Durante muitos anos, discutir a retomada de uma fábrica de semicondutores no Brasil parecia quase um exercício de nostalgia. Enquanto Estados Unidos, Taiwan, Coreia do Sul e China aceleravam investimentos e ampliavam competências, o país chegou a colocar sua única estatal fabricante de chips em processo de liquidação.
Talvez, porém, nosso maior problema nunca tenha sido simplesmente produzir semicondutores.
O problema pode ter sido tentar participar dessa corrida da maneira errada.
A reativação do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec) abre agora uma oportunidade diferente. Em vez de tentar reproduzir uma competição na qual os líderes globais acumulam décadas de vantagem, o Brasil começa a olhar para nichos tecnológicos conectados à própria transformação industrial.
Um deles pode ser decisivo: os semicondutores de potência em carbeto de silício (SiC).
O automóvel mudou — e o chip mudou junto
A indústria automobilística mundial passou por uma transformação profunda.
Durante mais de um século, boa parte da evolução do automóvel esteve concentrada no aperfeiçoamento de motores, transmissões, suspensões, segurança e processos produtivos.
Esses elementos continuam importantes. Entretanto, uma parcela crescente da inovação migrou para a eletrônica.
A eletrificação, os veículos definidos por software, os sistemas avançados de assistência à condução, a conectividade e as arquiteturas elétricas de alta tensão ampliaram drasticamente a importância dos semicondutores.
Um automóvel eletrificado moderno depende de centenas de chips para controlar diferentes funções.
Eles estão presentes no gerenciamento da bateria, inversores, motores elétricos, carregadores, sistemas de segurança, sensores, conectividade, entretenimento e unidades eletrônicas de controle.
Assim, parte considerável do diferencial competitivo deixou de estar exclusivamente na mecânica.
Ele também passou a depender da capacidade de controlar energia, processar informações e integrar hardware e software.
É justamente nesse ponto que a nova estratégia da Ceitec merece atenção.
Por que o carbeto de silício importa
A empresa está direcionando parte central de sua retomada para dispositivos semicondutores de potência produzidos com carbeto de silício, conhecido pela sigla SiC.
Fora dos círculos técnicos, o material ainda é pouco conhecido.
Dentro da indústria de eletrônica de potência, porém, tornou-se uma tecnologia estratégica.
Comparados aos semicondutores tradicionais de silício em diversas aplicações de potência, dispositivos de SiC podem trabalhar com tensões e temperaturas mais elevadas e apresentar menores perdas energéticas.
Na prática, isso permite desenvolver inversores mais eficientes, sistemas mais compactos e arquiteturas elétricas capazes de trabalhar com níveis mais elevados de tensão.
Em veículos elétricos, esses ganhos podem contribuir para reduzir perdas, diminuir necessidades de refrigeração, reduzir peso e aproveitar melhor a energia armazenada nas baterias.
O Departamento de Energia dos Estados Unidos aponta justamente maior eficiência e capacidade de operação em temperaturas elevadas entre as principais vantagens dos semicondutores de banda larga, categoria na qual se enquadram SiC e nitreto de gálio.
A instituição também relaciona esses dispositivos a inversores, conversores DC/DC e carregadores utilizados em veículos eletrificados.
Portanto, não estamos falando apenas de um novo tipo de chip.
Estamos falando de uma tecnologia diretamente ligada à eletrificação da mobilidade.
Montadoras já incorporaram o SiC
Essa transformação não pertence a um futuro distante.
Fabricantes globais já incorporam semicondutores de carbeto de silício em sistemas de propulsão elétrica.
A Hyundai, por exemplo, utiliza módulos com SiC na plataforma elétrica E-GMP. Segundo a própria fabricante, a tecnologia melhora a eficiência do sistema e pode ampliar a distância percorrida com a mesma quantidade de energia.
A Mercedes-Benz também utiliza inversores de carbeto de silício em sistemas elétricos desenvolvidos pela empresa.
Além disso, Hyundai e Kia firmaram acordo estratégico com a Infineon para assegurar o fornecimento de semicondutores de potência, incluindo módulos SiC, para veículos eletrificados.
Isso demonstra que a discussão deixou de ser experimental.
Os semicondutores de potência estão entrando no centro da estratégia das montadoras.
Brasil não precisa disputar com TSMC pela mesma corrida
É exatamente aqui que considero acertada a mudança de perspectiva brasileira.
O Brasil não tem, neste momento, condições razoáveis de pretender competir diretamente com gigantes como TSMC, Samsung ou Intel na fronteira dos processadores mais sofisticados do planeta.
Não faria sentido começar uma política industrial imaginando que R$ 220 milhões transformariam a Ceitec em concorrente de fabricantes que investem dezenas de bilhões de dólares em novas plantas.
Também não parece realista imaginar, neste estágio, uma liderança brasileira na fabricação dos processadores mais avançados usados em inteligência artificial ou smartphones.
Mas isso não significa abandonar a indústria de semicondutores.
Significa escolher a corrida certa.
O Brasil pode desenvolver competências em segmentos específicos onde exista demanda crescente, conexão com sua base industrial e espaço para formação tecnológica doméstica.
Os semicondutores de potência representam justamente uma dessas possibilidades.
Não se trata de fabricar qualquer chip
Essa diferença revela, em minha avaliação, uma maturidade maior no planejamento industrial.
E, por que não reconhecer, representa uma visão de Estado de longo prazo que tantas vezes critiquei neste espaço.
Não se trata de fabricar qualquer chip apenas para afirmar que o Brasil possui uma indústria de semicondutores.
Trata-se de escolher componentes conectados às transformações industriais que já estão acontecendo.
A Ceitec pretende adaptar sua plataforma industrial para fabricação de dispositivos de SiC. O projeto inclui transferência internacional de tecnologia, licenciamento de patentes e internalização de novos processos produtivos.
Esse detalhe é fundamental.
Transferência de tecnologia não é necessariamente dependência
Existe uma tendência equivocada de tratar transferência tecnológica como sinônimo automático de dependência.
A história industrial mostra algo diferente.
A China estruturou parte importante de sua indústria automobilística por meio de joint ventures, absorção de conhecimento e planejamento de longo prazo.
Coreia do Sul e Taiwan também passaram por períodos de aquisição de tecnologia estrangeira, formação intensa de engenheiros, desenvolvimento de fornecedores e progressivo domínio de processos mais sofisticados.
Transferência tecnológica, quando associada a uma estratégia de absorção de conhecimento, pode reduzir a curva de aprendizado.
O problema surge quando o país permanece indefinidamente dependente da tecnologia importada.
Portanto, a questão decisiva não é saber se a Ceitec receberá conhecimento externo.
É saber quanto desse conhecimento conseguiremos internalizar, reproduzir, aperfeiçoar e transformar em capacidade própria.
Uma fábrica sozinha não cria uma indústria
Também não podemos cair no erro oposto.
Uma fábrica de semicondutores, isoladamente, não cria um ecossistema tecnológico.
A indústria mundial de chips está entre as mais sofisticadas e competitivas do planeta. Os ciclos de inovação são rápidos, o investimento necessário é elevado e os padrões de qualidade e confiabilidade são extremamente rigorosos.
No setor automotivo, essas exigências tornam-se ainda maiores.
Portanto, a Ceitec precisará estar conectada a um ambiente muito mais amplo.
Universidades, centros de pesquisa, empresas de encapsulamento e testes, desenvolvedores de eletrônica de potência, fabricantes de equipamentos, fornecedores de materiais e consumidores industriais precisam participar dessa cadeia.
Não basta produzir.
É necessário criar mercado, desenvolver aplicações e estabelecer demanda.
Sem compradores, qual seria o propósito de desenvolver uma estrutura industrial tão complexa?
O caminho é longo.
A indústria automobilística pode ser parte desse ecossistema
Para o setor automobilístico brasileiro, considero que a importância da iniciativa ultrapassa a eventual compra direta de componentes da Ceitec.
Veículos definidos por software, eletrificação, novas redes de recarga e arquiteturas elétricas de maior tensão aumentam continuamente a importância da eletrônica de potência.
Mesmo que a estatal não se transforme imediatamente em fornecedora das grandes montadoras instaladas no país, desenvolver conhecimento nessa área fortalece um elo estratégico da cadeia produtiva.
E talvez esteja aí o principal ganho.
Aumentar o conteúdo tecnológico desenvolvido no Brasil.
O semicondutor pode ser o produto final de uma fábrica, mas sua existência depende de uma cadeia muito maior.
Ela envolve engenheiros, pesquisadores, laboratórios, propriedade intelectual, softwares de projeto, materiais avançados, equipamentos e processos industriais altamente sofisticados.
Quando um país desenvolve capacidade nessa área, não desenvolve apenas um componente.
Desenvolve conhecimento.
R$ 220 milhões não fazem milagre
É preciso, naturalmente, manter os pés no chão.
A Ceitec receberá até R$ 220 milhões em recursos destinados à nova rota tecnológica, com foco em dispositivos de carbeto de silício relacionados à transição energética e à descarbonização.
É um investimento importante para a realidade brasileira.
Mas não faz milagres.
A indústria mundial de semicondutores trabalha com cifras muito superiores.
Portanto, seria um erro transformar a retomada da Ceitec em discurso triunfalista sobre uma suposta independência tecnológica brasileira.
Ela não existe.
Nem será criada com um único investimento.
O próprio processo de liquidação iniciado anos atrás provocou perda de profissionais e aumentou a distância tecnológica que a empresa precisará recuperar.
Isso torna a reconstrução ainda mais complexa.
A Ceitec já começou a voltar ao mercado
Apesar das dificuldades, existem sinais concretos de retomada.
O governo reverteu formalmente o processo de liquidação em novembro de 2023.
Durante 2025, a Ceitec voltou a comercializar produtos de seu portfólio de identificação por radiofrequência (RFID).
Ao mesmo tempo, avançou na implantação da nova rota de carbeto de silício.
Portanto, a empresa não parte exatamente do zero, embora precise reconstruir capacidade industrial, técnica e comercial depois de anos de incerteza.
Esse talvez seja um dos maiores desafios.
Tecnologia exige continuidade.
Semicondutores voltaram à política industrial mundial
Existe ainda um contexto internacional que o Brasil não pode ignorar.
A pandemia e as sucessivas interrupções das cadeias produtivas mostraram a vulnerabilidade criada pela concentração geográfica da indústria de semicondutores.
Desde então, diversas economias passaram a tratar chips não apenas como componentes comerciais, mas como ativos estratégicos.
Os Estados Unidos mobilizaram bilhões de dólares para ampliar sua capacidade doméstica.
União Europeia, Japão, Índia, China e outras economias também desenvolveram programas para atrair investimentos, ampliar pesquisa e reduzir vulnerabilidades nas cadeias de fornecimento.
Não fazem isso apenas porque desejam produzir chips mais baratos.
Fazem porque semicondutores passaram a representar segurança econômica, industrial e tecnológica.
O Brasil dificilmente alcançará a mesma escala.
Mas escala não é a única maneira de participar dessa indústria.
Escolher onde competir pode ser mais importante
O Brasil precisa definir onde consegue construir vantagens e conhecimento.
Talvez a decisão de apostar em eletrônica de potência seja mais relevante justamente por reconhecer nossas limitações.
Na economia da eletrificação, a vantagem competitiva não será definida apenas por quem monta automóveis.
Ela também dependerá de quem domina motores elétricos, baterias, inversores, sistemas eletrônicos, softwares e os componentes responsáveis por controlar a energia que movimenta esses veículos.
Nesse sentido, a Ceitec pode ocupar uma pequena, porém estratégica, posição.
Não transformará o Brasil em potência mundial dos semicondutores.
R$ 220 milhões não resolverão um desafio tecnológico dessa magnitude.
Mas talvez o legado mais importante dessa retomada esteja em uma pergunta muito maior.
Como o Brasil deseja participar da próxima geração industrial?
Como simples consumidor de tecnologia de alto valor agregado?
Ou como desenvolvedor de conhecimento?
Como fornecedor de matérias-primas?
Ou também como criador da inteligência aplicada sobre elas?
Esta, sim, é a discussão na qual o Brasil precisa se envolver.







