
Impressão 3D cria mais de 142 mil expressões faciais para filme | Folha do Leste/Imagem ilustrativa gerada por IA
O estúdio LAIKA utilizou impressão 3D para fabricar mais de 142 mil expressões faciais para Wildwood, animação que estreou nos cinemas dos Estados Unidos em 23 de outubro. Conhecida por produções como Coraline e ParaNorman, a empresa combinou impressoras industriais da Stratasys com um software desenvolvido na Alemanha. O resultado permitiu criar milhares de variações nos rostos dos personagens, sem abandonar a animação artesanal.
O número impressiona, mas exige uma distinção importante. A LAIKA não criou 142 mil personagens diferentes. Na verdade, produziu componentes faciais intercambiáveis para representar sorrisos, movimentos da boca, mudanças no olhar e outras expressões durante as cenas.
O Instituto Fraunhofer IGD, responsável pelo software utilizado na fabricação, detalhou o processo em 22 de outubro. Já nesta segunda-feira (26), a LAIKA anunciou outra parceria tecnológica para melhorar a visualização digital de suas futuras impressões.
Como 142 mil rostos impressos em 3D ganham vida no cinema?
Wildwood utiliza uma técnica chamada stop-motion, na qual artistas movimentam personagens físicos e fotografam cada pequena alteração. Depois, a reprodução das imagens em sequência cria a ilusão de movimento.
O processo exige paciência e precisão. Para produzir um segundo de animação a 24 quadros por segundo, a equipe trabalha com 24 imagens individuais. Entretanto, a quantidade de fotografias não determina automaticamente o número de peças faciais necessárias.
É nesse ponto que a impressão 3D assume um papel importante. Em vez de remodelar manualmente o rosto do personagem a cada mudança de expressão, os animadores utilizam peças produzidas previamente.
Assim, uma sequência pode apresentar diferentes posições da boca, sobrancelhas e outras características faciais. Os artistas substituem os componentes conforme a necessidade de cada quadro e ajustam os movimentos das marionetes durante as filmagens.
Em determinadas cenas, a equipe pode utilizar até 24 expressões faciais diferentes por segundo. Contudo, esse número representa uma possibilidade técnica, não uma regra aplicada uniformemente a todos os personagens.
As peças continuam sendo objetos físicos. Portanto, a impressora não cria automaticamente o filme nem substitui a movimentação artesanal dos personagens.
Impressoras Stratasys J750 e J850 produzem rostos coloridos
Para fabricar os componentes de Wildwood, a LAIKA utilizou equipamentos Stratasys J750 e J850, desenvolvidos para impressão 3D colorida de alta precisão.
Essas máquinas empregam a tecnologia PolyJet, que deposita pequenas quantidades de materiais fotopoliméricos e utiliza luz ultravioleta para solidificá-los. Dessa maneira, o processo consegue reproduzir geometrias complexas e combinar diferentes características visuais.
O desafio, entretanto, não está apenas em criar uma peça com o formato correto. Como os rostos aparecem em uma sequência de fotografias, cada componente precisa manter cores e detalhes compatíveis com os anteriores.
Uma pequena diferença de tonalidade pode provocar uma alteração perceptível entre quadros consecutivos. Consequentemente, a pele do personagem poderia parecer mudar de cor durante uma conversa ou outra cena animada.
Para evitar esse problema, a equipe precisa controlar a reprodução das cores, das texturas e das superfícies. Além disso, deve preservar detalhes delicados mesmo quando trabalha com componentes de dimensões reduzidas.
Essa exigência explica por que a LAIKA utiliza equipamentos industriais e um sistema especializado de preparação dos arquivos, em vez de depender apenas de impressoras domésticas convencionais.
Software alemão Cuttlefish controla cores e texturas
O Cuttlefish, desenvolvido pelo Instituto Fraunhofer de Pesquisa em Computação Gráfica, na Alemanha, desempenha um papel central nessa produção.
O programa transforma modelos digitais tridimensionais em dados preparados para impressão. Durante esse processo, considera informações sobre geometria, cores e texturas, além de aplicar técnicas específicas para melhorar a qualidade das superfícies.
Segundo o instituto, o sistema permite reproduzir tonalidades com maior consistência e preservar detalhes visuais nas peças. Para a LAIKA, essa capacidade é especialmente importante porque os componentes precisam apresentar aparência semelhante quando a equipe os troca entre fotografias consecutivas.
Brian McLean, diretor de prototipagem rápida da LAIKA, confirmou que o estúdio produziu mais de 142 mil expressões faciais personalizadas com o Cuttlefish e as impressoras da Stratasys.
O executivo também destacou a necessidade de representar emoções intensas, diferentes tonalidades de pele e detalhes delicados. Afinal, a qualidade das expressões influencia diretamente a maneira como o público interpreta os sentimentos dos personagens.
O Cuttlefish, porém, não é uma tecnologia criada exclusivamente para Wildwood. A LAIKA mantém uma parceria com o instituto alemão há aproximadamente uma década.
De Coraline a Wildwood: impressão 3D já transformava animações
A utilização de impressoras 3D não começou com Wildwood. O estúdio já empregava fabricação aditiva desde Coraline, lançado em 2009, e continuou aprimorando essa técnica em produções posteriores.
Em ParaNorman, de 2012, a empresa avançou na utilização de rostos impressos em cores. Posteriormente, ampliou suas possibilidades com novas ferramentas digitais e equipamentos industriais.
Um dos marcos aconteceu em Missing Link, lançado em 2019. Naquela produção, a LAIKA utilizou o Cuttlefish para fabricar mais de 106 mil expressões faciais tridimensionais.
Agora, Wildwood ultrapassa a marca de 142 mil. Embora os dois números sejam aproximados, a comparação mostra como a quantidade de componentes faciais aumentou entre as produções.
Esse crescimento também representa um desafio logístico. Afinal, cada peça precisa corresponder ao personagem, à expressão e ao momento previsto na animação.
Por isso, a fabricação não termina quando uma impressora conclui o trabalho. A equipe ainda precisa organizar os componentes, conferir sua aparência e disponibilizá-los aos animadores conforme o planejamento das cenas.
Wildwood combina cenários físicos e tecnologia digital
Baseado no romance de Colin Meloy, com ilustrações de Carson Ellis, Wildwood apresenta uma aventura fantástica em um universo construído por artistas e animadores.
A produção utiliza personagens físicos, cenários detalhados e objetos fabricados artesanalmente. Ao mesmo tempo, incorpora tecnologias digitais durante diferentes etapas de planejamento e fabricação.
Essa combinação ajuda a explicar uma característica dos filmes da LAIKA: embora apresentem movimentos sofisticados e expressões detalhadas, seus personagens continuam existindo como objetos reais durante as filmagens.
Os animadores posicionam as marionetes, modificam suas expressões e fotografam os resultados. Posteriormente, a equipe reúne as imagens para construir a sequência cinematográfica.
Portanto, a impressão 3D funciona como uma ferramenta de fabricação dentro do processo de stop-motion. Ela não transforma automaticamente a produção em animação totalmente digital.
Wildwood estreou nos Estados Unidos em 23 de outubro. Na Alemanha, o lançamento está previsto para 5 de novembro. As informações oficiais consultadas não permitem confirmar uma data de estreia comercial no Brasil.
LAIKA anuncia novo software para futuras produções
Enquanto Wildwood chega aos cinemas, a LAIKA já prepara outra etapa de sua estrutura tecnológica. Nesta segunda-feira (26), o estúdio anunciou uma parceria com a empresa Additive Appearance para incorporar o software PrismSlicer.
A nova ferramenta pretende permitir que os artistas visualizem a aparência provável das peças antes de enviá-las à impressora. Entre os recursos estão simulações de cores, translucidez e características superficiais.
Na prática, o programa poderá ajudar a identificar diferenças entre o modelo digital e o resultado físico. Dessa forma, a equipe pretende reduzir a necessidade de imprimir sucessivas versões apenas para avaliar detalhes visuais.
Robert Ducey, supervisor técnico da LAIKA, destacou o potencial de utilizar essas visualizações nas condições de iluminação do próprio estúdio. Entretanto, a empresa ainda não apresentou resultados quantitativos que comprovem uma redução específica no tempo ou no consumo de materiais.
A parceria também envolve pesquisas realizadas com a Universidade Carolina, em Praga, e trabalhos de medição das propriedades ópticas de materiais utilizados na impressão PolyJet.
O PrismSlicer foi escolhido para futuras produções. Portanto, não deve ser confundido com o Cuttlefish, software efetivamente utilizado na fabricação dos rostos de Wildwood.
O que essa tecnologia representa para a impressão 3D?
A experiência da LAIKA demonstra uma aplicação da fabricação aditiva que vai além da produção de miniaturas, protótipos e peças industriais convencionais.
No cinema, a tecnologia permite criar componentes personalizados em grandes quantidades, mantendo características visuais que seriam difíceis de reproduzir manualmente com a mesma consistência.
Entretanto, a fabricação dos rostos também exige equipamentos especializados, domínio de modelagem tridimensional e controle de materiais. Portanto, os resultados do estúdio não representam automaticamente uma capacidade disponível em qualquer impressora 3D doméstica.
O Fraunhofer IGD considera que os avanços obtidos em projetos desse tipo podem contribuir para outras aplicações, incluindo tecnologias médicas e manufatura industrial. Afinal, reproduzir cores e geometrias com precisão também interessa a setores que dependem de componentes personalizados.
Com mais de 142 mil expressões faciais impressas em 3D, Wildwood demonstra como a tecnologia pode ampliar as possibilidades de uma técnica centenária de animação. Ao mesmo tempo, reforça uma particularidade do stop-motion: por trás de cada expressão digitalmente planejada, ainda existe uma peça física que alguém precisa posicionar diante da câmera.








