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Na Ilha da Conceição, 27 de setembro é “Dia de Pegar Doce”

Saquinhos de doces de São Cosme e Damião preparados para distribuição

Na Ilha da Conceição, 27 de setembro é “Dia de Pegar Doce” | Reprodução

Na Ilha da Conceição, em Niterói, o dia 27 de setembro ganhou um nome próprio na memória de quem cresceu no bairro: “Dia de Pegar Doce”.

A expressão aparece em um registro publicado pela revista Ensaios de Geografia, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Em 2021, a fotógrafa Ariany Fernandes, nascida e criada na Ilha, percorreu as ruas para documentar crianças atrás dos tradicionais saquinhos de São Cosme e Damião.

O relato descreve um cenário conhecido por diferentes gerações: crianças nas ruas, grandes mochilas para carregar os doces, mães e familiares acompanhando a movimentação e moradores mantendo a distribuição.

Mais que uma festa de um único endereço, o 27 de setembro se transformou no bairro em uma tradição que ocupa as ruas.

Mochilas cheias e corrida atrás dos doces

Quando voltou às ruas da Ilha da Conceição com uma câmera, Ariany registrou em 2021 algo que conhecia desde a infância.

Ela própria contou que cresceu “pegando doce” no bairro.

Naquele 27 de setembro, encontrou crianças percorrendo as ruas com mochilas grandes e famílias acompanhando a busca pelos saquinhos.

A lembrança pessoal ajuda a dimensionar a força que a data adquiriu na comunidade.

Quando criança, Ariany chegou a pegar ônibus e vans dentro do próprio bairro para voltar para casa, descarregar a mochila cheia de doces e depois continuar a procura.

Anos mais tarde, encontrou antigas professoras, amigas e moradores repetindo a experiência com uma nova geração de crianças.

Largo do Sol virou retrato da tradição

Uma das imagens produzidas naquele dia foi feita no Largo do Sol, na Ilha da Conceição.

O registro acabou escolhido como capa da edição de 2022 da revista Ensaios de Geografia, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF.

A fotografia e o relato mostram como uma celebração religiosa também produz uma dinâmica própria no espaço urbano.

No dia 27, crianças deixam de apenas circular pelo bairro para percorrê-lo em busca de pontos de distribuição.

Quem entrega também participa dessa geografia particular: portas de casas, ruas e outros espaços da comunidade se transformam temporariamente em pontos de encontro.

Moradores preparam dezenas de saquinhos

A tradição também aparece nas histórias de quem fica do outro lado da distribuição.

Em 2023, Lucia Alice Perrout Figueiredo, então com 71 anos, contou que comprava doces havia mais de uma década para entregar às crianças da Ilha da Conceição.

Em alguns anos, ela preparava cerca de 100 a 150 saquinhos.

Pipoca, doce de leite, paçoca e amendoim estavam entre os itens colocados nas sacolas.

Lucia explicou que continuava a tradição pela alegria de ver as crianças recebendo os doces.

O relato não significa que a mesma distribuição esteja confirmada para este domingo de 2026. Ele ajuda, porém, a mostrar como moradores assumiram papel central na preservação do costume ao longo dos anos.

Tradição passa de uma geração para outra

Essa continuidade ajuda a explicar por que o 27 de setembro permanece vivo mesmo diante das mudanças na própria cidade.

Quem saiu atrás de doces quando criança passa a acompanhar filhos, sobrinhos e netos.

Quem recebeu saquinhos também pode, anos depois, começar a distribuí-los.

Assim, a tradição não depende apenas de uma igreja, festa ou organização específica.

Na Ilha da Conceição, ela ganhou uma dimensão comunitária e afetiva.

É justamente essa característica que diferencia o “Dia de Pegar Doce” de uma simples distribuição de guloseimas.

Por que os doces são entregues em 27 de setembro?

A Igreja Católica celebra atualmente São Cosme e São Damião em 26 de setembro.

No Brasil, entretanto, a tradição popular dos doces permaneceu ligada ao dia 27, especialmente no Rio de Janeiro.

A história envolve a devoção católica aos santos e seu encontro com tradições afro-brasileiras relacionadas à infância e aos gêmeos.

O Folha do Leste explicou por que 27 de setembro virou o dia dos doces de São Cosme e Damião e as diferenças entre referências como Ibeji, Erês e Doum.

Para quem busca uma distribuição confirmada neste domingo, o jornal também preparou um guia sobre onde pegar doces de Cosme e Damião hoje em Niterói.

Uma memória que também pertence à cidade

O registro da UFF ajuda a preservar algo que poderia desaparecer sem documentação: a experiência das crianças ocupando as ruas atrás dos saquinhos.

Não apenas os doces, mas o caminho entre uma distribuição e outra, os encontros, as mochilas lotadas e o retorno para casa fazem parte dessa memória.

Na Ilha da Conceição, 27 de setembro ganhou, assim, um significado que cabe numa expressão simples e muito local:

Dia de Pegar Doce.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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