ColunistasEnzo Carvalho: Tecnologia e Inovação

Loja autorizada da Bambu Lab no SM Megamall com impressoras 3D expostas

Militares operam sistema de impressão 3D de metal instalado dentro de navio da Marinha dos Estados Unidos

Loja autorizada da Bambu Lab no SM Megamall com impressoras 3D expostas | Divulgação/Marinha dos Estados Unidos

Uma peça de um navio militar precisaria esperar 40 semanas pelo processo tradicional de fornecimento. Com impressão 3D, ela ficou pronta em 19 dias.

Em outro caso, um componente danificado de submarino tinha prazo estimado de nove meses para reposição. A Marinha dos Estados Unidos utilizou digitalização, projeto digital e fabricação aditiva para resolver o problema em cerca de oito semanas.

Esses números ajudam a explicar por que a impressão 3D militar está deixando de ser apenas uma tecnologia experimental.

O objetivo agora é atacar uma das maiores dificuldades de qualquer operação naval: um navio pode valer bilhões de dólares, mas continuar limitado por uma única peça pequena que não chegou a tempo.

A estratégia americana avança em duas frentes. Centros especializados produzem componentes muito mais rapidamente em terra, enquanto impressoras começam a viajar dentro dos próprios navios.

A mudança transforma a pergunta.

Em vez de “quanto tempo leva para entregar a peça?”, começa a surgir outra possibilidade:

quanto tempo leva para fabricar a peça onde ela é necessária?

Uma espera de 40 semanas virou 19 dias

Um dos exemplos mais claros envolve um componente da porta do hangar de helicópteros do USS Halsey, destróier da classe Arleigh Burke.

Pelo processo tradicional, o prazo estimado para obtenção da peça chegava a 40 semanas.

A solução por fabricação aditiva reduziu esse intervalo para 19 dias.

A Marinha trabalha há anos com problemas desse tipo.

Peças antigas podem ter fornecedores limitados, linhas de produção encerradas ou prazos incompatíveis com a necessidade operacional de uma embarcação.

Em determinados casos, o componente custa pouco quando comparado ao navio.

A indisponibilidade, porém, pode comprometer equipamentos muito mais caros.

Outro componente levou apenas 13 dias

Há casos ainda mais rápidos.

O programa industrial da Marinha registra a fabricação de um suporte de aço inoxidável para porta de hangar destinado ao USS Spruance.

Do pedido inicial à instalação passaram apenas 13 dias.

A cotação para fabricar o mesmo componente convencionalmente indicava aproximadamente 40 semanas.

A diferença é enorme.

Quarenta semanas correspondem a cerca de 280 dias.

Produzir e instalar a peça em 13 dias significa reduzir o intervalo em mais de 95%.

Não é apenas uma economia de calendário.

Para uma embarcação militar, cada semana adicional de manutenção pode interferir em treinamento, disponibilidade e programação operacional.

Submarino enfrentava espera de nove meses

O caso do USS Pennsylvania é ainda mais expressivo.

Durante uma inspeção, foi encontrado dano crítico no corpo de uma válvula relacionada ao sistema de emergência a diesel do submarino.

O fabricante original informou prazo de aproximadamente nove meses.

Não havia peça reserva disponível na Defense Logistics Agency.

Sem o componente, o submarino não poderia retornar normalmente ao serviço.

A Marinha então recorreu a digitalização da peça, engenharia digital e fabricação aditiva.

O processo levou aproximadamente oito semanas.

Segundo o programa Maritime Industrial Base, isso significou uma redução de cerca de 32 semanas no cronograma.

A economia estimada chegou a aproximadamente US$ 500 mil.

Impressão 3D evita até retirar peça de outro submarino

Quando não existe reposição disponível, uma saída extrema é retirar um componente de outra embarcação.

Esse processo é conhecido como canibalização.

Resolve-se um problema sacrificando temporariamente outro equipamento.

No caso do USS Pennsylvania, a fabricação da nova válvula evitou justamente essa alternativa.

Esse ponto revela um dos valores estratégicos da manufatura aditiva.

Ela não precisa substituir toda a indústria tradicional para produzir impacto.

Basta resolver os casos em que a cadeia convencional é lenta demais.

Peça de submarino já foi fabricada dentro de outro navio

A próxima etapa é aproximar ainda mais a fábrica do equipamento que precisa do reparo.

Marinheiros a bordo do navio de apoio USS Frank Cable produziram um volante manual de aço inoxidável destinado ao submarino USS Vermont.

A fabricação levou seis dias.

No dia seguinte, a peça foi instalada.

Segundo a Marinha, ela encaixou corretamente já na primeira tentativa.

O caso demonstra um fluxo que há poucos anos pareceria improvável:

o arquivo pode ser enviado digitalmente, a peça pode ser fabricada por militares no teatro de operações e depois seguir diretamente para a embarcação que precisa dela.

Porta-aviões agora possui fabricação de metal a bordo

Em 2026, os testes ganharam escala muito maior.

Durante o RIMPAC, o porta-aviões USS Theodore Roosevelt recebeu um sistema híbrido de fabricação metálica.

A plataforma ADDiTEC HYBRiD-X combina manufatura aditiva e processos de usinagem.

Foi a primeira vez que um porta-aviões da Marinha americana recebeu uma plataforma conteinerizada e transportável desse tipo para produzir e reparar componentes metálicos críticos.

O objetivo declarado é justamente reduzir o tempo de espera por peças mecânicas quando o navio está operando no mar.

USS Somerset mostra o que semanas de espera significam

Um teste realizado anteriormente no USS Somerset ajuda a visualizar o problema.

A embarcação precisava de uma bucha para uma bomba de osmose reversa.

Esse sistema está ligado à produção de água potável para marinheiros e fuzileiros a bordo.

A equipe fabricou uma nova peça de aço inoxidável durante o RIMPAC 2024.

Segundo um integrante do projeto, depender do caminho tradicional poderia representar semanas ou meses de espera.

A fabricação aditiva permitiu obter o componente antes mesmo que um pedido convencional provavelmente completasse todo o processo logístico.

É exatamente esse tipo de diferença que torna a tecnologia interessante para operações distantes de bases de apoio.

A Marinha já possui mais de 100 peças impressas instaladas

A fabricação aditiva não está restrita aos testes embarcados.

O programa industrial da Marinha informa que já existem 101 peças aprovadas produzidas por manufatura aditiva instaladas em navios e submarinos.

O objetivo agora é fazer com que componentes já qualificados entrem na cadeia normal de suprimentos.

Isso significa algo importante.

Uma peça impressa em 3D deixa de ser uma solução extraordinária criada apenas para uma emergência e passa a poder ser encomendada como qualquer outro componente aprovado.

Esse processo é essencial para escalar a tecnologia.

Impressora não resolve tudo sozinha

Existe uma diferença enorme entre imprimir um suporte plástico e fabricar uma peça responsável por um sistema crítico de submarino.

Componentes metálicos podem exigir:

  • liga específica;
  • parâmetros de fabricação controlados;
  • tratamento térmico;
  • usinagem;
  • inspeção dimensional;
  • ensaios;
  • rastreabilidade;
  • qualificação da máquina;
  • aprovação do processo.

Por isso, a verdadeira inovação não está apenas na impressora.

Ela envolve arquivo digital, matéria-prima, máquina, operador, inspeção e certificação.

Sem essa cadeia, a impressão pode produzir uma peça com a geometria correta, mas não necessariamente uma peça autorizada para utilização.

Arquivos podem virar um novo tipo de estoque

O modelo tradicional exige manter peças fisicamente armazenadas.

Uma estratégia baseada em fabricação distribuída cria outra possibilidade: manter uma parcela do inventário como dados digitais qualificados.

O componente não precisa necessariamente existir em uma prateleira.

Ele precisa existir como projeto aprovado e haver, próximo ao usuário, uma máquina capaz de fabricá-lo dentro das especificações exigidas.

Isso não elimina depósitos.

Também não elimina fornecedores tradicionais.

Mas pode reduzir a necessidade de transportar determinados componentes por milhares de quilômetros.

RIMPAC testou uma rede de fábricas distribuídas

Durante o RIMPAC 2026, a Marinha não avaliou apenas máquinas isoladas.

O objetivo era testar uma rede distribuída de fabricação.

Sistemas avançados foram levados a embarcações como:

  • USS Theodore Roosevelt
  • USS Essex
  • MV Asterix

O fluxo começa com uma solicitação digital.

A rede identifica uma máquina disponível, os materiais necessários e pessoas qualificadas para executar o trabalho.

Depois, o componente é produzido e transportado até quem fez o pedido.

Isso permite que um navio fabrique não apenas para si próprio, mas eventualmente para outra embarcação da força.

Até a entrega da peça pode ser automatizada

O exercício avançou também para a logística.

Uma embarcação de superfície não tripulada foi utilizada para transportar suprimentos produzidos por fabricação aditiva até o USS Essex.

A ideia fecha o ciclo:

pedido digital → fabricação próxima → entrega ao navio.

O que anteriormente dependeria de uma cadeia de depósitos e transporte pode, em determinadas situações, acontecer dentro da própria força naval.

O ganho não é imprimir qualquer coisa

Seria errado imaginar que porta-aviões e submarinos deixarão de precisar de fornecedores, estaleiros e depósitos.

Muitos componentes continuam complexos demais.

Outros exigem máquinas industriais enormes ou processos que simplesmente não cabem em um navio.

A fabricação aditiva funciona melhor quando existe uma combinação favorável:

peça relativamente pequena, grande impacto operacional, dificuldade de reposição e processo de fabricação que possa ser qualificado.

É justamente nesses casos que esperar meses por um componente deixa de fazer sentido.

A economia real está no tempo que o navio deixa de perder

Uma peça impressa em 3D não precisa necessariamente ser mais barata que sua equivalente convencional para gerar economia.

Considere um navio parado esperando reposição.

Existem tripulação, manutenção, instalações, compromissos operacionais e outros recursos vinculados àquela embarcação.

O custo da peça é apenas uma parte do problema.

Por isso, reduzir uma espera de 40 semanas para 13 ou 19 dias pode valer muito mais do que simplesmente comparar o preço unitário das duas peças.

A própria Marinha informa que projetos de fabricação aditiva já evitaram centenas de dias de atraso na frota.

De semanas para dias — e, em alguns casos, para horas

A impressão 3D militar não está transformando um navio numa fábrica capaz de produzir tudo.

O que ela está fazendo é atacar o ponto mais vulnerável de algumas cadeias de manutenção: o tempo.

Um componente levou oito semanas em vez de nove meses.

Outro caiu de 40 semanas para 19 dias.

Outro passou do pedido à instalação em apenas 13 dias.

Um volante para submarino saiu de uma máquina dentro de um navio em seis dias e foi instalado no seguinte.

Agora, impressoras de metal viajam dentro de porta-aviões e outros navios.

Nesse cenário, a pergunta deixa de ser se militares conseguem imprimir uma peça em 3D.

Eles já conseguem.

A questão passou a ser quantas peças podem ser certificadas para que esperar meses por uma reposição deixe de ser considerado normal.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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