
Um ano do Recomeço: Niterói soma 120 mil serviços, 45 empregos e novas moradias | Divulgação/Lucas Benevides/Prefeitura de Niterói
Um ano depois de lançar o Programa Recomeço, Niterói apresenta os primeiros números capazes de medir parte da resposta à situação de rua: 120.677 serviços ou atendimentos registrados, mais de 500 vagas de acolhimento, 45 pessoas inseridas no mercado de trabalho e as primeiras saídas de abrigos para moradia.
Mas os dados exigem leitura cuidadosa. Os 120.677 atendimentos não significam 120 mil pessoas diferentes. O número soma serviços prestados pelo Centro Integrado, como banho, lavagem de roupas, atendimento médico, orientação jurídica, emissão de documentos, oficinas, EJA, encaminhamentos e atendimento a animais de estimação.
120 mil atendimentos não significam 120 mil pessoas
O Centro Integrado de Atendimento à Pessoa em Situação de Rua registrou 120.677 atendimentos em um ano. O próprio balanço municipal esclarece que o número representa serviços prestados, não pessoas únicas.
Isso significa que uma mesma pessoa pode entrar várias vezes na contagem. Ela pode tomar banho, lavar roupas, receber atendimento médico, pedir documento, participar de oficina e ser encaminhada para outro serviço.
Ainda assim, o volume ajuda a dimensionar a procura pela estrutura. O Centro Integrado passou a concentrar serviços de assistência social, saúde, educação, documentação, orientação jurídica, geração de renda e cuidados básicos.
Entre os resultados mais concretos, aparecem 3.227 certidões de nascimento e 2.455 registros relacionados a documentos de identidade. Documentação é uma porta de entrada para outros direitos, porque permite acesso a benefícios, emprego formal, atendimento público e regularização de vínculos.
Emprego e moradia medem a porta de saída
O balanço informa que 45 pessoas em situação de rua foram inseridas no mercado de trabalho no primeiro ano do Recomeço.
Esse dado tem peso diferente de um atendimento comum. Trabalho e renda podem funcionar como porta de saída, desde que haja acompanhamento e permanência. O balanço, porém, não detalha se os vínculos são formais, quais setores contrataram, nem quantas dessas pessoas seguem empregadas.
A moradia é outro eixo estrutural. O município prevê implantar gradualmente 100 moradias pelo modelo Housing First, conhecido no Brasil como Moradia Primeiro.
Nesse modelo, a casa não aparece como prêmio final depois que todos os outros problemas são resolvidos. A moradia entra como ponto de partida, acompanhada de suporte social, para que a pessoa reorganize a vida com mais estabilidade.
Aline deixou o abrigo e hoje vive com a filha
A história de Aline Rocha Silva, de 40 anos, mostra uma das trajetórias possíveis dentro da rede. Ela chegou ao abrigo municipal depois de perder a mãe e não conseguir manter a casa onde vivia com a filha.
Primeiro veio o acolhimento. Depois, a inscrição habitacional. Na sequência, Aline conseguiu emprego como cuidadora de animais, em escala de 12 por 36 horas, o que permitiu conciliar trabalho e cuidados com a filha.
Hoje, as duas vivem em um imóvel próprio. A experiência de Aline reúne várias etapas que o programa pretende articular: abrigo, moradia, trabalho e reorganização da vida cotidiana.
“Eu tenho isso aqui como uma vitória. Não saio daqui por nada. É a minha casa. Minha filha tem o quarto dela, eu tenho o meu. A gente manda na nossa casa, faz as nossas escolhas. Não tem preço que pague isso”, contou.
Aline também reconhece a dificuldade de sair do abrigo e voltar a administrar a própria vida. Ela cita organização financeira e responsabilidade para manter a autonomia.
A trajetória dela não prova, sozinha, a eficácia do modelo para todos. Mas ajuda a mostrar o que diferencia uma política de atendimento de uma política de saída: a combinação entre moradia, renda e acompanhamento.
Jardim das Paineiras virou primeira porta habitacional
As primeiras unidades vinculadas à estratégia habitacional do Recomeço foram viabilizadas no Jardim das Paineiras, empreendimento do Minha Casa, Minha Vida, no Badu.
O balanço atual informa que cerca de 30 pessoas em situação de vulnerabilidade deixaram abrigos municipais para viver em moradias próprias.
Aqui há um cuidado importante. Fontes oficiais anteriores já trataram o Jardim das Paineiras também por outra unidade de contagem, mencionando famílias beneficiadas. Portanto, pessoa e família não devem ser usadas como sinônimos.
A informação segura do novo balanço é que cerca de 30 pessoas deixaram abrigos para viver em moradia própria. A etapa seguinte da apuração é saber quantas permanecem nessas unidades, qual acompanhamento recebem e como isso se conecta formalmente ao modelo Housing First.
Rede passa de abrigos a hotéis e moradias
Niterói informa que oferece atualmente mais de 500 vagas de acolhimento, entre abrigos e hotéis.
Desse total, 148 vagas ficam em hotéis de acolhimento. Esse modelo existe no município desde 2020 e passa por renovação por meio de licitação em andamento.
As vagas em hotéis não devem ser vistas apenas como hospedagem paga. Segundo o balanço, o serviço conta com acompanhamento de assistentes sociais, psicólogos e educadores do Recomeço.
Ainda assim, acolhimento é etapa intermediária. Ele protege, organiza o atendimento e cria vínculo com a rede, mas não equivale, por si só, à saída definitiva da situação de rua.
Zeladoria social fez 830 ações
Entre agosto de 2025 e agosto de 2026, a Prefeitura registrou 830 ações de zeladoria social e 485 encaminhamentos para acolhimento institucional.
“Zeladoria social” não deve ser confundida com limpeza urbana nem com remoção compulsória. No contexto informado, as ações envolvem abordagem, escuta, orientação, oferta de acolhimento e encaminhamento para assistência social e saúde.
Também aqui a contagem exige cuidado. O dado fala em 485 encaminhamentos, não necessariamente em 485 pessoas diferentes acolhidas. Uma pessoa pode aparecer mais de uma vez, caso procure ou seja abordada em momentos distintos.
Para medir a eficácia de longo prazo, ainda falta saber quantas ofertas de acolhimento foram feitas, quantas foram aceitas e quantas resultaram em permanência na rede.
740 retornos começam antes do Recomeço
O balanço informa 740 recambiamentos entre janeiro de 2025 e agosto de 2026. Esse número merece destaque, mas não pode ser atribuído exclusivamente ao primeiro ano do Recomeço.
O programa foi lançado em agosto de 2025. Portanto, a contagem dos 740 recambiamentos começa cerca de sete meses antes do lançamento formal.
A Prefeitura já havia informado, em abril de 2026, que havia realizado 300 recambiamentos entre outubro de 2025 e março de 2026. Naquele comunicado, o município registrou que o procedimento é voluntário.
No balanço atual, o recambiamento é descrito como retorno à cidade de origem ou a outro território de referência, com busca ou contato com familiares, articulação com a rede socioassistencial do município de destino e custeio do transporte pela Prefeitura.
Recambiamento precisa ser voluntário
A palavra “recambiamento” pode soar burocrática e gerar dúvida no leitor. Na prática, quando legítimo, o procedimento precisa respeitar a vontade da pessoa atendida.
Essa regra é essencial porque o Supremo Tribunal Federal, na ADPF 976, proibiu remoção compulsória, transporte compulsório de pessoas em situação de rua e recolhimento forçado de bens e pertences.
Por isso, retorno a outro município só pode ser apresentado como política pública adequada quando há adesão voluntária, acompanhamento e articulação com a rede de destino.
O secretário municipal de Assistência Social e Economia Solidária, Elton Teixeira, afirma que o procedimento não consiste em colocar a pessoa em um ônibus e mandá-la embora. Segundo ele, há acompanhamento prévio e contato com a rede de proteção social no destino.
Dado dos 80% precisa de base pública
Elton Teixeira também afirma que cerca de 80% das pessoas em situação de rua atendidas em Niterói vieram de outras cidades.
O dado é relevante, mas precisa de metodologia pública para ser tratado como estatística consolidada. O balanço não detalha, neste material, se a conta considera cidade de nascimento, município de moradia anterior, chegada recente ou local de vínculo familiar.
Por isso, a forma mais segura é atribuir a informação ao secretário. A apuração também precisa esclarecer o período, a base de dados e o universo considerado.
Essa diferença importa porque “veio de outra cidade” pode significar situações muito distintas.
CadÚnico ajuda, mas não resolve a contagem
Um dos desafios para avaliar o Recomeço é medir o tamanho atual da população em situação de rua em Niterói.
Dados do CadÚnico indicaram 1.015 pessoas em situação de rua registradas em Niterói em maio de 2026. Mas cadastro administrativo não equivale, automaticamente, à contagem de pessoas dormindo nas ruas em uma noite específica.
O próprio debate nacional sobre o tema reconhece essa dificuldade. O IBGE prepara um Censo Nacional da População em Situação de Rua, justamente porque os registros administrativos ajudam, mas não substituem uma contagem com metodologia própria.
Assim, não é possível afirmar, com os dados disponíveis no balanço, que a população em situação de rua diminuiu em Niterói no primeiro ano do Recomeço.
O que o Folha do Leste cobrou em 2025
Entre eles estavam pessoas documentadas, vagas de trabalho efetivas, permanência em moradia, encaminhamentos de saúde e redução da reincidência na situação de rua.
Um ano depois, parte desses indicadores aparece. Há dados de documentação, serviços prestados, acolhimento, inserção no mercado de trabalho e moradia.
Mas ainda faltam respostas importantes: quantas pessoas diferentes usaram o Centro Integrado, quantas mantiveram emprego, quantas permaneceram em moradia, quantas retornaram à situação de rua e quantos recambiamentos ocorreram especificamente no primeiro ano do programa.
Um ano permite medir começo, não resultado final
O primeiro ano do Recomeço mostra uma rede mais estruturada de atendimento e alguns caminhos de saída, sobretudo documentação, trabalho e moradia.
No entanto, volume de serviço não é o mesmo que resultado social definitivo. Atender 120 mil vezes não significa retirar 120 mil pessoas das ruas. Encaminhar não significa acolher de forma permanente. Conseguir moradia não encerra o acompanhamento.
A próxima etapa da avaliação depende de indicadores de permanência. É aí que o Recomeço será realmente testado: não apenas pelo número de atendimentos, mas pela capacidade de manter pessoas fora da situação de rua com moradia, renda, vínculos e proteção social.
Box — Um ano do Recomeço em números
120.677 — serviços ou atendimentos registrados pelo Centro Integrado; não são 120 mil pessoas diferentes
Mais de 500 — vagas de acolhimento informadas pela Prefeitura
148 — vagas em hotéis de acolhimento
830 — ações de zeladoria social entre agosto de 2025 e agosto de 2026
485 — encaminhamentos para acolhimento institucional
3.227 — certidões de nascimento emitidas
2.455 — registros relacionados a documentos de identidade
45 — pessoas inseridas no mercado de trabalho no primeiro ano do programa
100 — moradias previstas na implantação gradual do modelo Housing First
Cerca de 30 — pessoas que deixaram abrigos para viver em moradia própria no Jardim das Paineiras, segundo o balanço atual
740 — recambiamentos contabilizados de janeiro de 2025 a agosto de 2026; o período começa antes do lançamento formal do Recomeço










