
Bombeiros usam impressão 3D para fabricar peças e reduzir custos em até 95% | Folha do Leste/Imagem ilustrativa gerada por IA
O Corpo de Bombeiros de Praga, na República Tcheca, passou a utilizar impressão 3D para fabricar peças e acessórios empregados em operações de resgate. A iniciativa permite substituir componentes danificados, produzir suportes personalizados e adaptar equipamentos às necessidades das equipes. Segundo um relato divulgado pela fabricante Prusa em 30 de outubro de 2026, a produção interna proporciona uma economia de aproximadamente 90% a 95% na substituição de determinados componentes.
A tecnologia integra a rotina da estação central dos bombeiros, que atende até 2.500 acionamentos de emergência por ano. Em vez de depender exclusivamente de fornecedores para conseguir pequenos acessórios, os profissionais podem projetar e fabricar soluções diretamente no quartel.
Entretanto, a adoção não significa substituir indiscriminadamente peças críticas de segurança por componentes plásticos. Os bombeiros submetem os itens fabricados a testes antes de utilizá-los nas operações, incluindo exposição a temperaturas extremas e chamas.
Impressora 3D fabrica suportes e acessórios dentro do quartel
A estação central utiliza uma Prusa CORE One L, impressora 3D de câmara fechada capaz de trabalhar com diferentes materiais termoplásticos. O equipamento fica disponível para produzir desde pequenos clipes até organizadores utilizados nos veículos de emergência.
A iniciativa começou com Lukáš, um bombeiro que já utilizava impressão 3D como hobby. Ele identificou que muitos problemas cotidianos poderiam ser resolvidos com peças fabricadas sob medida, sem depender de longos processos de aquisição.
Entre as necessidades mais comuns estavam suportes de lanternas quebrados, fixações de rádios e acessórios utilizados para manter ferramentas organizadas dentro dos caminhões.
Posteriormente, os bombeiros visitaram a fábrica da Prusa Research e conheceram outras possibilidades da fabricação aditiva. A empresa forneceu uma impressora para um projeto-piloto, permitindo desenvolver a iniciativa diretamente na estação.
Atualmente, cerca de 67 bombeiros trabalham no quartel central, distribuídos em três turnos de 24 horas. Cada turno conta com um profissional treinado para operar a impressora e controlar o consumo de material.
Esse modelo permite incorporar a fabricação digital à rotina operacional sem exigir que todos os integrantes da unidade dominem modelagem tridimensional e configuração de impressão.
Peças impressas podem custar até 95% menos
A economia está entre os resultados mais relevantes apresentados pela equipe. Conforme o relato publicado pela Prusa, fabricar determinados componentes dentro do quartel pode reduzir os custos de substituição em aproximadamente 90% a 95%.
Um exemplo envolve os suportes de capacetes. Quando uma peça original quebra, a substituição pode exigir a compra de um componente fornecido pelo fabricante do equipamento.
Com a impressão 3D, os bombeiros conseguem produzir determinados suportes sob demanda, utilizando arquivos preparados para aquela aplicação.
Entretanto, a economia anunciada não representa uma redução universal de 95% nos gastos do Corpo de Bombeiros. O percentual se refere a componentes específicos mencionados no relato e não foi acompanhado de uma planilha pública com todos os custos.
O cálculo completo de uma peça impressa também precisa considerar filamento, eletricidade, tempo de operação, manutenção, eventuais falhas de fabricação e investimento no equipamento.
Mesmo com essas ressalvas, produzir pequenos acessórios localmente oferece outra vantagem: reduzir o tempo de espera por peças de reposição, principalmente quando fornecedores não mantêm determinados componentes em estoque.
Bombeiros substituem calços de madeira por peças impressas
Uma das aplicações mais simples apresenta resultados práticos. Os bombeiros utilizavam calços de madeira para manter portas abertas durante determinadas atividades.
Entretanto, esses objetos podiam escorregar sobre pisos molhados. Para resolver o problema, a equipe desenvolveu versões impressas em 3D com características de aderência mais adequadas.
Outra solução envolveu as chaves utilizadas em elevadores. Os profissionais substituíram modelos metálicos volumosos por versões mais leves, que podem ser transportadas nos bolsos dos uniformes.
A estação também fabrica suportes personalizados para machados, rodos, ferramentas e outros equipamentos transportados nos caminhões.
Nesse caso, a vantagem não depende de criar uma ferramenta completamente nova. O objetivo é manter cada objeto em uma posição adequada, evitando deslocamentos durante o trajeto até a ocorrência.
Os bombeiros utilizam predominantemente filamento laranja, semelhante à cor de destaque dos veículos de emergência tchecos. A escolha facilita a identificação de peças e acessórios em compartimentos com pouca iluminação.
Impressão 3D também ajuda a testar roupas de resgate aquático
A fabricação digital chegou a outras atividades especializadas. Nas operações de salvamento aquático, os bombeiros precisam verificar a integridade de roupas de proteção utilizadas em ambientes molhados.
Para isso, a equipe produz tampões de pressão personalizados, empregados em procedimentos de teste de vazamento das roupas.
Antes da fabricação interna, a obtenção desses componentes podia depender de fornecedores especializados, com prazos de espera de várias semanas.
Ao produzir os acessórios localmente, a unidade consegue realizar determinadas verificações sem aguardar a chegada de peças difíceis de encontrar.
Entretanto, é importante distinguir o acessório utilizado no teste de um componente responsável pela proteção do bombeiro durante o resgate. O relato descreve a fabricação de dispositivos auxiliares para verificação, sem estabelecer que eles substituam equipamentos certificados de proteção individual.
Peças passam por testes com fogo e temperaturas extremas
Produzir um objeto com o formato correto não garante que ele tenha resistência suficiente para uma operação de emergência.
Por isso, os bombeiros de Praga submetem os componentes impressos a testes rigorosos antes de utilizá-los em campo. Os procedimentos incluem exposição a altas temperaturas e chamas dentro de uma instalação de treinamento conhecida como Flashover Container.
Esse ambiente permite simular condições térmicas extremas associadas ao desenvolvimento de incêndios.
O processo é especialmente importante porque as propriedades dos materiais utilizados em impressão 3D podem variar conforme a temperatura, a direção das camadas, a geometria da peça e os parâmetros de fabricação.
Um componente aparentemente resistente em temperatura ambiente pode apresentar deformação ou perda de capacidade mecânica quando submetido a calor intenso.
Além disso, a resistência de uma peça não depende apenas do nome do filamento. A orientação de impressão, o preenchimento, a adesão entre camadas e a exposição prolongada às condições de trabalho também influenciam o comportamento do objeto.
A Prusa não apresentou, no relato publicado, uma tabela completa de materiais, temperaturas de ensaio e resultados mecânicos para cada componente. Portanto, não é possível afirmar que todas as peças fabricadas possuam resistência equivalente à de acessórios originais certificados.
Prusa CORE One L permite fabricar peças maiores e mais resistentes
A impressora escolhida para o projeto utiliza arquitetura CoreXY e estrutura fechada. Essas características permitem controlar melhor as condições de fabricação e trabalhar com materiais que exigem maior estabilidade térmica.
A Prusa CORE One L possui volume de impressão de 300 × 300 × 330 milímetros, permitindo fabricar objetos maiores que os produzidos por equipamentos compactos da mesma família.
O sistema também utiliza recursos de controle térmico da câmara, importantes para reduzir deformações durante a fabricação de peças em determinados polímeros de engenharia.
No quartel, essa capacidade permite produzir desde presilhas pequenas até organizadores adaptados aos compartimentos dos veículos.
Entretanto, a existência de uma câmara fechada não significa que qualquer filamento seja adequado para equipamentos de emergência. Cada aplicação exige escolha de material, configuração de impressão e validação compatíveis com os riscos envolvidos.
Segurança digital também influencia escolha da impressora
Um aspecto menos evidente da iniciativa envolve a segurança cibernética. Como serviço público de emergência, o Corpo de Bombeiros tcheco precisa observar regras de proteção de sistemas e infraestrutura crítica.
Parte das impressoras 3D disponíveis no mercado depende de serviços externos de armazenamento, comunicação ou gerenciamento pela internet.
Esse modelo pode criar restrições para organizações que trabalham com informações sensíveis ou exigem controle rigoroso sobre dispositivos conectados às suas redes.
A Prusa destaca que seus equipamentos podem funcionar sem conexão com serviços externos de nuvem. Os arquivos podem ser transferidos por dispositivos USB ou por uma rede local configurada para operar de forma isolada.
Isso permite utilizar a fabricação digital sem transmitir necessariamente projetos e informações operacionais para servidores de terceiros.
Entretanto, operar uma impressora offline não elimina automaticamente todos os riscos de segurança. A proteção também depende da configuração da rede, da origem dos arquivos, das atualizações e dos procedimentos adotados pela organização.
Equipes de busca e salvamento também produzem acessórios em 3D
O uso da tecnologia não está limitado à estação central. Segundo a Prusa, unidades especializadas do Corpo de Bombeiros de Praga também utilizam fabricação aditiva para resolver problemas específicos.
No departamento técnico, profissionais produzem adaptadores de mangueiras, suportes de ferramentas e componentes internos de veículos.
Já as equipes de busca e salvamento urbano, conhecidas pela sigla USAR, utilizam impressão 3D para fabricar suportes leves de câmeras, caixas de proteção para sensores e acessórios de transporte.
Essas equipes podem atuar em situações de desabamento e terremotos, nas quais o peso dos equipamentos e a organização do material transportado interferem no deslocamento entre escombros.
Nesse contexto, a fabricação personalizada permite adaptar acessórios às características de cada ferramenta e às necessidades da operação.
Contudo, os relatos não indicam que peças estruturais críticas de resgate estejam sendo substituídas indiscriminadamente por componentes impressos.
Projeto já chegou a outros quartéis da República Tcheca
A experiência de Praga também incentivou a utilização de impressão 3D em outras unidades de bombeiros do país.
Segundo a Prusa, profissionais de diferentes regiões passaram a compartilhar modelos digitais, resultados de testes e orientações de fabricação.
Parte dessa colaboração utiliza a plataforma Printables, que permite distribuir arquivos de projetos tridimensionais e trocar informações entre usuários.
O modelo cria uma rede de conhecimento compartilhado. Em vez de cada quartel desenvolver isoladamente todas as soluções, as equipes podem estudar projetos existentes e adaptá-los às próprias necessidades.
Entretanto, o compartilhamento de um arquivo não substitui a necessidade de validar a peça. Um modelo utilizado satisfatoriamente em determinada situação pode exigir materiais ou parâmetros diferentes em outro ambiente.
Outro resultado relatado pela estação central está no envolvimento dos profissionais com atividades criativas entre os acionamentos. A equipe considera a fabricação de acessórios uma oportunidade de desenvolver habilidades e manter a concentração durante os períodos sem emergências.
Experiência mostra aplicação da impressão 3D nos serviços públicos
A iniciativa dos bombeiros tchecos demonstra uma aplicação da impressão 3D que vai além da produção de miniaturas, peças decorativas e protótipos.
O diferencial está na possibilidade de resolver problemas pequenos, mas recorrentes, diretamente no local onde eles surgem.
Um suporte que quebra, uma ferramenta mal posicionada ou um acessório difícil de encontrar pode não representar uma grande inovação tecnológica isoladamente. Entretanto, a solução desses problemas pode melhorar a organização e a disponibilidade dos equipamentos.
A experiência também oferece um exemplo para discutir o potencial da fabricação digital em serviços públicos brasileiros, especialmente nas atividades de manutenção, logística e preparação operacional.
Isso não significa que o mesmo modelo já esteja implantado nos corpos de bombeiros do Brasil. Para estabelecer essa comparação, seria necessário apurar projetos específicos e as normas aplicáveis aos equipamentos utilizados pelas corporações nacionais.
Em Praga, o principal resultado relatado é a combinação de fabricação personalizada, menor dependência de fornecedores e economia em determinados componentes. Com testes adequados e controle de qualidade, a impressão 3D passou a integrar a preparação cotidiana de equipes que precisam manter seus equipamentos prontos para situações de emergência.








