Eleições 2026Estado do Rio de Janeiro

Rio lidera abstenção de eleitores acima de 70 anos

Eleitora em cadeira de rodas recebe atendimento de mesário em seção eleitoral, acompanhada por duas mulheres.

Rio lidera abstenção de eleitores acima de 70 anos | Rovena Rosa/Agência Brasil

A abstenção de eleitores acima de 70 anos chegou a 58% no Estado do Rio de Janeiro no primeiro turno das Eleições 2026, realizado em 4 de outubro. O percentual foi o maior entre todas as unidades da Federação, segundo levantamento do Movimento Voto 70+ e do centro de pesquisa Data8, baseado em microdados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na cidade do Rio de Janeiro, a ausência foi ainda maior: 62,3%, também o maior índice entre as capitais brasileiras. Os resultados contrastam com a tendência nacional, que registrou crescimento de 43% no número de eleitores dessa faixa etária que compareceram às urnas, em comparação com 2022.

Apesar da liderança negativa, o Rio apresentou melhora em relação às eleições anteriores. A abstenção estadual caiu de 66,6% em 2022 para 58% em 2026, uma redução de 8,6 pontos percentuais. Entretanto, o percentual permanece 8,9 pontos acima da média nacional de 49,1%.

Rio tem maior abstenção de eleitores idosos do Brasil

O levantamento revela uma diferença expressiva entre o comportamento dos eleitores fluminenses e o registrado no restante do país.

Enquanto aproximadamente cinco em cada dez brasileiros com 70 anos ou mais votaram no primeiro turno, no Estado do Rio a proporção foi de pouco mais de quatro em cada dez.

Na capital fluminense, o comparecimento ficou em apenas 37,7%. Isso significa que, entre os eleitores cadastrados nessa faixa etária, quase dois terços deixaram de participar da votação.

Além disso, o índice da capital supera a média estadual em 4,3 pontos percentuais. A diferença mostra que a participação eleitoral dos idosos não apresenta comportamento uniforme dentro do próprio Rio de Janeiro.

Entretanto, os resultados estaduais divulgados pelo levantamento não apresentam, nesse recorte, taxas específicas para Niterói, São Gonçalo, Maricá e Itaboraí. Portanto, não é possível estabelecer a posição desses municípios apenas com os percentuais disponíveis.

Abstenção no Rio caiu 8,6 pontos percentuais desde 2022

Embora o Rio continue liderando a ausência entre os eleitores mais velhos, a comparação histórica revela uma mudança importante.

Em 2022, 66,6% dos eleitores fluminenses com 70 anos ou mais não votaram. Quatro anos depois, a abstenção caiu para 58%.

Na prática, a participação passou de 33,4% para 42% do eleitorado dessa faixa etária, um aumento de 8,6 pontos percentuais.

O resultado indica uma recuperação do comparecimento, embora insuficiente para retirar o estado da liderança nacional em abstenção.

Para efeito de comparação, o Sudeste registrou queda de 62,9% para 53% na ausência desse eleitorado entre 2022 e 2026.

Assim, mesmo dentro da região, o Rio apresenta abstenção cinco pontos percentuais superior à média.

Brasil teve 2,64 milhões de votantes idosos a mais

O comportamento nacional foi diferente. Segundo a análise do Movimento Voto 70+ e do Data8, 8,77 milhões de eleitores com 70 anos ou mais votaram em 2026, contra 6,13 milhões nas eleições gerais de 2022.

O aumento corresponde a 2,64 milhões de participantes adicionais, crescimento aproximado de 43% em números absolutos.

Entretanto, essa variação não deve ser confundida com aumento de 43 pontos percentuais na taxa de comparecimento.

Isso porque o próprio eleitorado brasileiro envelheceu. A quantidade de pessoas com 70 anos ou mais aptas a votar passou de 14,89 milhões para 17,25 milhões, crescimento aproximado de 15,9%.

Portanto, o avanço de 43% no número de votantes resulta de dois movimentos simultâneos: o aumento da população eleitoral nessa faixa etária e a maior proporção de eleitores que decidiram comparecer.

A taxa nacional de abstenção dos idosos caiu de 58,8% para 49,1%, redução de 9,7 pontos percentuais.

Com isso, pela primeira vez desde 2014, mais da metade dos eleitores brasileiros com 70 anos ou mais participou de uma eleição geral, segundo os pesquisadores.

Idosos compensaram queda de comparecimento dos mais jovens

Outro resultado chama atenção: o crescimento da participação eleitoral nacional ocorreu apesar da diminuição do comparecimento entre pessoas com menos de 70 anos.

Em 2022, aproximadamente 117,59 milhões de eleitores abaixo dessa idade participaram da votação. Em 2026, foram 116,51 milhões, uma redução próxima de 1,07 milhão de pessoas.

Entre os mais velhos, entretanto, o comparecimento aumentou 2,64 milhões.

Assim, o acréscimo de eleitores idosos mais do que compensou a redução registrada nas demais faixas etárias.

No conjunto do país, 125,2 milhões de eleitores compareceram ao primeiro turno de 2026, ante aproximadamente 123,7 milhões em 2022.

A análise demonstra que a participação dos eleitores com mais de 70 anos ganhou peso no comparecimento nacional. Isso, porém, não permite identificar preferências partidárias ou concluir como esse grupo votou.

Participação diminui conforme aumenta a idade

Os dados do TSE também mostram diferenças importantes dentro do próprio eleitorado idoso.

Embora a participação nacional tenha aumentado, o comparecimento apresenta queda progressiva nas faixas etárias mais avançadas.

No primeiro turno de 2026, os percentuais nacionais foram:

  • 70 a 74 anos: 68,77% compareceram;
  • 75 a 79 anos: 52,23% compareceram;
  • 80 a 84 anos: 37,12% compareceram;
  • 85 a 89 anos: 24,30% compareceram;
  • 90 a 94 anos: 13,46% compareceram;
  • 95 a 99 anos: 4,34% compareceram.

Esses percentuais representam o comparecimento em todo o Brasil, e não exclusivamente no Estado do Rio de Janeiro.

Entre os eleitores de 70 a 74 anos, aproximadamente sete em cada dez votaram. Já entre os brasileiros com 90 a 94 anos, a proporção caiu para pouco mais de um em cada dez.

Entretanto, a diferença entre faixas etárias não identifica, isoladamente, os motivos das ausências. A situação exige considerar condições de mobilidade, acesso aos locais de votação e características do cadastro eleitoral.

Dificuldade de locomoção pode afastar idosos das urnas

Além da análise estatística, o Movimento Voto 70+ realizou uma pesquisa exploratória sobre as razões que podem dificultar a participação eleitoral das pessoas idosas.

O estudo, denominado Retratos do Voto 70+, identificou três perfis de eleitores propensos à ausência ou ainda indecisos sobre o comparecimento.

O primeiro reúne pessoas que acreditam que seu voto não produz diferença nos resultados. O segundo envolve eleitores que consideram que as decisões políticas já não terão impacto relevante sobre suas vidas.

Já o terceiro grupo é formado por pessoas que desejam votar, mas encontram barreiras práticas, como dificuldades de deslocamento, filas ou dependência de familiares e terceiros.

A pesquisadora Adriana de Queiroz, do Data8, destacou à Agência Brasil que compreender essas diferenças ajuda a explicar por que um eleitorado em crescimento ainda apresenta índices elevados de abstenção.

Entretanto, os perfis identificados pela pesquisa não comprovam que essas sejam as causas específicas da abstenção registrada no Rio de Janeiro. Para essa conclusão, seria necessária uma investigação direcionada ao eleitorado fluminense.

Voto é facultativo a partir dos 70 anos

A Constituição Federal estabelece que o voto é facultativo para os brasileiros com mais de 70 anos. Dessa forma, essas pessoas podem participar das eleições, mas não estão sujeitas à obrigação de comparecimento.

Segundo o TSE, quem possui voto facultativo não precisa justificar a ausência nem pagar multa por deixar de votar.

Além disso, a falta em três eleições consecutivas não provoca o cancelamento do título por ausência quando o eleitor já está sujeito ao regime de voto facultativo.

O eleitor pode escolher participar do primeiro turno, do segundo turno ou de ambos, desde que sua inscrição eleitoral esteja regular.

Portanto, a abstenção nessa faixa etária não deve ser confundida automaticamente com irregularidade eleitoral. Ela expressa o não comparecimento de pessoas para as quais o voto é um direito de exercício opcional.

Idosos têm prioridade na votação de domingo

Para o segundo turno, marcado para domingo, 25 de outubro, a Justiça Eleitoral assegura atendimento prioritário às pessoas com 60 anos ou mais.

Além disso, eleitores com mais de 80 anos têm preferência sobre os demais, independentemente do momento de chegada à seção eleitoral.

O Tribunal também estabelece medidas específicas para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, incluindo recursos de acessibilidade nas urnas eletrônicas.

Quando houver necessidade comprovada de assistência, o eleitor poderá contar com uma pessoa de sua confiança durante a votação. A entrada do acompanhante na cabine dependerá da autorização da presidência da mesa receptora.

O TSE também instituiu o programa Seu Voto Importa, destinado a oferecer transporte especial gratuito para grupos elegíveis, incluindo idosos com dificuldades de locomoção e sem meios próprios de deslocamento. O prazo de solicitação para as eleições de 2026 terminou em 14 de setembro.

As orientações completas estão disponíveis no Manual do Eleitor Idoso, publicado pelo TSE.

O que os números significam para o segundo turno?

A votação de domingo ocorre em um cenário de participação crescente dos eleitores mais velhos, mas com desigualdades importantes entre estados e faixas etárias.

No Rio de Janeiro, a abstenção de 58% evidencia que a recuperação registrada desde 2022 ainda não acompanha integralmente a tendência nacional.

O Folha do Leste também identificou mais de 315 mil ausências no primeiro turno em Niterói, São Gonçalo, Maricá e Itaboraí, considerando eleitores de todas as idades. Esses números não devem ser confundidos com os percentuais específicos do público acima de 70 anos.

Como o segundo turno ainda não aconteceu, não é possível prever se a mobilização dos eleitores idosos crescerá novamente.

Entretanto, o levantamento demonstra um contraste importante: o voto facultativo não impediu o avanço da participação nacional, enquanto o Rio de Janeiro continua registrando a maior ausência proporcional desse eleitorado no país.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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