
Soldados romanos fantasmas: o mistério da casa inglesa onde um exército teria atravessado paredes | Folha do Leste/Imagem ilustrativa gerada por IA
O som de uma trombeta ecoa dentro de um porão. Pouco depois, um homem vestido como um soldado romano parece surgir de uma parede de tijolos. Atrás dele, um cavaleiro e outros militares avançam em formação, atravessando a sala como se estivessem marchando por uma estrada invisível.
Essa é a experiência que Harry Martindale afirmou ter vivido em fevereiro de 1953, enquanto trabalhava na instalação de um sistema de aquecimento na Treasurer’s House, residência histórica localizada em York, no norte da Inglaterra.
O relato se tornou uma das histórias de fantasmas mais conhecidas da cidade. Entretanto, o caso ganhou um detalhe que continua despertando curiosidade: investigações arqueológicas identificaram vestígios de uma antiga estrada romana sob a propriedade.
Mais de sete décadas depois, a história permanece nos arquivos do National Trust, organização britânica responsável pela preservação do edifício.
Mas o que realmente aconteceu naquela tarde? E por que a presença de uma estrada romana sob o porão tornou a narrativa tão conhecida?
O que aconteceu no porão da Treasurer’s House em 1953?
Em fevereiro de 1953, Harry Martindale trabalhava como aprendiz na área de engenharia de aquecimento. Sua tarefa era auxiliar na instalação de uma caldeira no porão da Treasurer’s House.
Segundo o relato preservado pelo National Trust, o jovem precisava abrir uma passagem no teto abobadado de tijolos para executar parte do serviço.
No segundo dia de trabalho, ouviu um som semelhante ao toque de uma trombeta.
Inicialmente, acreditou que o ruído pudesse ter vindo de um rádio ou de algum equipamento nas proximidades.
Entretanto, o som se repetiu. Na terceira ocasião, pareceu mais alto e, segundo sua percepção, vinha do outro lado de uma parede.
Ao olhar naquela direção, Martindale afirmou ter visto um capacete romano surgir através dos tijolos.
Em seguida, um homem vestido como soldado atravessou a parede, caminhou pelo porão e desapareceu na estrutura oposta.
O primeiro personagem teria sido seguido por outro militar montado em um cavalo. Depois vieram mais soldados, que avançavam em pares.
Ao todo, Martindale declarou ter observado aproximadamente vinte figuras humanas naquela marcha incomum.
Assustado, abandonou o local e procurou recuperar-se do choque.
O episódio transformou um trabalho aparentemente rotineiro em uma das narrativas sobrenaturais mais conhecidas de York.
Por que os soldados pareciam caminhar dentro do chão?
Um detalhe particular diferencia o testemunho de Martindale de outras histórias tradicionais sobre aparições.
Segundo ele, os supostos soldados eram visíveis apenas dos joelhos para cima.
A parte inferior de seus corpos parecia estar escondida sob o piso do porão, embora as figuras continuassem caminhando normalmente.
O jovem também descreveu as roupas, os capacetes e o comportamento dos homens.
Em vez de soldados representados como figuras imponentes, teria observado indivíduos de aparência desgastada, alguns aparentemente entre trinta e quarenta anos.
As túnicas foram descritas como esverdeadas, enquanto os calçados lembravam sandálias de couro presas às pernas.
Martindale afirmou ainda ter ouvido passos e vozes, embora não compreendesse o que os homens diziam.
A impressão de que as figuras caminhavam abaixo do nível do piso tornou-se especialmente importante para a interpretação posterior da história.
Décadas de pesquisas e escavações identificaram vestígios da cidade romana de Eboracum sob o edifício, incluindo estruturas relacionadas a uma antiga via.
Contudo, a correspondência entre a descrição do testemunho e a arqueologia não constitui prova de uma aparição sobrenatural.
Ela demonstra que o local possui uma história romana documentada, fato independente do conteúdo extraordinário do relato.
O que o responsável pela casa teria dito a Harry Martindale?
Outro elemento conhecido da história envolve a reação de um funcionário da residência.
Segundo Martindale, depois de fugir do porão, ele encontrou o responsável pela supervisão da casa.
Ao perceber seu estado de choque, o funcionário teria identificado imediatamente o motivo do susto, sugerindo que o jovem havia encontrado os soldados romanos.
A história aparece na documentação do National Trust e contribuiu para alimentar a ideia de que outras pessoas já conheciam relatos semelhantes.
Entretanto, a observação deve ser tratada como parte da narrativa testemunhal, e não como confirmação independente de que os acontecimentos ocorreram exatamente da maneira descrita.
O próprio Martindale afirmou que nunca havia visto fantasmas antes daquele episódio e que não voltou a ter uma experiência semelhante.
Durante anos, evitou divulgar amplamente a história por receio de ser desacreditado.
Seu testemunho acabou se tornando conhecido e passou a integrar o repertório de histórias sobrenaturais associado à Treasurer’s House.
A casa realmente foi construída sobre uma estrada romana?
Sim. Ao contrário das aparições, a presença de vestígios romanos sob a Treasurer’s House possui documentação arqueológica.
York foi fundada pelos romanos no século I e ficou conhecida como Eboracum, importante centro militar e administrativo da Britânia romana.
Na região onde atualmente se encontra a residência, existiam estruturas relacionadas à fortaleza legionária que ocupava parte do centro histórico da cidade.
O registro patrimonial do National Trust identifica a antiga via decumana, uma das vias internas da fortaleza, nas proximidades da atual Chapter House Street.
Os depósitos arqueológicos romanos estão aproximadamente três metros abaixo do nível atual da rua, segundo a documentação patrimonial.
Escavações também revelaram elementos arquitetônicos, incluindo a base de uma coluna de um pórtico localizado nas proximidades da antiga estrada.
A presença dessas estruturas ajuda a explicar por que o testemunho de Martindale passou a receber tanta atenção.
Em seu relato, os soldados pareciam caminhar em um nível inferior ao piso moderno. Na arqueologia, existem de fato camadas antigas sob as construções atuais.
Entretanto, esses dois elementos precisam permanecer separados: a estrada romana é um vestígio histórico verificável; os soldados fantasmas são personagens de relatos não comprovados.
O que as escavações revelaram sobre o passado de York?
A cidade de York conserva vestígios de diferentes períodos históricos, incluindo a ocupação romana, as transformações medievais e a expansão urbana posterior.
No período romano, Eboracum desempenhou papel importante na presença militar de Roma no território que hoje corresponde à Inglaterra.
Ao longo dos séculos, novas construções foram erguidas sobre estruturas mais antigas.
Assim, partes da fortaleza romana permaneceram enterradas sob ruas, residências e edifícios históricos.
O National Trust informa que pesquisas realizadas na área da Treasurer’s House identificaram estruturas ligadas à fortaleza legionária.
Seu cadastro patrimonial menciona escavações de 1989, nas quais foram encontrados materiais arqueológicos, além de estruturas romanas já identificadas anteriormente.
O porão também revelou elementos relacionados ao pórtico que acompanhava a via decumana.
Essas evidências confirmam a longa ocupação do terreno, mas não permitem identificar os homens descritos por Martindale nem demonstrar que uma unidade militar teria deixado algum registro sobrenatural no local.
O interesse arqueológico da propriedade existe independentemente da fama adquirida por suas histórias de fantasmas.
Harry Martindale foi a única pessoa que relatou ver os soldados?
Não. O National Trust preserva referências a outros testemunhos associados à mesma residência.
Um deles envolve uma visitante do antigo proprietário Frank Green, que teria encontrado um homem vestido como soldado romano quando procurava vinho no porão.
Segundo a narrativa, a visitante comunicou o encontro ao anfitrião, mas não havia nenhum funcionário ou visitante com aquela aparência na residência.
Outro relato envolve uma funcionária chamada Joan Mawson.
Em fevereiro de 1957, ela teria descido para verificar a caldeira instalada alguns anos antes.
Ao aproximar-se do porão, afirmou ter ouvido cascos de cavalos.
Inicialmente, imaginou que o som viesse da rua. Entretanto, segundo seu testemunho, percebeu figuras de soldados e cavalos atravessando o ambiente.
Joan teria evitado comentar a experiência por receio de não ser acreditada e para não assustar uma jovem que vivia com ela.
Anos depois, uma lembrança compartilhada entre as duas teria trazido novamente o episódio à discussão.
Apesar dessas histórias, não existem evidências independentes suficientes para confirmar a presença física de soldados sobrenaturais no edifício.
Os testemunhos são relevantes para compreender a formação da lenda, mas não equivalem a registros arqueológicos ou científicos de uma aparição.
Por que os uniformes descritos no relato chamaram atenção?
A aparência dos supostos soldados também despertou discussões sobre o testemunho.
Martindale não descreveu uma formação composta exclusivamente por homens jovens, uniformes impecáveis e equipamentos militares padronizados.
Em sua lembrança, os soldados pareciam mais velhos e usavam roupas com aparência desgastada.
O National Trust registra que alguns estudiosos questionaram os detalhes apresentados, enquanto outras interpretações tentaram relacioná-los a militares que teriam vivido durante muitos anos na região.
Entretanto, essas hipóteses não identificam uma unidade militar específica como responsável pela suposta marcha.
Também não comprovam que os personagens descritos correspondam a indivíduos que realmente viveram em Eboracum.
Sem registros materiais da aparição, a comparação entre vestimentas históricas e a descrição de uma testemunha permanece limitada.
A discussão demonstra como detalhes aparentemente pequenos podem contribuir para a popularidade de um relato sobrenatural, principalmente quando aparecem associados a um local historicamente documentado.
Quem foi Frank Green, antigo proprietário da Treasurer’s House?
A fama sobrenatural da casa não depende apenas de soldados romanos.
O edifício também está associado à história de Frank Green, empresário britânico que adquiriu partes da propriedade em 1897 e 1898.
Descendente de uma família industrial de Wakefield, Green transformou a residência em uma casa destinada a exibir coleções de arte, móveis e objetos históricos.
As obras de restauração e reorganização dos ambientes foram conduzidas com a participação do arquiteto Temple Moore.
Em 1900, o imóvel recebeu uma visita do então príncipe de Gales, que posteriormente se tornaria o rei Eduardo VII.
Green também estabeleceu orientações rigorosas sobre a disposição dos móveis e a conservação dos ambientes.
Em 1930, entregou a propriedade ao National Trust, contribuindo para sua preservação.
A tradição local afirma que o antigo proprietário teria ameaçado assombrar a residência caso sua organização fosse alterada.
Relatos posteriores sobre cheiro de charuto e acontecimentos inexplicáveis passaram a ser associados à figura de Green.
Entretanto, essas histórias fazem parte do folclore da residência e não comprovam que seu antigo dono permaneça presente no imóvel após a morte.
Que outros fantasmas aparecem nas histórias da Treasurer’s House?
Além dos soldados, o National Trust reúne diferentes narrativas contadas por visitantes, funcionários e voluntários.
Entre elas estão relatos sobre uma mulher vestida de cinza, que teria aparecido em cadeiras da casa, e sobre crianças que supostamente foram vistas brincando em determinados cômodos.
Há também histórias envolvendo animais.
No antigo porão, atualmente associado ao funcionamento do café da propriedade, alguns visitantes afirmaram ter observado um gato que desapareceria sem deixar vestígios.
Em 2016, pessoas diferentes relataram ter visto pequenos cães em ambientes da residência.
Outras narrativas mencionam relógios que teriam parado simultaneamente, móveis encontrados em posições inesperadas e sensações de frio.
O National Trust reúne essas histórias como parte da tradição cultural do imóvel, mas também observa que funcionários que permaneceram durante décadas na propriedade nunca vivenciaram acontecimentos considerados sobrenaturais.
Essa diversidade de experiências reforça a importância de distinguir relatos pessoais, acontecimentos verificáveis e interpretações fantasmagóricas.
Por que York ficou conhecida pelas histórias de fantasmas?
A cidade de York possui uma longa história, marcada por diferentes povos, conflitos e transformações urbanas.
Fundada pelos romanos em 71 d.C., tornou-se um importante centro militar da Britânia.
Posteriormente, a cidade passou por períodos de domínio anglo-saxão, presença viking e transformações medievais.
Esse passado contribuiu para a preservação de construções antigas e narrativas relacionadas a personagens históricos.
Ao longo do tempo, York também desenvolveu uma forte tradição turística associada a fantasmas e mistérios.
A organização turística Visit York apresenta as histórias da cidade como parte de seu patrimônio cultural e utiliza a expressão de cidade assombrada em campanhas e roteiros temáticos.
Entretanto, a popularidade das histórias sobrenaturais não constitui comprovação de que a cidade possua atividades paranormais.
O valor dessas narrativas está na maneira como conectam memória local, patrimônio histórico e imaginação popular.
O caso dos soldados romanos pode ser explicado?
Não existe uma explicação conclusiva e comprovada para a experiência relatada por Harry Martindale.
O testemunho foi preservado como uma narrativa pessoal, mas não há documentação capaz de demonstrar que soldados romanos realmente atravessaram as paredes do porão.
Experiências perceptivas incomuns podem envolver diferentes fatores, como condições de iluminação, expectativas, sons ambientais e interpretações equivocadas de estímulos.
Entretanto, não seria correto atribuir definitivamente qualquer uma dessas explicações ao caso sem evidências específicas.
Da mesma maneira, a presença de uma estrada romana sob a propriedade não comprova uma manifestação sobrenatural.
O que está documentado é a história arqueológica do local e a existência de relatos registrados ao longo do tempo.
Por isso, a investigação histórica deve evitar tanto a apresentação dos fantasmas como fatos comprovados quanto a invenção de uma solução definitiva para a experiência do jovem aprendiz.
A Treasurer’s House continua preservando a história de 1953?
Sim. O National Trust mantém a narrativa de Harry Martindale entre as histórias associadas à residência.
A instituição também apresenta informações sobre os demais relatos de aparições e sobre a importância arqueológica do terreno.
A Treasurer’s House permanece como um imóvel histórico preservado, situado nas proximidades da Catedral de York.
Entretanto, a área do porão relacionada às supostas aparições dos soldados não está disponível para investigações paranormais independentes.
O National Trust informa que não autoriza pesquisas paranormais ou uso de equipamentos destinados a esse tipo de atividade no imóvel.
As visitas devem respeitar os horários e as condições de acesso estabelecidos pela instituição.
Assim, a residência continua preservando duas histórias paralelas: a história documentada de seu edifício e do passado romano da cidade, e o conjunto de narrativas sobrenaturais que a tornou conhecida entre visitantes.
Uma marcha fantasmagórica entre a história e a lenda
Mais de setenta anos depois do episódio relatado por Harry Martindale, a história dos soldados romanos continua sendo uma das narrativas mais conhecidas de York.
Seu fascínio está na combinação entre um testemunho pessoal, a imagem de uma marcha militar atravessando paredes e a descoberta de vestígios arqueológicos sob a residência.
Entretanto, esses elementos não possuem o mesmo valor como evidência.
A fortaleza de Eboracum, a via decumana e as estruturas identificadas pelas escavações pertencem à história documentada da cidade.
Já os soldados fantasmagóricos pertencem ao universo dos testemunhos e das tradições sobrenaturais preservadas pelo National Trust.
Não existem provas científicas de que militares romanos mortos continuem marchando pelo porão da Treasurer’s House.
O caso, contudo, demonstra como o passado de um lugar pode ganhar novas interpretações conforme histórias são transmitidas entre gerações.
Na antiga York, uma estrada romana permanece enterrada sob uma casa histórica. Sobre ela, a imaginação popular continua ouvindo os passos de soldados que, segundo a lenda, nunca encerraram sua marcha.








