
Projeto vai avaliar segurança das vias de Niterói antes de novos sinistros graves | Divulgação/Bruno Eduardo Alves/Prefeitura de Niterói
Niterói vai receber apoio técnico do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para aperfeiçoar um projeto que pretende identificar riscos nas ruas antes que eles resultem em mortes ou ferimentos graves. A proposta combina dados sobre sinistros com uma avaliação da segurança oferecida pela própria infraestrutura viária.
A cidade está entre os três municípios que avançaram para a etapa de mentoria do Desafio Visão Zero do BID. Segundo a Prefeitura, Niterói é a única representante da Região Sudeste nessa fase. O apoio confirmado é técnico: a seleção não representa financiamento de obras nem implantação imediata de intervenções.
O projeto apresentado pela Niterói Trânsito S.A. (NitTrans) busca mudar parte da lógica tradicional de prevenção. Em vez de olhar somente para locais onde os sinistros já se repetiram, a proposta pretende avaliar também se o desenho de uma rua contém fatores capazes de produzir ocorrências graves no futuro.
Assim, uma via poderá entrar no radar não apenas pelo histórico de colisões e atropelamentos, mas também pelas condições oferecidas a pedestres, ciclistas, motociclistas e ocupantes de veículos.
A principal informação que ainda falta é justamente a mais concreta para quem circula pela cidade: a NitTrans não informou no material divulgado quais ruas, avenidas ou corredores serão priorizados.
Como Niterói pretende identificar vias perigosas
A proposta combina os princípios da Visão Zero com a metodologia do International Road Assessment Programme (iRAP), programa internacional de avaliação de infraestrutura viária.
A Visão Zero parte do entendimento de que mortes e lesões graves não devem ser tratadas como consequências inevitáveis do deslocamento urbano. Por isso, a abordagem de Sistemas Seguros distribui a responsabilidade pela prevenção entre diferentes componentes, como vias, velocidades, veículos, fiscalização, planejamento e comportamento dos usuários. O próprio Desafio do BID coloca a proteção da vida e dos usuários vulneráveis no centro das decisões sobre mobilidade.
Na prática, a lógica pretendida pode ser resumida em quatro passos: avaliar a infraestrutura, localizar fatores de risco, planejar intervenções e tentar impedir que uma falha do sistema termine em morte ou lesão grave.
Esse modelo complementa, e não necessariamente substitui, a análise de dados de sinistros já ocorridos.
O projeto inicial apresentado por Niterói previa levantamento da infraestrutura, divisão dos trechos por nível de segurança, identificação de fatores de risco e elaboração de possíveis intervenções. Também citava análise de custo-benefício das medidas.
Método avalia risco antes que aconteça um sinistro grave
O iRAP analisa quanto de segurança está incorporado à própria configuração da via. Sua metodologia considera dezenas de atributos da infraestrutura e permite avaliações separadas para pedestres, ciclistas, motociclistas e ocupantes de veículos.
Entre os elementos que podem influenciar o resultado estão características de cruzamentos, travessias, velocidade, condições para caminhada e bicicleta, proteção lateral e exposição dos diferentes usuários.
Isso permite detectar uma configuração perigosa mesmo quando determinado trecho ainda não acumula grande número de ocorrências. A documentação do iRAP informa que as classificações podem ser produzidas sem depender de dados detalhados de sinistros.
A metodologia também utiliza classificações por estrelas para traduzir o nível de segurança incorporado à infraestrutura.
No projeto divulgado por Niterói em 2025, a NitTrans descreveu uma escala de 1 a 5 estrelas, na qual 1 estrela representa condição de maior risco e 5 estrelas indica maior segurança.
A documentação atual do próprio iRAP também admite classificação de 0 estrela em suas ferramentas, como nível de maior risco, até 5 estrelas, de menor risco. Por isso, a configuração exata da escala que será aplicada à análise de Niterói ainda precisa ser detalhada pela equipe do projeto.
Nenhuma rua de Niterói recebeu, até agora, classificação divulgada no âmbito dessa mentoria.
Pedestres, ciclistas e motociclistas estão entre os focos
Um dos eixos do Desafio Visão Zero é ampliar a proteção aos usuários mais vulneráveis.
No caso do iRAP, o mesmo trecho pode apresentar condições diferentes conforme quem o utiliza. Uma infraestrutura aceitável para quem está dentro de um automóvel, por exemplo, não necessariamente oferece o mesmo grau de proteção para um pedestre ou ciclista.
Motociclistas também entram separadamente na avaliação. A metodologia considera esse grupo porque sua exposição e proteção física diferem das dos ocupantes de automóveis.
O Folha do Leste já acompanhou ações municipais voltadas especificamente à segurança de motociclistas e, anteriormente, a elaboração do Plano Municipal de Segurança Viária. Em 2023, a consulta pública do plano buscava reunir diagnósticos para orientar medidas destinadas à redução de acidentes graves e mortes no trânsito.
Esse histórico ajuda a contextualizar a nova etapa, mas não permite afirmar que vias citadas em ocorrências anteriores do portal façam parte do projeto do BID.
O que poderá mudar nas ruas
Se o diagnóstico avançar para execução, os resultados poderão subsidiar decisões de engenharia, sinalização, fiscalização e gestão de velocidade.
Isso pode envolver, conforme o problema encontrado, revisão de travessias, tratamento de cruzamentos, reorganização do espaço viário, mudanças de sinalização ou medidas de proteção a usuários vulneráveis.
A gestão de velocidade também aparece entre as áreas que poderão ser analisadas. Dependendo do diagnóstico, esse campo pode envolver limites compatíveis com o tipo de via, fiscalização, desenho urbano, redutores, travessias ou outras soluções.
Nada disso, porém, foi anunciado como intervenção já aprovada.
A etapa atual serve para aperfeiçoar tecnicamente a proposta e dar suporte a decisões futuras. O próprio iRAP oferece ferramentas que permitem estimar o efeito de alterações no desenho viário sobre o nível de risco e comparar possíveis intervenções.
Portanto, a seleção para a mentoria não significa que haverá redução automática de velocidade, implantação de ciclovias, obras ou alterações imediatas em cruzamentos.
Vias que serão analisadas ainda não foram divulgadas
A principal lacuna do anúncio permanece aberta.
A NitTrans não informou quais vias foram incluídas na proposta, quantos quilômetros serão avaliados nem quais critérios definirão os trechos prioritários.
Também não foram divulgados, no material atual, o cronograma detalhado da mentoria, a data prevista para conclusão do diagnóstico, eventual projeto-piloto ou prazo para executar recomendações.
Ainda não há informação sobre orçamento necessário para futuras intervenções, fonte dos recursos ou eventual participação financeira do BID.
O Desafio confirma mentoria e apoio técnico, não financiamento automático de obras. A página oficial da iniciativa prevê justamente uma etapa de capacitação seguida de mentoria para três municípios.
Também falta saber se as classificações produzidas pelo iRAP serão disponibilizadas publicamente, permitindo ao morador consultar o nível de segurança atribuído a cada trecho.
Mentoria do BID é técnica e não representa verba para obras
O apoio do BID tem como objetivo aprimorar os projetos apresentados pelos municípios. Segundo a divulgação municipal, a assistência especializada ajudará Niterói a desenvolver o uso de dados e avaliações da infraestrutura para orientar decisões futuras.
O presidente da NitTrans, Nelson Godá, resumiu o objetivo ao defender que a cidade passe a “identificar os riscos antes que os sinistros aconteçam”.
Essa é também a diferença mais concreta entre o anúncio e uma simples premiação institucional.
A mentoria terá relevância prática se conseguir transformar o diagnóstico em informação capaz de mostrar quais configurações de vias oferecem maior risco, quem está mais exposto e quais intervenções apresentam maior potencial preventivo.
Depois disso, entretanto, ainda haverá outra etapa: transformar recomendações técnicas em projetos, orçamento e execução.
A seleção, portanto, abre uma oportunidade de planejamento. Ainda não entrega uma intervenção pronta nas ruas.
O próximo passo jornalisticamente decisivo será conhecer os trechos escolhidos. Só então será possível verificar onde a metodologia será aplicada, quais riscos serão identificados e quais mudanças a NitTrans pretende efetivamente levar do diagnóstico para a cidade.







