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Niterói: Mães revoltadas denunciam demissão de terapeutas de crianças autistas pela Unimed Leste

Imagem de criança com TEA traduz mães revoltadas em Niterói com demissão de terapeutas de crianças autistas pela Unimed Leste

Unimed Leste promove demissão de 13 terapeutas que atediam crianças autistas no CATEA Niterói e medida deixa mães revoltadas | Arte: Folha do Leste/IA

Mães de crianças atendidas no Centro de Atenção ao Transtorno do Espectro Autista (CATEA), em Icaraí, Niterói estão em situação de medo e apreensão. Isso se dá por conta da súbita demissão dos terapeutas até então responsáveis pelo tratamento de seus filhos por elas denunciada. A clínica pertence ao plano de saúde Unimed Leste Fluminense, conforme figura no próprio site da instituição como espaço dedicado ao acolhimento e acompanhamento desses pacientes.

Um comunicado atribuído ao CATEA, informando a demissão em massa de 13 profissionais por determinação da Unimed Leste Fluminense fortalece a denúncia das mães. Elas alegam ter recebido o documento através do WhatsApp da instituição na quarta-feira (1º/07).

Além disso, narram que após a repercussão negativa do informe, o mesmo teria sido apagado para todos no aplicativo de mensagens. De igual forma, deletado das redes sociais onde também esteve temporariamente publicado. Supostamente, por conta dos comentários revoltosos.

O documento — que chegou ao FOLHA DO LESTE juntamente com a súplica de apuração jornalística do caso — limita-se a dizer que os atendimentos estão suspensos. Ou seja, sequer fornece algum indício de quando haverá retomada. Em síntese, dá uma informação com efeito imediato, mas se omite no que se refere aos prazos.

Os atendimentos com esses profissionais estarão temporariamente suspensos até que seja disponibilizado um novo profissional. Assim que houver definição, o setor responsável pela logística da agenda entrará em contato para realizar o atendimento e garantir a continuidade do atendimento terapêutico”, diz o texto abaixo.

Documento lista profissionais desligados do CATEA por decisão da Unimed Leste Fluminense.

Documento lista profissionais desligados do CATEA por decisão da Unimed Leste Fluminense.

Sem despedida

As famílias afirmam que a mudança ocorreu sem um cronograma detalhado de substituição, despedida ou transição terapêutica.

Para mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o sentimento de angústia, que reúne o medo e apreensão já citados, tem como fundamento a ruptura de vínculos já estabelecidos com esses terapeutas. Sobretudo, pelo receio de que seus filhos tenham crises e regressões por conta da interrupção do cuidado.

“Nossos filhos não terão mais os terapeutas que os acompanham”

Em um apelo encaminhado à redação, a mãe Isabel classificou a notícia como devastadora.

“Recebemos uma notícia devastadora: fomos informadas de que, a partir de amanhã (02/07), nossos filhos não terão mais os terapeutas que os acompanham.”

Ela afirma que as mudanças surpreenderam diversas famílias:

“Sem aviso adequado. Sem preparação. Sem organização. Sem acolhimento. Sem sequer uma despedida.”

Vínculos rompidos

Ainda segundo Isabel, os pacientes construíram relações de confiança com os profissionais que os acompanhavam no CATEA. Para ela, a troca repentina pode representar mais do que uma simples alteração de agenda.

“Nossos filhos construíram vínculos, confiança, rotina e segurança com esses profissionais. Para muitas crianças, especialmente aquelas que precisam de previsibilidade e estabilidade, uma ruptura brusca como essa não é apenas uma troca de profissionais — é uma quebra emocional,” relata emocionada.

Terapia com Análise do Comportamento Aplicada

Já a mãe Aline tem dois filhos realizando terapia no CATEA Icaraí: Théo, de 4 anos, com nível 3 de suporte; e o mais velho, Nathan, de 8 anos e suporte nível 1. Ela aponta que a demissão em massa, da “noite pro dia”, deixou dezenas de crianças sem atendimento.

Mandaram embora profissionais excelentes que estavam há anos com nossos filhos.”

 

Ela destaca que ambos recebem atendimento de acordo com o método ABA. Trata-se da Análise do Comportamento Aplicada, cientificamente considerado o tratamento com maior evidência científica para o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Meus filhos fazem terapia na clínica CATEA em Icaraí já por volta de 2 anos e 4 meses! As terapias realizadas são psicologia, psicopedagogia, fonoaudiologia, musicoterapia, terapia alimentar, Psicomotricidade e terapia ocupacional, todos no método ABA! O Nathan faz 5 tempos semanais e o Théo faz 12 tempos semanais”

A terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada) utiliza reforço positivo para ensinar novas habilidades de comunicação, socialização e autonomia.  Também maneja comportamentos desafiadores de forma individualizada.

Rotina interrompida

A reportagem também teve acesso a uma declaração de atendimento emitida pelo CATEA em 14 de maio de 2026, que descreve o acompanhamento semanal contínuo de uma criança, com sessões de 45 minutos e sem previsão de alta.

O documento apresenta uma rotina com nove atendimentos por semana, divididos entre musicoterapia, psicologia, fonoaudiologia, terapia alimentar, psicopedagogia, terapia ocupacional e psicomotricidade.

No cronograma, aparecem profissionais que também estão na lista divulgada no comunicado de desligamento, entre eles Adney Lima, Patrícia Fabiana, Gisele Branco, Viviane Simões e Raphaela Fileres.

Mais que dinheiro

Outra mãe, Marcela, considera como absurda a situação com os pacientes do CATEA Niterói. O fundamento do argumento é, basicamente, o mesmo: vínculos estabelecidos.

Não somos $ e nem números! São pessoas que precisam de terapia e respeito” , publicou em sua rede social.

Providências

O pai de uma das crianças afetadas pelo atendimento, que é advogado, propôs o ingresso na Justiça com uma ação coletiva. Contudo, ainda não há maiores detalhes sobre a evolução dessa medida. Tampouco sobre a quantidade de adesões.

CATEA apresentado como espaço de cuidado contínuo

Em material institucional encaminhado anteriormente ao Folha do Leste, a Unimed Leste Fluminense informou manter duas unidades do CATEA, em Niterói e São Gonçalo, inauguradas em 2024.

Em tom promocional, o material informa que a Unimed criou os centros para atender crianças e adolescentes de zero a 19 anos. Sobretudo, com acompanhamento individualizado e equipe multidisciplinar.

O texto divulgado pela própria Unimed menciona serviços de musicoterapia, psicologia, psicopedagogia, nutrição, terapia ocupacional, psicomotricidade e fonoaudiologia. A cooperativa também afirmou que realizava atendimento planejado, de forma contínua, integrada e adaptada às necessidades de cada paciente.

A proposta assistencial dos Centros vai além do acompanhamento clínico, priorizando a evolução funcional, a autonomia e a inclusão social das crianças e jovens atendidos. O cuidado é planejado de forma contínua e integrada, considerando as necessidades específicas de cada paciente e envolvendo ativamente as famílias no processo terapêutico”, informou a Unimed no material enviado à reportagem.

De certa forma, pode-se dizer que, até então, a CATEA entregou a pacientes, mães e familiares no geral exatamente o que prometiam prover. A perda de confiança, entretanto, surge com a quebra de uma promessa para muitos fundamental: a preservação de continuidade do cuidado.

Diante disso, resta a indagação das famílias sobre a preservação da promessa de continuidade do cuidado. Especialmente, diante da suspensão temporária de atendimentos e da saída simultânea de profissionais de diferentes áreas.

Unimed Leste envia nota mas não responde perguntas

Em nota, a Unimed Leste Fluminense afirmou que todos os pacientes em acompanhamento no CATEA Niterói “continuarão sendo atendidos por profissionais qualificados da equipe”, com a preservação da continuidade dos tratamentos.

A cooperativa informou ainda que os responsáveis estariam sendo contatados individualmente para confirmação de datas e horários das sessões, “de forma a evitar impactos na rotina dos assistidos”.

A resposta, porém, não esclarece quantos profissionais foram desligados, quais especialidades foram atingidas, se houve interrupção de atendimentos, nem se cada paciente terá preservada a mesma carga semanal de terapias, os métodos previstos em seus planos individuais e a continuidade do acompanhamento multidisciplinar.

A Unimed também não respondeu como será feita a transição clínica entre terapeutas que deixaram a unidade e os novos responsáveis pelos atendimentos.

Nota na íntegra

“A Unimed Leste Fluminense informa que todos os pacientes atualmente em acompanhamento terapêutico na unidade CATEA Niterói continuarão sendo atendidos por profissionais qualificados da equipe, assegurando a continuidade dos tratamentos.

Os responsáveis estão sendo contatados individualmente para confirmação das datas e dos horários das sessões, de forma a evitar impactos na rotina dos assistidos.

A Unimed Leste Fluminense reafirma seu compromisso com a qualidade da assistência prestada às famílias atendidas pelo CATEA Niterói” .

André Freitas
André Freitas é diretor-executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Jornalista e radialista desde a década de 1990, é narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Possui ampla experiência na cobertura da editoria de política, em razão de funções exercidas nos poderes Legislativo e Executivo, com atuação nas Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo e Campos dos Goytacazes, além da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e da Prefeitura de Niterói. Dirigiu por 15 anos a Rádio Absoluta, onde apresentou programas noticiosos diários e conduziu coberturas esportivas, incluindo mais de uma década acompanhando a seleção brasileira de futebol. Nesse período, esteve presente em duas Copas do Mundo e em uma edição dos Jogos Olímpicos. Trabalhou também nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e Litorânea (ES). Exerceu o cargo de editor-chefe nos jornais Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ), além de atuar como colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

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