Antes das festas à fantasia, das abóboras iluminadas e das crianças pedindo doces pelas ruas, o Halloween já reunia crenças sobre os mortos, costumes religiosos e antigas brincadeiras populares. Ao longo dos séculos, essas tradições mudaram de significado, atravessaram fronteiras e ajudaram a formar uma das celebrações mais reconhecidas do mundo.
Neste sábado, 31 de outubro de 2026, o Dia das Bruxas ganha uma nova oportunidade de revisitar seu passado. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos publicou, em 27 de outubro, uma pesquisa sobre como jornais históricos registraram as transformações da festa.
Intitulado Halloween Traditions to Follow: Tricks and Treats of the Season, o levantamento de Malea Walker utiliza o acervo digital Chronicling America para apresentar costumes que marcaram diferentes gerações.
Entre os registros aparecem fantasias, lanternas de abóbora, gatos pretos, bruxas e brincadeiras que nem sempre foram tão inocentes quanto as atuais. Os documentos mostram como o Halloween passou a combinar antigas tradições com hábitos culturais mais recentes.
O que os jornais antigos revelam sobre o Halloween?
A pesquisa da Biblioteca do Congresso percorre publicações norte-americanas do século XX. Em vez de apresentar uma origem única para a celebração, o material evidencia a variedade de costumes que passaram a integrar a data.
Um dos registros destacados aparece no jornal Evening Star, de Washington, em 28 de outubro de 1962. A publicação abordava as conexões históricas entre o Halloween, celebrações cristãs e antigas tradições celtas.
Outros jornais documentaram o crescimento das festas à fantasia, a popularização das abóboras esculpidas e as travessuras praticadas durante a noite de 31 de outubro.
Esses registros são importantes porque revelam como determinadas práticas eram descritas em suas respectivas épocas. Entretanto, um jornal antigo não comprova, por si só, a origem remota de uma tradição. Ele permite investigar como essa tradição circulava e era compreendida.
O levantamento completo pode ser consultado na publicação oficial da Biblioteca do Congresso.
O Halloween surgiu realmente com os celtas?
Uma das explicações mais conhecidas relaciona o Halloween ao Samhain, celebração associada a povos celtas e à transição entre a época das colheitas e os meses frios do Hemisfério Norte.
Segundo tradições populares ligadas a esse período, a passagem entre as estações também estaria associada a uma aproximação simbólica entre o mundo dos vivos e o dos mortos.
Entretanto, a relação direta entre Samhain e todos os costumes atuais do Halloween exige cautela histórica.
O historiador Michael Carter, em material publicado pela organização britânica English Heritage, questiona interpretações que apresentam a festa moderna como simples continuação de um ritual pagão.
Para o pesquisador, algumas explicações populares sobre demônios e espíritos podem refletir reconstruções folclóricas posteriores. Além disso, a chegada do inverno, a redução da luz natural e os encontros comunitários ajudam a compreender o ambiente em que determinadas narrativas se desenvolveram.
Portanto, o Halloween não possui uma origem única capaz de explicar todos os seus símbolos. Sua formação envolve diferentes tradições e transformações históricas.
Como a véspera de Todos os Santos ganhou seu nome?
O próprio nome Halloween possui uma ligação documentada com o calendário cristão.
A expressão inglesa All Hallows’ Eve significa véspera de Todos os Santos. Ela se refere à noite anterior ao Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro em tradições cristãs ocidentais.
Com o passar do tempo, a expressão foi abreviada e deu origem ao termo Halloween.
Já o Dia de Finados, observado em 2 de novembro na tradição católica, integra outro momento desse período dedicado à memória dos mortos.
Essas datas possuíam significados religiosos próprios. Entretanto, costumes populares também se desenvolveram ao seu redor, incluindo reuniões comunitárias, distribuição de alimentos e práticas relacionadas à lembrança dos falecidos.
A English Heritage apresenta uma análise histórica dessas celebrações, destacando suas relações e diferenças.
Antes dos doces, crianças e jovens praticavam travessuras
Hoje, a expressão inglesa trick or treat, conhecida no Brasil como “doces ou travessuras”, costuma representar uma brincadeira em que crianças fantasiadas visitam casas para pedir guloseimas.
Contudo, os jornais históricos reunidos pela Biblioteca do Congresso mostram que as travessuras já tiveram um papel especialmente marcante na celebração.
Em diferentes épocas, grupos de jovens participavam de brincadeiras que podiam incomodar moradores e transeuntes. Algumas incluíam arremessar farinha ou ovos, enquanto outras ultrapassavam os limites de uma diversão considerada aceitável.
As publicações registram inclusive preocupações com os prejuízos provocados por essas práticas.
Ao longo do tempo, a distribuição de doces se consolidou como uma característica importante do Halloween norte-americano.
Também existem antecedentes europeus relacionados à circulação de pessoas entre residências. Entre eles aparece o souling, costume no qual pessoas recebiam alimentos ou donativos em troca de orações pelos mortos.
Outra tradição, chamada guising, envolvia disfarces e apresentações. Esses costumes ajudam a compreender a formação da prática moderna, embora não representem uma sequência histórica única e totalmente comprovada.
Por que as abóboras se tornaram símbolo do Dia das Bruxas?
Poucos elementos são tão reconhecíveis no Halloween quanto uma abóbora iluminada, com olhos e boca esculpidos.
Conhecida como jack-o’-lantern, essa decoração aparece repetidamente em registros históricos norte-americanos.
O levantamento da Biblioteca do Congresso apresenta referências publicadas em jornais de 1943 e 1953, mostrando a presença das abóboras no imaginário da celebração.
Entretanto, as lanternas de Halloween nem sempre foram feitas com esse vegetal.
Na Grã-Bretanha, registros do século XIX documentam lanternas produzidas com nabos e outros vegetais. Com a transformação das tradições no contexto norte-americano, as abóboras ganharam destaque.
Posteriormente, essa imagem também passou a representar o Halloween em diferentes países, inclusive no Brasil.
Assim, um objeto associado à iluminação e às tradições populares transformou-se em um dos símbolos internacionais da cultura do horror.
Bruxas e gatos pretos também ganharam novos significados
A associação entre Halloween, bruxas e gatos pretos está profundamente presente na cultura popular.
Nos jornais recuperados pela Biblioteca do Congresso, essas figuras aparecem em ilustrações e referências a crenças sobrenaturais.
Uma publicação do New-York Tribune, de 29 de outubro de 1916, integra a seleção de registros históricos relacionados às bruxas.
As representações variaram ao longo do tempo. Enquanto algumas imagens enfatizavam figuras ameaçadoras, outras incorporavam personagens mágicos e elementos humorísticos.
Os gatos pretos, por sua vez, passaram a figurar tanto em narrativas de superstição quanto em decorações festivas.
É importante distinguir essas representações de acontecimentos reais. A associação de animais a supostos poderes sobrenaturais pertence ao campo das crenças e tradições culturais, não constitui evidência de fenômenos extraordinários.
Como o Halloween chegou à cultura brasileira?
A celebração ganhou uma configuração especialmente popular nos Estados Unidos, influenciada por tradições trazidas por comunidades de imigrantes e por mudanças nos costumes locais.
Posteriormente, filmes, séries, produtos culturais e festas temáticas contribuíram para ampliar sua circulação internacional.
No Brasil, o Halloween passou a ocupar espaço em escolas, cursos de idiomas, estabelecimentos comerciais e eventos de entretenimento.
Entretanto, a presença da data também abriu debates sobre a valorização das tradições populares brasileiras, especialmente porque 31 de outubro também é celebrado como Dia do Saci.
O Folha do Leste já apresentou um panorama dessas transformações na reportagem Halloween: origens e tradições da festa das bruxas, publicada em 2024.
Agora, a documentação recuperada pela Biblioteca do Congresso acrescenta outra perspectiva: a possibilidade de acompanhar a transformação da celebração pelos registros deixados pela imprensa de diferentes épocas.
O que permanece por trás das máscaras do Halloween?
O Halloween de 2026 reúne costumes que não nasceram simultaneamente nem possuem necessariamente a mesma origem.
As abóboras, os doces, os disfarces e as figuras sobrenaturais representam diferentes momentos de uma história cultural marcada por adaptações.
Os jornais preservados pela Biblioteca do Congresso mostram que até mesmo práticas hoje consideradas tradicionais já passaram por mudanças significativas.
Por trás das fantasias e das decorações, permanece uma questão antiga: como as sociedades transformam seus medos, suas crenças sobre a morte e seus costumes em manifestações culturais compartilhadas?
A história do Halloween revela que essas transformações não pertencem apenas ao passado. Elas continuam acontecendo a cada 31 de outubro.









