
Teatro Leopoldo Fróes, fechado desde 1990, será restaurado e reaberto pela Prefeitura de Niterói.
Fechado há mais de três décadas, o Teatro Leopoldo Fróes será restaurado e reaberto para retornar à cena artística de Niterói. Isso porque o município pretende assumir a propriedade do prédio, conforme anúncio do prefeito Rodrigo Neves. O espaço fica na Rua Manoel de Abreu, 16, junto à Praça da República, no Centro. A iniciativa se soma às ações de valorização da região, como as obras de revitalização da Avenida Amaral Peixoto e rua da Conceição, do Programa Reviver Centro.
“Acreditamos que o Teatro Leopoldo Fróes, ao lado da Biblioteca que reabrimos na Praça da República, será um dos pilares que se somam ao nosso plano de revitalização completa do Centro de Niterói”, celebrou o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves.
Durante o período de inatividade do espaço, a classe artística promoveu protestos enquanto o poder público realizou tentativas de reabertura do teatro. Em contrapartida, as negociações com a Mitra Diocesana, proprietária do imóvel, enfrentaram sucessivos entraves burocráticos.
Porém, esse longo impasse dramático, aproxima-se de um final feliz. Sobretudo, para dar início a um novo roteiro, cujo primeiro ato está marcado para essa semana: a assinatura do decreto de desapropriação do imóvel pelo prefeito Rodrigo Neves. O alcaide destacou o carinho e planejamento com que vem tratando o projeto de recuperar e reabrir o Teatro Leopoldo Fróes.
Ele faz parte da memória afetiva da cidade e é um desejo antigo da classe artística. A história do teatro é forte, simbólica, e desejamos que ele abrace os grupos e coletivos teatrais e culturais niteroienses com seu fazer artístico desbravador. Mais do que isso, em Niterói a cultura é um ponto chave da economia criativa.
Por outro lado, o município ainda não divulgou nenhum cronograma de obras nem uma data de reabertura.
Alvorada e palco de uma geração perseguida pelo DOPS
A história da casa começou antes de receber o nome de Leopoldo Fróes. Em 1967, o imóvel passou a abrigar o Teatro Alvorada, ligado à Associação Recreativa Comércio e Navegação. A entidade reunia trabalhadores associados ao setor naval.
Na década seguinte, o Alvorada atravessou um dos períodos mais duros da ditadura militar. Segundo o histórico divulgado pela Prefeitura, o Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, determinou seu fechamento após uma apresentação de “Arena conta Zumbi” pelo Grupo Ceia, do Instituto Abel.
A peça levava ao palco a resistência do Quilombo dos Palmares. Já o DOPS atuava como polícia política: investigava e reprimia pessoas, reuniões e manifestações consideradas contrárias ao regime. O episódio se situa no governo do general linha-dura Emílio Garrastazu Médici, presidente entre 1969 e 1974.
Mário de Sousa, artista que atuou no teatro, atualmente presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro, também recorda a vigilância sobre apresentações culturais e reuniões sindicais realizadas no espaço em documentos públicos.
Batismo como Leopoldo Fróes
Após cerca de dez meses sem sua programação regular, a casa ganhou uma nova fase. Em outubro de 1973, o Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural alugou o imóvel e o reabriu com o nome de Teatro Leopoldo Fróes. À época, o Theatro Municipal enfrentava problemas estruturais, e a cidade precisava de outro palco.
Niterói ainda era a capital do antigo estado do Rio de Janeiro. Dois anos depois, a fusão com a Guanabara transferiria essa condição para a cidade do Rio. Nesse período de mudanças, o Leopoldo Fróes se firmou como lugar de encontro e criação para artistas niteroienses.
Essência e ressonância da voz cultural fluminense
Pioneiro e de alma vanguarda, o palco funcionou como o verdadeiro bastidor de resistência de uma cidade que lutava para reconquistar sua identidade artística. Após a fusão do antigo Estado do Rio de Janeiro com a Guanabara, em 1975 — um golpe severo na centralidade política e cultural niteroiense —, o espaço transformou-se no refúgio ideal para movimentos que sopravam vida nova à cena local.
Foi ali que iniciativas emblemáticas como “Niterói vai Sumir“, “Niterói vai Assumir“ e o icônico “Araribroadway“, ao lado da efervescência de coletivos teatrais como os grupos “Grito“ e “Papel Crepon“, encontraram o terreno fértil de que precisavam.
O caráter, essencialmente laboratorial, tal qual o perfil experimental daquela caixa preta, tiveram papel decisivo para lapidar e projetar uma consagrada geração de novos talentos das artes cênicas.
Escola e ribalta de grandes artistas
Há de se destacar que, nos anos de 1980, o palco do Leopoldo Fróes testemunhou o nascimento do tradicional ciclo de leituras dramatizadas da Associação dos Trabalhadores em Artes Cênicas de Niterói, a ATACEN.
De igual forma, grupos locais encontraram ali espaço para ensaiar, experimentar linguagens e apresentar seus espetáculos. O teatro também recebeu projetos musicais e artistas como Elza Soares, Leci Brandão, Zizi Possi, Elba Ramalho e Pepeu Gomes.
Para a cena de Niterói, seu papel ia além da programação. O palco abriu caminho para profissionais da cidade e ajudou a aproximar o público da produção cultural local. Entre os nomes ligados à sua história estão Marcos Sabino, Arthur Maia, Dalto, Byafra, Marvio Ciribelli, Zélia Duncan, Sergio Chiavazzoli e outros.
Quem tentou impedir o fechamento
A última apresentação regular ficou para trás em 1990. Segundo pesquisa da FGV, o teatro fechou para reformas em 24 de outubro daquele ano. A promessa de retorno mobilizou artistas, mas a casa não voltou a receber espetáculos.
O movimento SOS Leopoldo Fróes reuniu integrantes da classe artística em defesa do espaço. A pesquisa identifica Leonardo Simões como líder da mobilização. Ele e outros participantes procuraram o então prefeito Jorge Roberto Silveira e a Arquidiocese.
O grupo defendia a preservação do prédio, a continuidade do teatro e sua gestão por artistas. Em 1991, porém, a Mitra Diocesana decidiu retomar o imóvel alugado à Prefeitura. A disputa pelo uso do espaço chegou à Justiça e, por fim, a reabertura não aconteceu.
Décadas depois, em 2021, um incêndio atingiu o prédio. O fogo acrescentou outro capítulo à trajetória de uma casa que já ocupava um lugar especial na memória cultural de Niterói.
Uma nova etapa para a Praça da República
A recuperação anunciada por Rodrigo Neves se soma a outras entregas culturais de suas gestões. Em 2013, a Prefeitura reabriu o Museu Janete Costa de Arte Popular e o Teatro Popular Oscar Niemeyer. Após obras, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói voltou a receber visitantes em 2016.
Em 2019, a cidade ganhou a Sala Nelson Pereira dos Santos. Mais recentemente, em fevereiro de 2025, a Prefeitura reabriu a Biblioteca Parque, na mesma Praça da República onde fica o Leopoldo Fróes.
Agora, o projeto para o antigo teatro reúne duas expectativas. Primeiramente, recuperar um prédio histórico. Em seguida, devolver aos artistas de Niterói um palco associado à própria formação da cena cultural da cidade. Em síntese, os próximos atos deste espetacular espetáculo reservam emoção e prosperidade para pujante vocação artística da cidade.








