EsportesFutebol

Botafogo pede mais 180 dias de blindagem contra dívidas

Botafogo pede prorrogação da proteção contra dívidas na recuperação judicial da SAF

Botafogo pede mais 180 dias de blindagem contra dívidas | Vitor Silva/Botafogo

A SAF do Botafogo pediu à Justiça mais 180 dias de proteção contra cobranças enquanto tenta avançar em sua recuperação judicial. O chamado stay period, que suspende execuções e restringe medidas de credores contra a empresa, termina em 18 de outubro. Se a prorrogação for aceita, a blindagem poderá seguir até 16 de abril de 2027.

O pedido adiciona um novo capítulo à crise financeira alvinegra. A lista mais recente dos administradores judiciais aponta cerca de R$ 1,163 bilhão em dívidas submetidas à recuperação judicial, enquanto o passivo total da SAF supera R$ 2,5 bilhões.

A proteção, porém, não representa perdão das dívidas. Ela funciona como uma janela para que a empresa tente reorganizar o passivo e negociar com os credores sem sofrer uma corrida simultânea por bloqueios, penhoras e apreensões.

O que o Botafogo está pedindo à Justiça

Quando a recuperação judicial começou, em abril, a 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro concedeu à SAF um período inicial de 180 dias de proteção.

Durante esse intervalo, execuções contra a companhia ficam suspensas. Credores também encontram restrições para promover bloqueios, penhoras ou apreensões de bens submetidos ao processo.

Agora, com o prazo perto do fim, o Botafogo quer utilizar a possibilidade legal de prorrogação por outros 180 dias.

A extensão não acontece automaticamente. A legislação admite a ampliação desde que a empresa em recuperação não tenha causado de forma injustificada o atraso do processo.

Blindagem também protege contratos durante a recuperação

O efeito do stay period ultrapassa as cobranças bancárias ou comerciais.

Durante a vigência da proteção, credores submetidos ao regime da recuperação ficam impedidos de adotar determinadas medidas individuais para satisfazer seus créditos fora do processo coletivo.

No caso do futebol, isso também ajuda a preservar a operação cotidiana da SAF. Atletas e fornecedores abrangidos pelo regime não podem simplesmente romper relações contratuais com base exclusivamente nos créditos submetidos à recuperação durante o período protegido.

Assim, a blindagem dá ao Botafogo tempo para tentar manter o funcionamento da empresa enquanto negocia a reestruturação.

Dívida submetida à recuperação caiu para cerca de R$ 1,163 bilhão

O tamanho do passivo também passou por atualização recente.

A relação inicialmente apresentada apontava aproximadamente R$ 1,286 bilhão em créditos submetidos à recuperação judicial.

Entretanto, a retirada da GDA Luma da lista de credores reduziu o montante calculado pelos administradores judiciais para cerca de R$ 1,163 bilhão.

A empresa havia aparecido anteriormente entre os maiores credores da SAF, mas posteriormente deixou a relação.

O valor submetido à recuperação, entretanto, representa apenas parte da situação financeira. O passivo total da SAF ultrapassa R$ 2,5 bilhões, incluindo obrigações que não necessariamente entram no mesmo procedimento judicial.

Plano ainda precisa passar pelos credores

A prorrogação do prazo ganha importância porque o Plano de Recuperação Judicial ainda não foi aprovado pelos credores.

A SAF apresentou uma proposta para reorganizar os pagamentos, mas ainda não existe data definida para a assembleia responsável por analisar o plano.

O documento estabelece condições diferentes conforme a classe de credores. Em alguns casos, prevê pagamento integral; em outros, propõe descontos elevados e prazos que podem chegar a 20 anos.

O plano também cita receitas futuras, incluindo recursos provenientes da operação do futebol e da eventual venda de jogadores.

Credores terão papel decisivo no futuro da SAF

A recuperação judicial depende da aprovação dos credores dentro das regras estabelecidas pela legislação.

Se o plano receber apoio suficiente, a dívida passa a ser paga de acordo com as novas condições aprovadas e posteriormente homologadas pela Justiça.

Uma rejeição, porém, pode levar o processo a um cenário muito mais grave, incluindo a possibilidade de falência da SAF, dependendo das decisões judiciais e das alternativas existentes dentro do procedimento.

Por isso, a extensão do stay period tem valor estratégico: ela permite que a empresa tente chegar à etapa decisiva das negociações ainda protegida contra execuções individuais.

Recuperação judicial e transfer bans são problemas diferentes

A blindagem da recuperação judicial também não deve ser confundida com as punições esportivas impostas pela Fifa.

O Botafogo acumulou durante o ano diferentes transfer bans relacionados a dívidas por contratações de jogadores.

Essas sanções impedem o registro de novos atletas e seguem procedimentos próprios dentro da entidade internacional.

A Justiça brasileira chegou a reconhecer que determinadas dívidas deveriam ser tratadas no processo de recuperação e determinou a comunicação dessa situação à Fifa. Posteriormente, algumas das punições começaram a passar por reavaliação.

Portanto, a prorrogação da blindagem judicial não significa automaticamente a retirada de transfer bans.

Botafogo tenta ganhar tempo para reorganizar dívida bilionária

O pedido apresentado agora revela o principal desafio financeiro da SAF: transformar a proteção temporária oferecida pela recuperação judicial em um acordo efetivamente aprovado pelos credores.

Os primeiros 180 dias se aproximam do fim sem que o plano tenha chegado à votação.

Se a Justiça conceder a prorrogação, o Botafogo terá mais seis meses para avançar nas negociações sob proteção.

A blindagem, porém, apenas impede que a crise se fragmente em dezenas de cobranças individuais. A dívida permanece — e a solução definitiva ainda dependerá da capacidade da SAF de convencer seus credores de que o plano apresentado é viável.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

Leave a reply