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Vídeo Viral: concessionária Ecovias, da Ponte Rio-Niterói explica “corrosão” no pilar 84

Vídeo viral mostrou pilar da Ponte Rio-Niterói; Ecovias Ponte afirma que elemento está desativado e monitorado.

Vídeo viral mostrou pilar da Ponte Rio-Niterói; Ecovias Ponte afirma que elemento está desativado e monitorado.

Um vídeo que se tornou viral em aplicativos de comunicação e redes sociais, mostrando sinais de corrosão no pilar 84 da Ponte Rio-Niterói gerou pânico, medo e críticas de usuários da estrutura de engenharia civil à concessionária que administra os 13,2 quilômetros da rodovia. Para não deixar o conteúdo ser complementado por suposições ou pela imaginação das pessoas, o Folha do Leste buscou explicações para a situação que, de fato, merece respostas.

 

Por essa razão, abordamos diretamente a concessionária Ecovias Ponte. Desde 2015, a empresa administra esse trecho específico da rodovia BR-101. Em resposta à nossa reportagem, comentando especificamente sobre pilar mostrado no vídeo, a Ecovias Ponte esclareceu que o elemento se trata de um pilar desativado. Além disso, a concessionária afirmou que a situação é de seu conhecimento e que realiza seu monitoramento de forma permanente.

Ainda respondendo aos questionamento nossa reportagem, na manhã desta sexta-feira, a Ecovias também reiterou que a Ponte Rio–Niterói opera normalmente, com total segurança para seus usuários.

“O referido pilar permanece no local por não oferecer qualquer risco à estrutura da ponte, não exercer função estrutural e não haver necessidade técnica para sua remoção”.

A concessionária ainda reforçou quais procedimentos adota no monitoramento desse pilar, dizendo que tem compromisso com a transparência, a manutenção preventiva e a segurança de todos que utilizam a via:

Além do monitoramento contínuo, o elemento passa regularmente por inspeções especializadas, incluindo avaliações subaquáticas, seguindo rigorosos protocolos de engenharia e segurança”.

 
 


 

Ponte requer diagnóstico de segurança mais amplo

Apesar da explicação sobre o vídeo viral, em seus 52 anos, a Ponte Rio-Niterói não tem um diagnóstico com um “quadro de saúde” que melhor definido. Haja vista seu histórico técnico de colisões, armaduras expostas, corrosão em elementos metálicos, inspeções subaquáticas e relatórios oficiais que falam em segurança, mas também reconhecem danos localizados.

Engenheiro que participou da construção da Ponte Rio-Niterói fala sobre matérias usados na obra

Em entrevista ao repórter Élcio Braga, de O Globo, em 2024, na ocasião das comemorações dos 50 anos da ponte, o engenheiro Marnio Camacho, que trabalhou na construção do vão central, comentou o sentimento das pessoas em geral no período das obras. Especificamente, entre 1968 a 1974.

Ele relembrou que havia expectativa pela geração de milhares de empregos, mas considerou as perspectivas de bons negócios junto aos fornecedores de insumos.

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Por outro lado, para a engenharia brasileira, o clima era de preocupação. Sobretudo, com os desafios de concretização do projeto sobre o mar da Baía de Guanabara.

O engenheiro destacou a importância do uso de materiais químicos na obra. Principalmente, o de aditivos. Em alguns momentos para agilizar, bem como noutros retardar pegas. Enfim, voltados a dotar de plasticidade ideal cada tipo de uso, visando possibilitar bombeamentos, tornar resistível a ambiente salobros, desformas sem máculas, enfim, tudo necessário para cada tipo de uso.

No processo de montagens das aduelas, foram utilizados cabos protendidos e, para garantir a perfeita junção entre cada aduela, foi usado a resina epóxi até então de uso inédito no Brasil” — contou o engenheiro a O Globo, sobre processo de montagem dos blocos da ponte.

Mergulhadores do Fantástico

Em 09 de janeiro de 2001, uma terça-feira, o jornal Folha de São Paulo publicou matéria intitulada “Corrosão ataca base da ponte Rio-Niterói”, de autoria da repórter Viviane Paula Viana.

Tratava-se, naquela época, da repercussão de uma reportagem televisiva, realizada pelo dominical “Fantástico”, da Rede Globo, revelando imagens captadas por mergulhadores mostrando “o pedaço de um bloco sob o vão central com vergalhões e madeiras apodrecidos”.

Naquela época, a chamada do Jornal Hoje, da segunda-feira, 06/01, dizia:

Uma comissão de engenheiros vai analisar a corrosão na ponte Rio-Niterói, mostrada no Fantástico. O ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, quer saber se houve negligência da empresa concessionária. A base de um dos blocos que ficam em torno das colunas de sustentação da ponte, a seis metros de profundidade, está corroída”.

Agora, 26 anos depois, toma-se conhecimento de fato semelhante. Se outrora mergulhadores registraram as imagens, o trabalho de cinegrafia coube a um “caiaqueiro”. Felizmente, em um caso que também teve respostas.

Linha do tempo enxuta para entrar depois de “Outros casos”

Histórico técnico e episódios anteriores

1974 a 1979 — Manutenção quase inexistente

Reportagem de O Globo sobre os 40 anos da ponte registrou que, entre 1974 e 1979, a Ponte Rio-Niterói ficou praticamente sem investimento em inspeções, obras e monitoramento.

1978 — Cargueiro Iracema atinge pilares

Em 16 de maio de 1978, o cargueiro Iracema, do Lloyd Brasileiro, atingiu os pilares 170 e 171 da Ponte Rio-Niterói. O episódio aparece no histórico de colisões marítimas da estrutura.

1996 — Cargueiro Docemar deixa ferragens expostas

Em 4 de fevereiro de 1996, o cargueiro Docemar se soltou na Baía de Guanabara e bateu três vezes contra a ponte. Segundo O Globo, estruturas de ferro dos pilares ficaram expostas.

1999 — navio Fátima abre buraco em pilar

Durante uma tempestade, o navio Fátima atingiu três pilares. O pilar 92 ficou com um buraco de cerca de dois metros no concreto, deixando vergalhões expostos e retorcidos.

2001 — Folha registra corrosão na base da ponte

Em 9 de janeiro de 2001, a Folha de S.Paulo publicou a reportagem “Corrosão ataca base da ponte Rio-Niterói”. O texto citava imagens de mergulhadores exibidas no Fantástico, com vergalhões e madeiras apodrecidos em um bloco sob o vão central. A Ponte S.A, concessionária naquele tempo, afirmou, na época, que a parte afetada não tinha função estrutural.

2008 — ANTT aponta fissuras e perda de protensão

A Nota Técnica nº 161/2008 da ANTT registrou fissuras em 48 vãos entre aduelas no trecho sobre o mar, perda de protensão de 32%, acima dos 24% esperados, e menção à corrosão na armadura ativa como um dos fatores inicialmente considerados. O reforço entrou no PEP para garantir a estabilidade estrutural da Ponte e a integridade física dos usuários.

2014 — Trincas e corrosão no vão central metálico

O histórico de manutenção publicado por O Globo registrou 7.690 trincas descobertas desde a inauguração no vão central metálico. A reportagem também apontou ainda a luta diária contra corrosão, principalmente por fadiga em ligações soldadas.

2022 — navio São Luiz colide com a ponte

Em 14 de novembro de 2022, o navio São Luiz ficou à deriva e colidiu com a Ponte Rio-Niterói. A via foi interditada por cerca de três horas. Depois da vistoria, técnicos checaram os pilares 71, 72 e 73 e não detectaram avaria estrutural, embora tenham sido apontados danos de pequena monta em aparelhos de apoio.

2024 — relatório registra corrosão em camisas metálicas de tubulões

Relatório de monitoração de fundações da Ecoponte/ANTT registrou perda de seção por corrosão em camisas metálicas de tubulões. O maior percentual consumido chegou a 90,35% em zona submersa, contra 40,35% no quinquênio anterior. O próprio documento, porém, afirma que ainda restava seção metálica suficiente e tratou o cenário como monitorado.

2025 — inspeção aponta danos localizados em concreto

Relatório de inspeção rotineira registrou concreto desagregado, com e sem armadura exposta, e concreto segregado em alguns elementos das aduelas internas da viga caixão. Ao mesmo tempo, o documento enquadrou a estrutura com danos pequenos, sem comprometimento da segurança estrutural.

Situação no passado já foi muito preocupante

A reportagem do Folha do Leste teve acesso a um documento técnico da ANTT, do ano de 2008.  Os detalhes e minúcias nele relatados mostram  que a Ponte Rio-Niterói já acumulava preocupação estrutural no trecho sobre o mar.

A Nota Técnica nº 161/2008 registrou fissuras em 48 vãos entre aduelas, recomendou reforço imediato e recuperou diagnóstico anterior que apontava perda de protensão: relaxação dos cabos e corrosão na armadura ativa como fatores associados às patologias observadas.

A protensão é uma técnica usada para aumentar a resistência do concreto. Na prática, cabos de aço de alta resistência comprimem a estrutura e ajudam o concreto a suportar esforços maiores. Por isso, fissuras em elementos de concreto protendido exigem atenção técnica. Não se trata de rachadura comum em uma superfície qualquer, mas de manifestação que pode indicar perda de desempenho estrutural quando aparece fora dos padrões previstos.

  • Pré-tração: Os cabos de aço são esticados antes do lançamento do concreto. Muito comum na fabricação de vigas e peças em indústrias de pré-moldados.
  • Pós-tração: O concreto é moldado com cabos soltos em seu interior (geralmente dentro de bainhas). Após o concreto endurecer, os cabos são puxados por macacos hidráulicos e ancorados nas extremidades.

Documento técnico da ANTT: principais tópicos

  • Fissuras em 48 vãos entre aduelas no trecho sobre o mar;
  • Necessidade de reforço imediato dos vãos fissurados;
  • Histórico de fissuras ativas nas juntas coladas das aduelas;
  • Diagnóstico anterior de perda de protensão;
  • Menção técnica à corrosão na armadura ativa como um dos fatores inicialmente apontados;
  • Perda de protensão de 32%, acima da redução esperada de 24%;
  • Inclusão de obra no PEP para garantir a estabilidade estrutural da Ponte e a integridade física dos usuários.

Diante desse histórico, a resposta da Ecovias Ponte resolve a dúvida imediata sobre o pilar filmado pelo caiaqueiro, mas não encerra o interesse público sobre a estrutura. A ponte segue operando, segundo a concessionária, com segurança. Ainda assim, seus 52 anos sobre a Baía de Guanabara mostram que transparência, laudos acessíveis e fiscalização permanente são tão importantes quanto a própria manutenção.

 

André Freitas
André Freitas é diretor-executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Jornalista e radialista desde a década de 1990, é narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Possui ampla experiência na cobertura da editoria de política, em razão de funções exercidas nos poderes Legislativo e Executivo, com atuação nas Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo e Campos dos Goytacazes, além da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e da Prefeitura de Niterói. Dirigiu por 15 anos a Rádio Absoluta, onde apresentou programas noticiosos diários e conduziu coberturas esportivas, incluindo mais de uma década acompanhando a seleção brasileira de futebol. Nesse período, esteve presente em duas Copas do Mundo e em uma edição dos Jogos Olímpicos. Trabalhou também nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e Litorânea (ES). Exerceu o cargo de editor-chefe nos jornais Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ), além de atuar como colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

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