
Violência sofrida ao longo da vida pode estar associada a maior risco de demência em mulheres | Divulgação
As consequências da violência contra a mulher podem ultrapassar o impacto físico e emocional imediato e acompanhar a saúde por muitos anos. Uma revisão de estudos apresentada na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer de 2026 encontrou uma possível associação entre a exposição à violência física ou sexual e um risco maior de demência na velhice.
Na análise combinada de três estudos, mulheres que haviam sofrido violência física ou sexual apresentaram risco aproximadamente 50% maior de desenvolver demência em comparação àquelas sem esse histórico. A associação foi ainda mais forte nos casos de violência grave durante a infância, nos quais o risco observado chegou a aproximadamente o dobro.
O trabalho foi conduzido pelas neurologistas brasileiras Raquel Molina, da Universidade Federal Fluminense, e Sephora Almeida, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, junto a outras pesquisadoras, e apresentado em julho na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer, em Londres.
Os resultados, entretanto, ainda são preliminares. A revisão foi apresentada em formato de pôster e ainda não foi publicada em revista científica. Os estudos analisados também não permitem afirmar que a violência seja uma causa direta de demência.
Para a geriatra Dra. Márcia Umbelino, os resultados reforçam a importância de compreender a saúde na velhice como resultado de experiências e condições acumuladas ao longo de toda a vida.
“Quando avaliamos uma pessoa idosa, não olhamos apenas para o que está acontecendo naquele momento. O envelhecimento cerebral é influenciado por fatores cardiovasculares, metabólicos, emocionais e sociais que se acumulam durante décadas. Estudos como esse levantam a hipótese de que experiências traumáticas também possam fazer parte dessa trajetória e merecem ser mais investigadas”, explica.
Por que experiências traumáticas poderiam afetar o cérebro?
Os mecanismos ainda estão sendo estudados.
Nos casos de violência física, traumatismos cranianos repetidos e episódios de sufocamento podem provocar lesões cerebrais diretas. Pesquisas anteriores também relacionam experiências traumáticas prolongadas a alterações em estruturas como o hipocampo, região cerebral essencial para a memória e o aprendizado.
Mesmo quando não existe agressão física, a exposição contínua a ameaças, medo, humilhação ou insegurança pode manter o organismo em um estado persistente de estresse.

A psicóloga Flávia Freitas explica como experiências traumáticas podem repercutir na saúde emocional, na memória, no sono e no bem-estar ao longo da vida. | Divulgação
A psicóloga Flávia Freitas explica que o impacto psicológico de experiências traumáticas não necessariamente termina quando a situação de violência acaba.
“Uma experiência traumática pode manter a pessoa durante muito tempo em estado de alerta, especialmente quando a violência é recorrente ou acontece em fases muito precoces da vida. Esse estresse prolongado pode repercutir no sono, na atenção, na memória, no humor e na forma como o organismo responde a situações de ameaça. Isso não significa que uma mulher que sofreu violência desenvolverá demência, mas mostra por que precisamos compreender os efeitos do trauma como uma questão de saúde que pode atravessar diferentes fases da vida”, afirma.
Violência na infância chamou mais atenção dos pesquisadores
As evidências encontradas foram mais consistentes para a violência sofrida durante a infância. Segundo a revisão, mulheres submetidas a abuso físico ou sexual grave quando crianças apresentaram aproximadamente o dobro do risco de demência posteriormente.
A intensidade, a frequência e a duração das experiências de violência podem ser aspectos importantes, embora ainda existam poucos estudos capazes de acompanhar essas pessoas durante décadas. Para Flávia, a infância é um período especialmente sensível porque o desenvolvimento emocional e neurológico ainda está em formação.
“Na infância, a criança está construindo suas referências de segurança, vínculo e confiança. Quando esse ambiente é marcado por violência, medo ou negligência, ela precisa desenvolver estratégias para sobreviver emocionalmente àquela realidade. As repercussões podem aparecer de formas diferentes ao longo da vida. Acertadamente a escritora Lya Luft disse “A infância é o chão que a gente pisa a vida inteira” e de acordo com Freud não é apenas uma fase cronológica que fica para trás, ela é o alicerce do psiquismo. Por isso, acolher e tratar precocemente crianças e mulheres que sofreram violência também é uma forma de cuidado com a saúde futura”, destaca a psicóloga.
Ainda não é possível considerar violência um fator independente para demência
Apesar dos números, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: ainda existem poucos estudos sobre o assunto e parte das pesquisas depende de relatos de mulheres idosas sobre situações de violência vividas décadas antes, o que dificulta estabelecer com precisão frequência, duração e intensidade das agressões.
Um dos estudos analisados, realizado na Austrália com 12.085 mulheres entre 70 e 75 anos, por exemplo, não encontrou associação direta entre violência praticada por parceiros íntimos e demência, embora tenha identificado mortalidade mais precoce entre as vítimas.
Outra pesquisa, publicada em 2025 e realizada com 14.771 mulheres, observou resultados ligeiramente piores em testes de memória e atenção entre aquelas que relataram violência emocional, mas não identificou aceleração do declínio cognitivo durante aproximadamente cinco anos de acompanhamento.
“Hoje nós já conhecemos fatores de risco para demência com evidências muito mais consolidadas, como hipertensão, diabetes, sedentarismo, tabagismo, perda auditiva não tratada, isolamento social e baixa estimulação cognitiva. A violência ainda não pode ser colocada no mesmo patamar, mas os novos estudos mostram que é uma linha de investigação relevante”, ressalta Dra. Márcia.
Saúde cerebral começa muito antes da velhice
Para a geriatra, uma das principais contribuições dessa discussão é mostrar que a prevenção das demências não começa apenas quando aparecem esquecimentos. Controle da pressão arterial, diabetes e colesterol, atividade física regular, alimentação adequada, qualidade do sono, manutenção das relações sociais, tratamento da depressão, estímulo cognitivo e acompanhamento da audição são algumas das medidas associadas à proteção da saúde cerebral.
Ao mesmo tempo, considerar aspectos emocionais e experiências traumáticas pode ampliar a compreensão sobre o envelhecimento de cada paciente.
“A geriatria trabalha cada vez mais com o conceito de trajetória de vida. O cérebro que temos aos 70 ou 80 anos também carrega a história daquele indivíduo. Isso não significa determinar o futuro a partir do passado, mas reconhecer fatores de vulnerabilidade e atuar sobre aquilo que pode ser modificado”, afirma Dra. Márcia.
Flávia acrescenta que o cuidado psicológico também pode ter papel importante mesmo muitos anos depois da experiência traumática.
“Buscar ajuda não apaga o que aconteceu, mas pode ajudar a pessoa a elaborar aquela experiência, reduzir sofrimento, reconstruir vínculos e desenvolver recursos emocionais. Não existe idade para cuidar da saúde mental”, conclui.
Mulheres são maioria entre pessoas com demência
A investigação também ajuda a levantar uma questão que ainda desafia pesquisadores: por que as demências são mais frequentes entre mulheres? Parte dessa diferença é explicada pelo fato de as mulheres viverem mais, já que a idade avançada é o principal fator de risco para demência.
Outras hipóteses investigam questões hormonais, cardiovasculares, genéticas e sociais. A maior exposição feminina à violência ao longo da vida passa agora a integrar esse campo de pesquisa, embora ainda sejam necessários estudos mais robustos para determinar sua real contribuição.
Sobre a pesquisa
A revisão sistemática foi conduzida pelas neurologistas brasileiras Raquel Molina, professora da Universidade Federal Fluminense, e Sephora Almeida, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, junto a outras pesquisadoras.
O trabalho analisou três estudos sobre diferentes formas de violência sofridas por mulheres e foi apresentado em julho de 2026 na Alzheimer’s Association International Conference (AAIC), em Londres.
Na análise combinada, mulheres expostas à violência física ou sexual apresentaram risco aproximadamente 50% maior de demência, enquanto a exposição a abusos graves durante a infância esteve associada a risco cerca de duas vezes maior.
Os autores ressaltam que os resultados ainda não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito nem classificar a violência como fator de risco independente para demência.
Fonte da pesquisa: dados apresentados na Alzheimer’s Association International Conference 2026 e repercutidos pela Folha de S.Paulo em 21 de outubro de 2026.








