio da comemoração.
Outra proposta, apresentada pelo deputado Aldo Rebelo, foi vinculada à primeira. Em 2004, a Comissão de Educação e Cultura da Câmara aprovou um substitutivo que propunha a instituição nacional da data.
Entretanto, a aprovação em comissão não significou a transformação da proposta em lei federal. O registro da Câmara dos Deputados identifica o Projeto de Lei nº 2.479/2003 como arquivado.
Em 2017, o deputado Chico Alencar apresentou outra proposta com objetivo semelhante, o Projeto de Lei nº 8.985/2017. A Câmara registra sua devolução ao autor.
Portanto, os documentos legislativos consultados confirmam o reconhecimento estadual paulista e iniciativas de alcance nacional, mas não comprovam a existência de uma lei federal que tenha instituído o Dia do Saci em todo o Brasil.
Isso não impede que a celebração seja lembrada em diferentes regiões, por meio de escolas, instituições culturais e iniciativas comunitárias.
De onde surgiu a lenda do Saci-Pererê?
Muito antes da criação de uma data comemorativa, o Saci já aparecia nas histórias transmitidas entre gerações.
Embora sua imagem mais conhecida seja a de um menino negro com uma perna só, cachimbo e carapuça vermelha, o personagem não possui uma única versão de origem.
O Instituto Butantan apresenta estudos que associam elementos da narrativa às tradições indígenas de povos tupi-guarani do Sul do Brasil.
Ao longo do tempo, a figura também recebeu influências africanas e europeias. Essas transformações ajudam a explicar a aparência pela qual se tornou conhecida nacionalmente.
Entre as características mais difundidas estão a capacidade de provocar redemoinhos, deslocar-se rapidamente e desaparecer diante de quem tenta capturá-lo.
Entretanto, algumas tradições apresentam características diferentes e até nomes relacionados, conforme a região e o contexto cultural.
Por isso, identificar uma única narrativa como a versão original e definitiva apagaria parte da diversidade do próprio folclore.
As travessuras e o lado sombrio do Saci
O Saci aparece frequentemente como um personagem divertido, mas suas histórias nem sempre são tão inocentes quanto as adaptações infantis sugerem.
Segundo a tradição popular, ele pode embaraçar crinas de cavalos, esconder objetos, atrapalhar trabalhos domésticos e assustar animais.
A MultiRio, vinculada à Prefeitura do Rio de Janeiro, registra algumas dessas travessuras em sua apresentação do personagem.
Em determinadas versões, o Saci também aparece como conhecedor das florestas e das propriedades das plantas.
Seu comportamento imprevisível faz dele uma figura que transita entre o humor, o mistério e o medo.
Essa combinação também explica por que o personagem encontra espaço em uma coluna dedicada à cultura do horror. Assim como muitas criaturas de outras tradições, ele representa forças desconhecidas da natureza e acontecimentos que a imaginação popular procura explicar.
Contudo, essas características pertencem ao universo das narrativas folclóricas, não constituem relatos cientificamente comprovados de fenômenos sobrenaturais.
Como Monteiro Lobato ajudou a popularizar o personagem?
O escritor Monteiro Lobato desempenhou um papel importante na divulgação do Saci durante o início do século XX.
Em 1917, ele organizou uma consulta a leitores sobre histórias relacionadas ao personagem. Os relatos reunidos contribuíram para a publicação de O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito, em 1918.
Posteriormente, o escritor incorporou o Saci ao universo literário do Sítio do Picapau Amarelo, ampliando sua presença entre leitores brasileiros.
Entretanto, Lobato não criou o personagem. Suas publicações registraram e reinterpretaram tradições que já circulavam oralmente.
A figura também conquistou espaço em outras obras literárias, histórias em quadrinhos, programas de televisão e produções culturais brasileiras.
Esse processo ajudou a consolidar a imagem popular do Saci, embora ela represente apenas parte das histórias existentes sobre o personagem.
Dia do Saci ou Halloween: é preciso escolher?
O Halloween e o Dia do Saci possuem trajetórias culturais distintas, mesmo compartilhando a data de 31 de outubro.
O primeiro reúne tradições que se transformaram ao longo dos séculos, especialmente na Europa e na América do Norte. Já a celebração brasileira surgiu como iniciativa contemporânea de valorização do folclore nacional.
Entretanto, a presença de uma comemoração não impede o interesse pela outra.
O Halloween pode despertar curiosidade sobre vampiros, fantasmas e bruxas, enquanto o Dia do Saci oferece uma oportunidade de conhecer criaturas e histórias que atravessam diferentes regiões brasileiras.
Essa convivência também permite ampliar o debate sobre a preservação das tradições orais, o papel das escolas e a diversidade das narrativas populares.
Afinal, personagens como o Saci não pertencem apenas às páginas de livros infantis. Eles integram um patrimônio cultural vivo, que continua recebendo novas interpretações.
O que o Saci representa no Halloween de 2026?
Mais de duas décadas depois das iniciativas que impulsionaram o Dia do Saci, a celebração mantém sua importância como oportunidade de divulgação da cultura brasileira.
Neste 31 de outubro de 2026, o personagem compartilha espaço com as figuras internacionais do Halloween, mas conserva uma identidade construída por diferentes tradições populares.
Seus redemoinhos, travessuras e histórias misteriosas lembram que o Brasil também possui um repertório de criaturas capazes de despertar curiosidade e medo.
Assim, celebrar o Dia do Saci não precisa significar rejeitar o Halloween. Pode representar, sobretudo, uma oportunidade de reconhecer que o universo do fantástico também faz parte da história cultural brasileira.








