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Fair play trava Inter e contratações passam a depender de autorização

Internacional enfrenta restrições para contratar por regras do fair play financeiro

Fair play trava Inter e contratações passam a depender de autorização | Divulgação/Internacional

O Internacional entrou na prática na nova era do fair play financeiro brasileiro. Depois de apresentar um plano para reorganizar inicialmente R$ 31 milhões em dívidas esportivas, o clube recebeu um bloqueio preventivo da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf) e passou a ter novas contratações submetidas ao controle da entidade.

A medida adiciona uma nova camada à crise financeira colorada. O Inter já convive com duas punições da Fifa que impedem registros de jogadores e agora também precisa cumprir regras nacionais para recuperar liberdade no mercado.

Apesar do nome frequentemente associado a um transfer ban, a trava da Anresf funciona de maneira diferente. O clube não fica necessariamente proibido de contratar em definitivo, mas precisa receber autorização prévia para registrar novos atletas enquanto estiver submetido ao processo de reestruturação.

Por que o Internacional sofreu a nova trava

O ponto de partida está no pedido feito pelo Inter à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD).

No início de setembro, o clube solicitou adesão a um Plano de Parcelamento Coletivo. A intenção é reorganizar compromissos esportivos e adequar os pagamentos à capacidade financeira atual da instituição.

Segundo o próprio Internacional, o programa envolve inicialmente R$ 31 milhões. O valor ainda pode aumentar se outros credores aderirem ao processo.

O problema esportivo surge porque, dentro das novas regras de sustentabilidade financeira da CBF, a entrada nesse tipo de mecanismo caracteriza uma situação que aciona medidas preventivas de controle.

Assim, a Anresf passa a acompanhar mais de perto as movimentações financeiras do clube.

Inter não pode simplesmente voltar ao mercado

Na prática, o Internacional perde autonomia para aumentar seus gastos com futebol enquanto tenta reorganizar o passivo.

Novos registros passam a depender de análise da agência. O objetivo é impedir que um clube procure aliviar dívidas acumuladas e, simultaneamente, assuma novos compromissos incompatíveis com sua situação financeira.

Para recuperar maior liberdade, o Inter precisará avançar na aprovação do plano junto à CNRD e negociar um Acordo de Reestruturação com a Anresf.

Esse acordo deverá estabelecer limites e metas para as próximas temporadas.

Fair play pode limitar compras e folha salarial

O novo sistema não observa apenas se o clube possui dinheiro para pagar determinada contratação.

Durante o processo de reestruturação, a lógica exige que os gastos esportivos sejam compatíveis com a capacidade financeira da instituição. Entre os parâmetros utilizados estão a relação entre vendas e compras de jogadores e a evolução da folha salarial.

Isso significa que uma eventual tentativa de reforçar o elenco poderá exigir compensações financeiras.

Em termos práticos, vender jogadores, reduzir despesas ou reorganizar contratos pode se tornar condição para liberar novos movimentos no mercado.

Inter já carrega duas punições da Fifa

O bloqueio nacional não representa o único problema do Internacional para registrar atletas.

O clube já possui duas sanções impostas pela Fifa relacionadas a dívidas de transferências anteriores. Essas punições funcionam independentemente da medida aplicada pela Anresf.

Portanto, resolver apenas o acordo nacional não basta para devolver automaticamente ao Inter liberdade completa no mercado internacional.

O clube precisa tratar separadamente cada obrigação responsável pelas restrições.

Salários em dia não eliminam problema estrutural

Ao mesmo tempo, o Internacional conseguiu manter em dia os vencimentos atuais do elenco.

A diretoria já havia informado ao Conselho Deliberativo que salários e direitos de imagem estavam regularizados, movimento viabilizado com ajuda financeira extraordinária durante o processo de reorganização.

Isso demonstra a diferença entre duas situações financeiras.

Uma coisa é manter compromissos correntes com jogadores do elenco. Outra é resolver o passivo acumulado com clubes, atletas e demais credores esportivos.

É justamente essa segunda frente que levou o Inter a procurar o plano coletivo.

R$ 31 milhões são apenas o começo da reestruturação

O próprio clube admite que os R$ 31 milhões representam o valor inicial abrangido pelo mecanismo.

Novos credores ainda podem aderir, ampliando o montante que precisará entrar no acordo.

Por isso, a questão não se resume a derrubar uma punição para voltar a contratar. O Internacional precisa construir um modelo financeiro capaz de demonstrar que conseguirá cumprir as parcelas e, ao mesmo tempo, manter o funcionamento do futebol.

Somente depois da aprovação dos mecanismos de reestruturação o clube poderá iniciar o cumprimento formal do novo cronograma.

O que muda com o fair play financeiro

O caso colorado ajuda a mostrar uma mudança importante no futebol brasileiro.

Durante anos, clubes endividados conseguiram continuar aumentando despesas esportivas enquanto renegociavam ou acumulavam compromissos anteriores. O novo sistema tenta interromper essa lógica.

A partir do momento em que uma instituição entra em determinados processos de reestruturação, suas decisões esportivas passam a conversar diretamente com sua capacidade financeira.

Isso não significa impedir automaticamente qualquer contratação. Significa exigir que novos gastos façam sentido dentro do plano apresentado.

Crise financeira chega ao planejamento esportivo

Para o Internacional, essa consequência ganha peso adicional porque o clube atravessa também um momento delicado dentro de campo.

O Colorado luta contra o rebaixamento no Brasileirão e, portanto, poderia encontrar no mercado uma ferramenta importante para reconstruir o elenco na temporada seguinte.

A crise, porém, reduz essa liberdade.

Antes de pensar em reforços, a direção precisa solucionar as punições internacionais, avançar na negociação com a CNRD e estabelecer o acordo financeiro exigido pela Anresf.

O novo fair play transforma, assim, uma dívida que antes parecia assunto restrito aos balanços em uma questão diretamente ligada à escalação futura do Internacional.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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