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Impressão 3D cria guia para acertar posição dos lábios em flauta japonesa

Músico toca shakuhachi, tradicional flauta japonesa de bambu.

Impressão 3D cria guia para acertar posição dos lábios em flauta japonesa | Reprodução

Uma técnica comum na odontologia digital encontrou uma aplicação inesperada na música. Pesquisadores japoneses criaram um guia impresso em 3D que ajuda a reproduzir a posição dos lábios ao tocar shakuhachi, tradicional flauta japonesa de bambu.

O dispositivo funciona como uma referência física entre o queixo e o instrumento. Dessa forma, ele ajuda a reproduzir distância, ângulo e posicionamento usados por um músico experiente para produzir o som.

Para chegar ao resultado, a equipe combinou escaneamento facial, escaneamento intraoral, digitalização do shakuhachi, modelagem CAD e impressão 3D em resina.

Pesquisadores do Institute of Science Tokyo, em colaboração com a Tokyo University of the Arts, desenvolveram o projeto. O Institute of Science Tokyo detalhou o processo de criação do dispositivo.

Shakuhachi exige precisão até para produzir o som

O problema parece simples até alguém tentar tocar o instrumento.

No shakuhachi, o músico precisa coordenar formato dos lábios, direção do ar e posição da flauta. Pequenas alterações nessa combinação podem mudar completamente a produção sonora.

Os músicos chamam essa configuração da boca de embocadura.

Para um iniciante, porém, surge outro obstáculo: boa parte dessa relação espacial permanece difícil de observar.

Um professor pode demonstrar a própria posição e corrigir o aluno. Ainda assim, distância, inclinação e ponto exato de contato nem sempre ficam claros apenas pela observação.

Por isso, os pesquisadores decidiram transformar essa informação tridimensional em um objeto físico.

Equipe digitalizou rosto, dentes e flauta

A pesquisa contou com um músico experiente em shakuhachi.

Primeiro, a equipe escaneou o rosto do instrumentista. Em seguida, realizou um escaneamento intraoral para registrar estruturas da boca e dos dentes.

Depois, os pesquisadores também digitalizaram o próprio shakuhachi.

Na etapa seguinte, o músico assumiu sua posição habitual de execução. Assim, a equipe conseguiu registrar a relação espacial entre rosto, lábios, dentes, queixo e instrumento.

Os pesquisadores reuniram todos esses dados em um software CAD.

Além disso, utilizaram referências anatômicas e odontológicas para alinhar corretamente os diferentes modelos digitais.

Guia começou como uma esfera de cerca de 70 mm

Depois de reconstruir digitalmente a posição do músico, a equipe criou um volume aproximadamente esférico de 70 milímetros de diâmetro entre o queixo e o shakuhachi.

Esse volume serviu como ponto de partida para o guia.

Em seguida, os pesquisadores transformaram o modelo em uma estrutura oca e mais leve.

A equipe também abriu uma janela na peça. Como o dispositivo seria produzido em resina, essa abertura permite que o material não curado saia do interior e facilita as etapas posteriores de limpeza.

Além disso, o projeto ganhou um braço de apoio ajustável, que permite pequenas correções de posicionamento.

Impressão usa tecnologia da odontologia

A equipe produziu o dispositivo por estereolitografia, ou SLA.

Nesse processo, uma fonte de luz solidifica seletivamente uma resina fotossensível e forma a peça camada por camada.

Os pesquisadores, entretanto, não escolheram uma resina decorativa comum.

Eles utilizaram um fotopolímero biocompatível empregado em guias cirúrgicos odontológicos. O material suporta os procedimentos de desinfecção necessários para esse tipo de aplicação.

A escolha faz sentido porque o fluxo de trabalho nasceu justamente da odontologia digital e da prótese dentária.

Normalmente, profissionais usam essas ferramentas para criar dispositivos relacionados à boca e aos dentes. Neste estudo, porém, a equipe levou a mesma lógica para uma relação espacial entre o rosto e um objeto externo.

Peça acompanha a anatomia do músico

O guia não funciona como um molde universal.

Os pesquisadores construíram o dispositivo a partir da morfologia dentofacial do músico analisado.

Portanto, dentes, rosto, queixo e posição dos lábios daquela pessoa fazem parte da geometria final.

A ideia é registrar uma posição considerada adequada e transformá-la em uma referência física que possa ser repetida.

Consequentemente, outro músico precisaria passar por novos escaneamentos para receber um guia verdadeiramente personalizado.

Músico experiente testou o dispositivo

O próprio instrumentista usado como referência testou a peça.

Na avaliação inicial, ele considerou positivos aspectos como estabilidade, encaixe e facilidade de utilização.

No entanto, o estudo ainda apresenta uma limitação importante.

A pesquisa funciona como prova de conceito. A equipe ainda não realizou uma validação objetiva capaz de demonstrar, por exemplo, o quanto o guia melhora a precisão do posicionamento.

Além disso, os pesquisadores ainda não testaram o dispositivo em um grupo de iniciantes para descobrir se ele realmente reduz o tempo necessário para aprender a embocadura.

Portanto, ainda seria prematuro afirmar que a impressão 3D criou um método comprovado para ensinar qualquer pessoa a tocar shakuhachi.

O estudo demonstrou outra coisa: é possível registrar uma relação espacial complexa e transformá-la em um guia físico personalizado.

Técnica pode ir além da música

Os pesquisadores enxergam aplicações além do shakuhachi.

A mesma lógica pode ajudar sempre que profissionais precisarem controlar com precisão a relação entre lábios, boca, rosto e um objeto externo.

Assim, a tecnologia pode interessar a áreas como próteses maxilofaciais, reabilitação orofacial, dispositivos personalizados e treinamento musical.

Isso explica por que uma pesquisa sobre uma flauta japonesa nasceu dentro de uma área ligada à odontologia.

O instrumento serviu como prova de conceito para uma ideia mais ampla: transformar posições difíceis de registrar em objetos físicos reproduzíveis digitalmente.

O Folha do Leste mostrou recentemente outro extremo dessa tecnologia, quando a impressão 3D reduziu de meses para um dia a espera por determinadas peças em uma fábrica de Ford e Mazda.

Neste caso, porém, a escala muda completamente.

Em vez de acelerar uma linha automotiva, a impressão 3D tenta controlar alguns milímetros de diferença entre um rosto, um sopro e uma flauta.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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