
El Niño no Rio de Janeiro: o que esperar da primavera e do verão | Divulgação/Alexandre Macieira/Riotur
O El Niño já está em curso e deverá influenciar o clima do Rio de Janeiro durante o restante do inverno, a primavera e o próximo verão. Para o Sudeste, as projeções apontam maior tendência de temperaturas elevadas e períodos de chuva irregular, enquanto o fenômeno continua se fortalecendo no Oceano Pacífico.
A NOAA mantém oficialmente o status de El Niño Advisory. Segundo a atualização de julho, há alta confiança de que o fenômeno continuará ganhando intensidade ao longo de 2026.
O cenário aumenta a atenção para ondas de calor, especialmente a partir do fim do inverno e durante a primavera. Entretanto, não significa que todos os meses serão continuamente mais quentes ou que as chuvas ficarão automaticamente acima da média no território fluminense.
El Niño já começou e deve ficar mais forte
O fenômeno foi oficialmente confirmado em junho, quando o aquecimento do Pacífico Equatorial passou a apresentar características compatíveis com o El Niño.
Desde então, houve intensificação.
Na atualização de 9 de julho, o índice Niño 3.4 chegou a +1,2°C. A NOAA calculou ainda 81% de probabilidade de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
Além disso, o órgão aponta 97% de chance de persistência até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte, período correspondente ao outono brasileiro.
O boletim conjunto de Inmet, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional também aponta alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre.
O que o El Niño pode provocar no Rio de Janeiro?
No Sudeste, a influência do El Niño é menos direta sobre a quantidade total de chuva do que no Sul do Brasil.
A Climatempo aponta como característica esperada para a região uma combinação de aumento da temperatura e maior irregularidade das precipitações.
Assim, o Rio poderá alternar períodos quentes e secos com episódios de instabilidade.
Isso significa que uma semana de forte calor poderá ser interrompida, por exemplo, pela chegada de uma frente fria com chuva e queda temporária da temperatura.
Por isso, previsões sazonais não permitem afirmar agora quantos temporais ocorrerão no Rio entre setembro e o verão.
Ondas de calor podem ganhar força
O calor aparece como um dos sinais mais consistentes nas projeções para o segundo semestre.
O boletim oficial divulgado no fim de junho aponta alta probabilidade de temperaturas acima da média, condição que pode favorecer ondas de calor e também elevar o risco de incêndios florestais.
A Climatempo também avalia que o fim do inverno e a primavera de 2026 apresentam condições para extremos de calor e períodos secos em grande parte do interior brasileiro, com influência sobre o Sudeste.
No Rio, porém, a intensidade dependerá da circulação atmosférica de cada período.
A passagem de frentes frias ainda poderá provocar interrupções temporárias no calor, mesmo durante uma estação com temperaturas médias elevadas.
Chuva pode ocorrer de forma muito irregular
Outro ponto importante é a distribuição da chuva.
Um cenário de precipitação irregular significa que o estado poderá enfrentar períodos prolongados de pouca chuva e, ao mesmo tempo, episódios pontuais de grande intensidade.
Nesse tipo de situação, bairros ou municípios próximos podem apresentar volumes bastante diferentes durante uma mesma tempestade.
No Sudeste, essa característica ganha importância principalmente quando o calor e a disponibilidade de umidade favorecem o desenvolvimento de grandes nuvens de tempestade.
El Niño sozinho não determina os temporais
A ocorrência de temporais no Rio depende de vários mecanismos atmosféricos.
Entre eles estão frentes frias, sistemas de baixa pressão, linhas de instabilidade, circulação de umidade e a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS).
A ZCAS é especialmente importante entre o fim da primavera e o verão. Segundo o Inmet, o sistema constitui um dos principais responsáveis por períodos de chuva persistente e volumosa no Sudeste.
No próprio Rio de Janeiro, episódios anteriores de ZCAS já produziram risco de alagamentos, enxurradas, inundações e deslizamentos na Região Metropolitana, Região Serrana, Costa Verde e outras áreas do estado.
Portanto, um El Niño muito forte pode modificar o ambiente climático geral, mas não permite prever sozinho onde ou quando ocorrerá uma tempestade.
Região Metropolitana exige atenção a chuva concentrada
A Região Metropolitana do Rio, assim como áreas densamente urbanizadas da Baixada Fluminense, possui vulnerabilidade a chuvas concentradas em pouco tempo.
Nesses episódios, a velocidade com que a água cai pode ser tão importante quanto o volume acumulado ao longo do dia.
Assim, temporais localizados podem causar alagamentos e enxurradas mesmo quando a chuva mensal termina próxima ou abaixo da média histórica.
Já na Região Serrana, acumulados persistentes elevam a preocupação com movimentos de massa e deslizamentos.
Primavera marca retorno gradual do período chuvoso
A primavera começa em 22 de setembro de 2026. A partir desse período, o Sudeste entra gradualmente em sua estação mais chuvosa. Historicamente, o regime de chuva ganha força em outubro e segue durante o verão.
No Rio de Janeiro, a climatologia da capital mostra bem essa progressão.
A média de precipitação passa de cerca de 68 milímetros em setembro para 105 milímetros em outubro, 172 milímetros em novembro e 199 milímetros em dezembro, segundo os dados climatológicos apresentados pela Climatempo.
Por isso, a primavera já exigiria atenção para tempestades mesmo sem El Niño.
O fenômeno acrescenta uma influência de grande escala a um período que naturalmente combina aumento das temperaturas e retorno das chuvas.
Estado já criou plano para os impactos do El Niño
O Governo do Rio já iniciou ações específicas de preparação. Em julho, a Secretaria de Estado de Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros apresentaram medidas que integram o Plano Estratégico Estadual de Preparação e Resposta aos Impactos do El Niño.
Entre as iniciativas estão a criação de um Grupo Integrado de Gestão de Riscos e a ativação de uma Sala de Situação Estadual.
O Estado também possui um Plano de Contingências 2026-2027, com protocolos para diferentes tipos de desastre.
Em julho, representantes da Defesa Civil, DER-RJ, Secretaria de Infraestrutura e Obras Públicas, DRM-RJ e EMOP também se reuniram para alinhar a atuação durante o período de chuvas.
Defesa Civil mantém monitoramento e alertas
A Defesa Civil estadual mantém monitoramento de riscos hidrológicos e de deslizamentos, além do sistema Alerta RJ para acompanhamento das condições por localidade.
Também existe serviço gratuito de avisos por SMS.
Por outro lado, não encontrei base oficial para generalizar que todas as prefeituras fluminenses já anteciparam obras de dragagem, limpeza de galerias e contenção especificamente por causa do El Niño.
Essas medidas podem existir em municípios específicos, mas precisam ser verificadas individualmente antes de serem apresentadas como uma política estadual conjunta.
O que esperar dos próximos meses
O cenário atual aponta três pontos principais para o Rio de Janeiro:
- Maior probabilidade de períodos muito quentes durante a primavera e o verão;
- Chuva potencialmente irregular, alternando intervalos secos e episódios de instabilidade;
- Necessidade de atenção a temporais quando frentes frias, ZCAS e grande disponibilidade de calor e umidade coincidirem.
Entretanto, ainda é cedo para afirmar que o verão terá chuva acima da média em todo o estado ou que será necessariamente mais tempestuoso do que anos anteriores.
As projeções sazonais serão refinadas conforme a primavera se aproxima e os modelos tiverem maior capacidade de indicar o comportamento do Atlântico e da circulação atmosférica sobre o Sudeste.







