
Fim das bets abre disputa entre clubes por mudança no fair play financeiro | Joédson Alves/Agência Brasil
A proibição das bets abriu uma segunda frente de disputa no futebol brasileiro, além das ações apresentadas ao Supremo Tribunal Federal. Parte dos clubes das Séries A e B começou a articular um pedido para flexibilizar uma das etapas do fair play financeiro da CBF, alegando queda abrupta das receitas de patrocínio.
O movimento, porém, ainda não virou proposta oficial. Dirigentes trabalham na redação de um documento e buscam assinaturas antes de encaminhá-lo à Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF).
Além disso, a ideia divide os clubes.
Enquanto algumas equipes defendem mais prazo para reorganizar dívidas antigas diante da nova realidade financeira, outras resistem a qualquer afrouxamento das regras. O argumento desse segundo grupo é que clubes que mantiveram as contas em ordem não deveriam perder uma vantagem competitiva diante de adversários que gastaram acima da própria capacidade.
Assim, o fim das bets começa a produzir uma discussão que ultrapassa os contratos de patrocínio: até que ponto uma perda inesperada de receita deve alterar as regras de responsabilidade financeira já assumidas pelos clubes?
Clubes querem rever prazo para dívidas antigas
O principal pedido em discussão envolve o prazo para regularização de passivos anteriores ao início do novo sistema de sustentabilidade financeira.
O fair play brasileiro começou a valer em 1º de janeiro de 2026.
Desde então, a ANRESF acompanha pagamentos em atraso e diferentes indicadores financeiros dos clubes das Séries A e B.
A implantação ocorre de forma gradual. Uma das próximas etapas ampliará a cobrança sobre dívidas anteriores à entrada em vigor das regras.
Parte dos dirigentes considera que a perda repentina dos patrocínios das casas de apostas altera as premissas utilizadas quando os clubes montaram seus orçamentos.
Por isso, esse grupo pretende pedir mais tempo para regularizar passivos antigos.
A discussão não envolve, neste momento, uma suspensão completa do fair play.
Débitos de 2026 já entram na fiscalização
Há outra distinção importante.
Os clubes já precisam manter em dia obrigações correntes assumidas durante 2026.
A ANRESF estabeleceu ao longo do ano diferentes datas para declaração de pagamentos e apresentação de informações financeiras.
Em março, por exemplo, os times precisaram informar débitos em atraso com clubes, funcionários e autoridades públicas.
Além disso, entregaram demonstrações financeiras, informações societárias e outros dados utilizados pelo novo sistema.
Portanto, a discussão atual mira principalmente o processo de adequação dos passivos anteriores.
Ela não elimina automaticamente a fiscalização dos compromissos assumidos agora.
Parte dos clubes rejeita flexibilização
O movimento encontra resistência dentro do próprio futebol.
Clubes com situação financeira mais organizada defendem que o regulamento continue seguindo o cronograma estabelecido.
A preocupação está na competição esportiva.
Um clube que paga salários, impostos e transferências dentro dos prazos precisa adequar sua capacidade de investimento às receitas disponíveis.
Já um adversário que acumula dívidas pode utilizar recursos para manter uma folha salarial maior ou contratar jogadores.
Por isso, dirigentes contrários à flexibilização argumentam que estender indefinidamente os prazos poderia premiar quem assumiu compromissos acima da própria capacidade financeira.
Essa divergência deve aparecer quando a proposta chegar formalmente à ANRESF.
Bets mudaram planejamento de receitas
O problema surgiu depois da publicação da Medida Provisória 1.394/2026, em 25 de setembro.
O texto proibiu no Brasil a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa.
A proibição também alcança marketing e patrocínios.
Consequentemente, clubes que haviam projetado receitas para 2027 com contratos de casas de apostas começaram a rever seus orçamentos.
O caso mais explícito veio do Flamengo.
O Folha do Leste mostrou que José Boto admite que o Flamengo pode precisar vender até três jogadores no cenário financeiro mais adverso sem as receitas das bets.
Antes disso, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, havia estimado uma perda de até R$ 430 milhões nas receitas projetadas para 2027.
Essa projeção pertence à direção do Flamengo e considera diferentes efeitos financeiros ligados à mudança no mercado de apostas.
Clubes também recorrem ao STF
Enquanto parte das equipes tenta discutir o fair play, outra frente avança no Judiciário.
Flamengo, Botafogo, São Paulo, Ponte Preta, Vitória, Guarani e Portuguesa SAF apresentaram pedidos relacionados às ações que tramitam no Supremo sobre o setor de apostas.
O Flamengo já conseguiu autorização de Luiz Fux para participar de três processos como amicus curiae.
Como explicou o Folha do Leste após a decisão de Fux, essa admissão permite ao clube apresentar argumentos e documentos, mas não suspendeu a MP nem restabeleceu as operações das bets.
Os demais pedidos ainda precisam passar pela análise correspondente.
Assim, existem hoje duas discussões diferentes.
No STF, clubes tentam interferir judicialmente na nova realidade das apostas.
Dentro do futebol, dirigentes começam a avaliar como adaptar as próprias regras financeiras caso essa realidade permaneça.
Fair play começou a funcionar em 2026
A CBF apresentou o Sistema de Sustentabilidade Financeira no fim de 2025.
O modelo estabelece controles sobre dívidas, gastos com elenco, endividamento e equilíbrio operacional.
Para fiscalizá-lo, a entidade criou a ANRESF como órgão independente de monitoramento e julgamento.
A implementação começou neste ano.
Entre as obrigações já estabelecidas aparecem a declaração periódica da situação dos pagamentos, a entrega de demonstrações financeiras e o acompanhamento de compromissos vencidos.
O sistema também prevê sanções caso clubes descumpram as regras.
Portanto, qualquer alteração nos prazos pode produzir consequência direta sobre a forma como os times planejam contratações, salários e pagamento de dívidas.
ANRESF ainda não recebeu proposta oficial
Apesar da movimentação dos dirigentes, ainda existe uma etapa fundamental.
Nenhum pedido formal de flexibilização chegou à ANRESF até o momento.
A agência só deverá avaliar a questão depois que receber um documento oficial.
Uma reunião prevista para outubro também deverá discutir especialmente a situação das dívidas tributárias e os caminhos utilizados pelos clubes para regularizá-las.
Até lá, permanecem válidas as normas já estabelecidas.
Isso significa que a discussão ainda está no campo da articulação política entre os clubes, sem mudança concreta no regulamento.
Fim das bets coloca dois princípios em choque
A controvérsia cria uma questão inédita logo no primeiro ano do fair play brasileiro.
De um lado, clubes alegam que perderam receitas previstas em contratos legais quando seus orçamentos foram montados e, por isso, defendem tempo adicional para absorver o impacto.
Do outro, equipes financeiramente ajustadas argumentam que a essência do fair play consiste justamente em obrigar cada clube a operar dentro da capacidade econômica disponível.
A decisão, quando houver uma proposta formal, caberá à estrutura regulatória criada pela CBF.
Por enquanto, uma coisa já ficou clara: o fim das bets não mexeu apenas nas camisas dos clubes. Começou também a testar as primeiras regras do recém-criado fair play financeiro brasileiro.







