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Desinformação: mídias digitais “inventam” assalto ao Banco do Brasil na Amaral Peixoto em Niterói

Uma ação policial em plena Avenida Ernani do Amaral Peixoto, no Centro de Niterói, ganhou vestes de notícia como tentativa de assalto a uma agência do Banco do Brasil por viralizar em diversos canais de mídias digitais e redes sociais. A versão fantasiosa — para não dizer falsa — chegou a ganhar notoriedade em veículos de imprensa da região. Alguns, rapidamente, corrigiram-se, mas sem nenhum tipo de retratação. Outros meios, entretanto, não tiveram o menor pudor em tirar proveito dos cliques gerados pela mentira. 

A bem da verdade, tudo não passou de uma bem sucedida operação da Polícia Federal (PF), no âmbito da força-tarefa Redentor II. Os agentes envolvidos na diligência tinham como objetivo prender em flagrante uma quadrilha que realizava movimentações financeiras para criminosos. Esse foi o fato que publicamos após apurar o que, verdadeiramente, havia acontecido.

PF prende operadores financeiros do crime com R$ 800 mil em Niterói | Reprodução

A verdade

De fato, toda ação aconteceu no Banco do Brasil do Centro de Niterói. Passantes desinformados até podem ter entendido, por achismo, ou dedução lógica, que se tratava de uma tentativa de assalto. Mas esse direito não se reserva a jornalistas. Desde o mais inexperiente foca ao trisavô das redações, há uma regra básica: apuração. E isso passa por checagem em diversas camadas, desde as fontes pessoais àquelas oficiais.

A pressa não é amiga do jornalista

Sabemos que os modelos de negócios de comunicação, atualmente, cobram agilidade. Mas de que adianta combinar agilidade com imprecisão? Vai performar primeiro: sim. Mas com algo que não é verdade, para obter benefício próprio com o caos. Depois, sempre surgem os veículos sérios para limpar o mar de lama deixado por essa corja que somente deprecia o mercado.

Cabe a qualquer repórter cumprir, antes de mais nada, a regra primária do jornalismo: apurar. E uma das regras básicas do pontapé inicial da apuração consiste em não tratar indício como fato. Afinal, a apuração é o alicerce da notícia. Apurou mal, vai errar.

Voo cego

Em um caso como o de hoje, quem não teve condições de “fazer o local” tem que ter paciência para adquirir alguma informação exclusiva. Em outras palavras, buscar com alguma fonte algo que possa ninguém tenha dado tratamento jornalístico para usar isso como trunfo e se recuperar do prejuízo. Além disso, esperar pelas confirmações oficiais. Quem noticiou antes, não recebeu resposta.

Portanto, antes de noticiar qualquer coisa, faz-se necessário ter certeza do que aconteceu. Na dúvida, não publique. Confie sempre no que os seus olhos veem, não no que os olhos dos outros viram. A gente sabe que a fonte Gasparzinho está na moda, mas esse fantasma de camarada não tem nada.

Pequena aula de Ética Profissional

Um dos princípios mais importantes do jornalismo está na dedicação para a realidade objetiva. Ele está presente nos Princípios Internacionais da Ética Profissional no Jornalismo, como o segundo de apenas 10.

A tarefa primeira do jornalista é garantir o direito das pessoas à informação verdadeira e autêntica através de uma dedicação honesta para realidade objetiva por meio de que são informados fatos conscienciosamente no contexto formal deles/delas e mostram as conexões essenciais deles/delas e sem causar distorção, com desenvolvimento devido da capacidade criativa do jornalista, de forma que o público é provido com material adequado para facilitar a formação de um quadro preciso e compreensivo do mundo no qual a origem, a natureza e a essência dos acontecimentos, processos e estados dos casos são tão objetivamente quanto possível compreendidos.

Para-choque de caminhão

Indo além dessa aula, que exclui do jornalismo 95% das pessoas e meios que, literalmente, “fabricam notícias, invoco a sabedoria popular. Faço isso porque me lembrei de um ditado corriqueiro, que bem define a fake news de hoje em Niterói. Mas a frase somente vale para somente para quem agiu de boa-fé: a pressa é inimiga da perfeição”.

Faculdade da vida

Infelizmente, esse não se trata do caso da maior parte dos “jornalistas de internet” e dos donos de páginas e perfis sociais, ou canais (sabe-se lá de quê). Seus conteúdos jamais poderiam ser classificados ou considerados NOTÍCIA.

Vejam isso antes que apaguem…

O jornalismo, bem como as atividades de imprensa, não têm proteção constitucional à toa. Trata-se de atividade que, em primeiro lugar, exige responsabilidade social. Segundamente, não há como apartar a notícia da verdade dos fatos. Isso, atualmente, tem um nome bem popular: fake news (em português, notícia falsa).

Todavia, isso é o que mais se vê no universo das redes sociais e dos canais digitais, ávidos por cliques, monetização, engajamento, crescimento orgânico. Imagens e vídeos associados a narrativas, todas fundamentadas no ouvi dizer ou na mera interpretação daquilo que se enxerga.

Roubaram minha profissão: eu não tenho seguro. E agora?

Para esse bando de usurpadores, pouco importa o que, de fato, aconteceu, pois o que vale, para eles, resume-se ao total de compartilhamentos, cliques, curtidas, visitas ao perfil, aumento de seguidores. Com eles, não há garantia de contraditório, muito menos um outro ângulo para a versão dos fatos. Somente querem mostrar os dados consolidados de suas audiências, na tentativa de mostrar força e poder.

Desafio da caneta Bic

Pena que eles sequer saibam o quanto são fracos e impotentes. Sobretudo, diante de alguém que, com três frases, pode lhes dizer a mais dura verdade, e que muito bem os define e resume quem são: nada, quando sozinhos, ninguém quando estão em mais de um. Eu, pelo menos, só gastei duas.

André Freitas
André Freitas é diretor-executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Jornalista e radialista desde a década de 1990, é narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Possui ampla experiência na cobertura da editoria de política, em razão de funções exercidas nos poderes Legislativo e Executivo, com atuação nas Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo e Campos dos Goytacazes, além da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e da Prefeitura de Niterói. Dirigiu por 15 anos a Rádio Absoluta, onde apresentou programas noticiosos diários e conduziu coberturas esportivas, incluindo mais de uma década acompanhando a seleção brasileira de futebol. Nesse período, esteve presente em duas Copas do Mundo e em uma edição dos Jogos Olímpicos. Trabalhou também nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e Litorânea (ES). Exerceu o cargo de editor-chefe nos jornais Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ), além de atuar como colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

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