Coluna do André FreitasEditorial

Suicídio não é notícia

 

Em se tratando de suicídio – tentado ou consumado – tanto a imprensa, bem como os demais meios de comunicação, tem um importante papel: não noticiar. Infelizmente, na era digital, está cada vez mais difícil convencer a sociedade que a propagação deste tipo de conteúdo causa danos sociais irreparáveis. Sobretudo, por conta de pessoas em busca de notoriedade, e dos veículos sem responsabilidade social em sua sanha por cliques custe o que custar.

Afinal, o suicídio se trata de um problema de saúde pública grave, que afeta pessoas de todas as idades, classes sociais e origens. No Brasil, a cada 100 mil habitantes, 8,4 morrem por suicídio ao passo que esta é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

Apesar da gravidade do problema, ainda há quem deseje se alimentar desse tipo de conteúdo. O papel dos meios de comunicação, nesse caso, deve se restringir a produção de conteúdo jornalístico que estimule as pessoas a procurar ajuda. Devemos, permanentemente, tratar o assunto com a devida seriedade. E lutar contra a divulgação noticiosa destes acontecimentos e de seus desdobramentos.

Motivos

Há uma razão para isso: a cobertura jornalística do suicídio pode ter efeitos negativos significativos. Diversos estudos mostram que pessoas propensas ao suicídio têm sua motivação aumentada quando diante de casos de pessoas que tiraram a própria vida. Vivemos tempos de aumento da incidência de adoecimentos por crises emocionais. E o espetáculo estabelecido na tragédia de hoje ajuda a criar a desgraça de amanhã.

Geralmente, a pessoa que deseja a própria morte, busca meios de torna-la glamorosa. Elas contemplam o sucesso suicida e idealizam de que modo podem deixar de legado uma grande repercussão de sua morte. Essas pessoas, em sua vulnerabilidade, quase sempre buscam no suicídio uma reparação, a si ou a alguém.

Por fim, digo que, ao invés de filmar quem tenta tirar a própria vida, a atitude mais eficiente é tentar impedir. Ao perceber que sua ação está sendo filmada, registrada para a posteridade, o suicida quase nunca volta atrás. Quem filma, não mata. Mas, a nosso ver, instiga, auxilia. E isso constitui crime, conforme diz o artigo 122 do Código Penal. Inclusive, há registros de casos de pessoas presas por filmar e divulgar as imagens de um suicídio.

Considerando, por fim, que majoritariamente o jornalismo brasileiro entende que suicídio não é notícia, sequer há defesa para qualquer argumentação de que o registro das imagens encontra amparo na livre manifestação do pensamento ou que se trata de direito de imprensa de livre acesso à informação. Afinal, como o suicídio em nada guarda relação com o jornalismo, jamais haverá justificativa para alguém filmar algo desta natureza.

Logo, torcemos para que haja a responsabilização penal destas pessoas. Infames, violam a honra, a intimidade, a vida privada e a imagem de pessoas em vulnerabilidade emocional, bem como de suas famílias, devassando suas vidas, para sempre.

 

 

André Freitas
Diretor-Executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Radialista e Jornalista desde a década de 1990. Narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Tem vasta experiência na cobertura da editoria de política em razão dos cargos públicos que exerceu nos poderes Legislativo e Executivo: Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo, Campos dos Goytacazes, além da Alerj e ainda na Prefeitura de Niterói. Dirigiu a Rádio Absoluta por 15 anos, onde apresentou programas noticiosos diários. Pela emissora, cobriu por mais de uma década a seleção brasileira de futebol e esteve em duas Copas do Mundo e uma Olimpíada. Narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, tem 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Trabalhou, também, nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e (Litorânea/ES). Exerceu cargo de editor-chefe em Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ). Colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

Você também pode gostar!

Comments are closed.