“Niterói não é a zona leste do Rio de Janeiro.” Com essa frase, o cientista político Christian Lynch resumiu uma das discussões mais fortes da FLIN 2026 sobre a história política da cidade. A mesa “Fusão Autoritária e o Futuro do Rio de Janeiro”, realizada neste sábado (15), retomou os efeitos da fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, em 1975.
O debate colocou no centro temas como a perda de Niterói da condição de capital estadual, a identidade fluminense e a memória política do antigo Estado do Rio. Além disso, Lynch defendeu que a fusão ajudou a deslocar a leitura histórica do estado para uma perspectiva cada vez mais carioca.
Fusão de 1975 tirou Niterói da capital
A Lei Complementar nº 20, de 1º de julho de 1974, determinou a fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. A nova configuração estadual entrou em vigor em 15 de março de 1975, durante a ditadura militar.
Com a mudança, a cidade do Rio de Janeiro assumiu a capital do novo estado. Niterói, por sua vez, perdeu o posto que ocupava no antigo Estado do Rio.
Além disso, a população não decidiu a fusão por consulta direta. Por isso, os participantes da mesa trataram a mudança como uma decisão imposta pelo regime militar, com efeitos políticos e simbólicos.
Lynch vê apagamento da identidade fluminense
Na avaliação de Christian Lynch, a fusão alterou a forma como o estado passou a contar sua própria história. Para ele, a mudança reduziu a visibilidade de uma identidade fluminense não carioca.
“A fusão foi um ato de império da ditadura militar. A gente só consegue perceber esses efeitos estranhos quando comparados com outros estados. Niterói tem uma história própria, tem uma identidade própria. Ela não é carioca. É uma outra coisa. Essa identidade fluminense, não carioca, é bastante delimitada. Acho que ainda é Niterói. Niterói não é a zona leste do Rio de Janeiro.”
Assim, Lynch não tratou apenas de uma antiga mudança administrativa. Ele apontou uma disputa de memória. Na leitura dele, Niterói não deve ocupar o lugar simbólico de extensão do Rio, mas o de cidade com trajetória própria.
Perda da capital ainda pesa no debate
O fato histórico não deixa dúvida: Niterói perdeu a condição de capital em 1975. No entanto, as consequências econômicas, políticas e simbólicas dessa perda ainda dependem de interpretação histórica.
Durante a mesa, Lynch e os demais participantes relacionaram a fusão a um esvaziamento do papel político de Niterói. Também associaram a mudança a uma “carioquização” da memória regional.
Essa leitura explica por que o tema ainda provoca debate 51 anos depois. Afinal, a discussão não trata apenas da sede do governo estadual. Ela também envolve pertencimento, identidade e o lugar de Niterói no Estado do Rio.
Rodrigo Neves defendeu protagonismo de Niterói
O prefeito Rodrigo Neves também participou da mesa. Em sua fala, ele defendeu que Niterói mantém papel político relevante no estado e classificou a cidade como “a capital da boa gestão, da democracia e da qualidade de vida do país”.
A declaração expressa a avaliação política do prefeito. Ainda assim, ela entrou no debate sobre o lugar ocupado por Niterói depois da fusão.
No entanto, o eixo da mesa permaneceu na mudança de 1975 e nos efeitos que ela ainda produz na leitura sobre a identidade fluminense.
Discussão voltou à cena na FLIN
A discussão sobre a fusão voltou ao debate público durante a Festa Literária Internacional de Niterói, que chega ao último dia neste domingo (16), no Reserva Cultural, em São Domingos.
A edição de 2026 tem como tema “Territórios das Palavras” e homenageia Lélia Gonzalez. Portanto, a mesa sobre a fusão dialogou com uma programação voltada a território, memória, linguagem e identidade.
No sábado, a FLIN também recebeu nomes como Conceição Evaristo, Ana Paula Araújo e Luiz Antonio Simas. Cada participação, porém, tratou de temas próprios e pode render abordagens específicas.
No caso da mesa sobre a fusão, a força jornalística esteve na pergunta que atravessa Niterói desde 1975: a cidade perdeu a capital, mas que lugar ainda ocupa na identidade fluminense?








