O presidente da CBF, Samir Xaud, posicionou-se pela primeira vez contra a Fifa Forward Enterprise, projeto que previa abrir parte dos negócios comerciais da Fifa a investidores privados. A proposta desencadeou uma forte reação internacional e acabou retirada por Gianni Infantino no último sábado (1º).
Durante agenda em Teresina nesta quarta-feira (5), Xaud afirmou que não via a iniciativa com bons olhos. Além disso, indicou que a CBF vinha discutindo o assunto dentro da Conmebol antes da retirada do projeto.
“Estamos conversando com a Conmebol em relação a este assunto, mas é uma coisa que a gente não vê com bons olhos”, afirmou.
Em seguida, o presidente da CBF deixou clara sua posição pessoal.
“Vamos tomar uma decisão em bloco, junto com a Conmebol, mas eu, particularmente, sou um pouco contra essa venda dos direitos”, disse.
Samir Xaud se posiciona contra projeto da Fifa
A declaração ocorreu durante a passagem do dirigente pelo Piauí, onde participou de uma agenda relacionada ao desenvolvimento do futebol local.
Até então, a CBF não havia apresentado uma posição pública contundente sobre a proposta idealizada pela gestão Infantino.
Já a Conmebol adotou uma postura cautelosa. Em 31 de julho, a entidade sul-americana informou que havia solicitado informações adicionais à Fifa sobre estrutura, governança e possíveis consequências da operação. Paralelamente, iniciou consultas com suas dez associações filiadas.
Portanto, diferentemente de outras confederações, a entidade sul-americana não chegou a anunciar apoio ou rejeição formal antes de Infantino retirar o projeto.
O que era a Fifa Forward Enterprise
A Fifa apresentou publicamente o projeto em 28 de julho.
A proposta previa criar a Fifa Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária que concentraria as operações comerciais e de eventos da entidade. Entre elas estariam direitos de transmissão, patrocínios, licenciamento, ingressos e a exploração comercial de torneios.
A Fifa estimava a nova companhia inicialmente em US$ 20 bilhões.
Além disso, pretendia levantar até US$ 4,2 bilhões com investidores privados, que receberiam uma participação minoritária e sem poder de controle. A estrutura divulgada apontava para uma fatia próxima de 20%, e não para uma venda entre 20% e 30% como chegou a circular inicialmente.
A entidade permaneceria controladora da empresa.
Segundo a própria Fifa, decisões sobre governança do futebol, regulamentos, competições e calendário continuariam exclusivamente sob sua responsabilidade.
Fifa prometia ampliar repasses às federações
Infantino apresentou a operação como uma maneira de financiar o desenvolvimento do futebol.
Caso o projeto avançasse, cada uma das 211 associações filiadas poderia acessar até US$ 20 milhões adicionais para projetos especiais.
Além disso, a Fifa planejava elevar os repasses do programa Forward de US$ 8 milhões para US$ 20 milhões por federação no ciclo de 2027 a 2030. Posteriormente, os valores aumentariam novamente.
Assim, a Fifa sustentava que o capital privado permitiria antecipar recursos sem entregar aos investidores o controle esportivo das competições.
A explicação, contudo, não convenceu algumas das maiores confederações do futebol mundial.
Uefa, Concacaf e AFC rejeitaram proposta
A Uefa liderou a oposição. A entidade europeia rejeitou a transferência de participação econômica sobre competições da Fifa para investidores privados e questionou especialmente o processo de elaboração da proposta.
Depois, a Concacaf, responsável pela América do Norte, América Central e Caribe, adotou posição semelhante.
A AFC, da Ásia, também se colocou contra o projeto. Seu presidente, Sheikh Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, criticou a falta de consulta prévia e pediu mudanças na forma como decisões estratégicas são conduzidas dentro da Fifa.
Consequentemente, Infantino passou a enfrentar resistência simultânea em três confederações.
Críticos temiam pressão comercial sobre competições
Entre as principais preocupações estava a entrada de investidores privados diretamente na estrutura responsável pelos negócios dos campeonatos.
Críticos argumentavam que acionistas naturalmente buscariam aumentar receitas e valorização da empresa.
Nesse cenário, surgiram questionamentos sobre eventual pressão futura por mais partidas, expansão de competições ou novas mudanças no calendário.
A Fifa, porém, rejeitou essa interpretação.
Segundo a entidade, a nova empresa não teria autoridade para decidir sobre calendário, regulamentos ou formatos das competições. Esse poder continuaria exclusivamente com a própria Fifa.
Portanto, a possibilidade de investidores influenciarem diretamente a periodicidade da Copa era uma preocupação levantada pelos opositores, e não uma previsão formal incluída no projeto.
Infantino retirou projeto após reação internacional
A resistência ganhou força rapidamente. Em 1º de agosto, Infantino anunciou que a proposta não seguiria adiante. O presidente da Fifa reconheceu que o projeto havia provocado divisões incompatíveis com o objetivo inicial da entidade.
Assim, a Fifa Forward Enterprise acabou abandonada apenas quatro dias depois de sua apresentação pública.
A decisão, contudo, não encerrou a crise.
Confederações e dirigentes passaram a questionar não apenas o conteúdo da proposta, mas também como ela chegou a um estágio avançado sem uma discussão mais ampla dentro das estruturas de governança.
Crise passa a atingir liderança de Infantino
O desgaste alcançou o próprio presidente da Fifa. A Reuters informou nesta quarta-feira que Infantino realizou reuniões no Marrocos diante da crescente contestação interna e externa. Além disso, integrantes importantes da estrutura da entidade se afastaram da proposta.
O ex-presidente da Federação dos Estados Unidos Carlos Cordeiro, que atuava como conselheiro sênior de Infantino, deixou o cargo durante a crise e declarou publicamente oposição ao projeto.
Ao mesmo tempo, algumas associações começaram a reavaliar o apoio à reeleição do suíço-italiano. A disputa presidencial da Fifa acontecerá em 2027.
Luís Figo pede renúncia de Infantino
Nesta quarta-feira, a pressão ganhou outro componente. O ex-jogador português Luís Figo pediu publicamente a saída de Infantino da presidência. Figo, que já apoiou o dirigente no passado, publicou fortes críticas à condução da entidade durante a crise.
No entanto, isso não significa que exista atualmente um processo formal para retirar Infantino do cargo.
O cenário é de pressão política crescente, perda de apoios e questionamentos sobre sua liderança. Até agora, porém, ele permanece presidente da Fifa e não anunciou intenção de renunciar.
Samir Xaud defende posição conjunta da Conmebol
Nesse ambiente, a declaração do presidente da CBF ganha peso político.
Samir evitou transformar sua posição pessoal em uma decisão institucional de toda a América do Sul.
“Vamos tomar uma decisão em bloco, junto com a Conmebol”, afirmou.
Entretanto, o dirigente também não escondeu sua resistência à entrada de investidores privados nesse modelo.
A fala ocorre depois que a própria Conmebol pediu esclarecimentos e consultou suas associações filiadas.
Com a retirada do projeto, uma eventual votação sobre a Fifa Forward Enterprise deixou de ser necessária nos moldes apresentados inicialmente.
Ainda assim, o episódio abriu uma discussão maior sobre até onde a Fifa pode aproximar capital privado da exploração comercial de seus torneios.
Além disso, a crise transformou uma proposta financeira em um teste de força para Gianni Infantino.
Agora, a posição revelada por Samir coloca oficialmente o presidente da CBF entre os dirigentes que demonstraram resistência ao projeto que provocou a maior crise recente da atual administração da Fifa.








