
Desaparecimentos aumentam em Niterói e região; quase 4 mil casos são registrados no Rio | Divulgação
Ter um familiar ou amigo desaparecido é viver em um estado permanente de espera. Não há despedida, explicação ou certeza. Restam o silêncio, a angústia e perguntas sem respostas.
Esse é o drama de milhares de famílias no estado do Rio de Janeiro. Nos primeiros sete meses de 2026, foram registrados 3.903 desaparecimentos, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ). São 237 casos a mais – o que corresponde uma alta de 6,5% dos casos -, no mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 3.666 registros.
São mães, pais, filhos, irmãos e amigos que passam a conviver com a ausência de quem amam, presos à esperança de que uma informação possa levar ao reencontro.
Niterói e região têm alta de 30%
Em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá, o crescimento foi ainda maior. Entre janeiro e julho de 2025, os quatro municípios registraram, juntos, 297 desaparecimentos. No mesmo período deste ano, foram 386 casos — 89 ocorrências a mais, o que representa uma alta de 30%.
Os números ganham ainda mais atenção nesta semana, quando o Ministério da Justiça e Segurança Pública promove a Semana de Mobilização Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas.
A campanha, que segue até sexta-feira (28), busca ampliar a identificação de pessoas desaparecidas por meio da coleta de material genético de familiares e do cruzamento dos perfis nos bancos de DNA.
Coleta de DNA é gratuita
No Rio de Janeiro, a Polícia Civil disponibilizou sete pontos de coleta (veja os locais no final da matéria). Para Niterói e região, há apenas um posto disponível.
A coleta é gratuita, simples e rápida. O material pode ser obtido com um cotonete na parte interna da bochecha ou por meio de uma amostra de sangue.
Os perfis genéticos dos familiares são comparados com os de pessoas desaparecidas e de pessoas encontradas sem identificação. Mesmo quando não há uma correspondência imediata, o material permanece disponível para novos cruzamentos.
A prioridade é para familiares de primeiro grau, como pai, mãe, filhos, outro genitor e irmãos biológicos. Na ausência deles, outros parentes também podem contribuir, conforme orientação dos profissionais responsáveis pela coleta.
É necessário apresentar documento de identificação e os dados do Registro de Ocorrência (RO) do desaparecimento. Quem ainda não possui o registro deve procurar uma delegacia.
Para quem espera há meses ou décadas, poucos minutos de coleta podem representar uma nova possibilidade de resposta.
Mobilização antecede data internacional
A mobilização ocorre poucos dias antes do Dia Internacional das Vítimas de Desaparecimentos Forçados, celebrado em 30 de agosto, próximo domingo. Neste dia, às 9h, haverá uma caminha em Copacabana, no Rio de Janeiro, no Posto 4. A ação tem o apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e participações do Instituto Mães Virtuosas do Brasil e do Movimento Mães Braços Fortes.
A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para chamar atenção aos desaparecimentos forçados e à situação das vítimas e de seus familiares. O CICV também atua na defesa e assistência a pessoas desaparecidas em várias outras circunstâncias e suas famílias.
Projeto de lei prevê crime de desaparecimento forçado
Também está em análise no Senado o Projeto de Lei 1.029/2026, que propõe tipificar o crime de desaparecimento forçado e alterar o Código Penal.
O texto prevê penas de seis a 12 anos de prisão, com possibilidade de aumento em casos de lesão corporal grave ou morte. A proposta também estabelece agravantes quando a vítima for criança, adolescente, idoso, gestante ou pessoa com deficiência.
Outro projeto, o PL 306/2025, em análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, propõe classificar os desaparecimentos em três categorias: voluntário, involuntário e forçado, com o objetivo de orientar os procedimentos de busca.
“É uma dor que não para nunca”
A dimensão humana do desaparecimento aparece no documentário “Cadê Você?”, da ONG Rio de Paz, com roteiro e direção do jornalista Humberto Nascimento.
Uma das histórias retratadas é a de Jovita Belfort, mãe de Priscila Belfort, desaparecida há 22 anos.
“Encontrei uma coisa mais amarga que a morte: o desaparecimento”, afirma Jovita no filme. Em outro momento, resume a dor de quem permanece à espera: “É uma dor que não para nunca.”
Lançado em 2023, o documentário reúne histórias de famílias que procuram por seus entes queridos e cobram respostas. Há também imagens inéditas de um cemitério clandestino em São Gonçalo. A produção também aborda os desaparecimentos forçados e estabelece um paralelo com casos ocorridos durante a ditadura militar brasileira.
Mais do que registrar histórias, “Cadê Você?” transforma a dor dos familiares em denúncia e reflexão sobre violência, direitos humanos, segurança pública e o direito à verdade.
Assista ao documentário “Cadê Você?” no YouTube
Onde doar DNA no Rio
Niterói – Posto Regional de Polícia Técnico-Científica
Travessa Comandante Garcia Dávila, 51, Santana, Niterói.
Rio de Janeiro – Instituto de Pesquisa e Perícia em Genética Forense (IPPGF)
Rua Marquês de Pombal, 150, Cidade Nova.
Campo Grande – Posto Regional de Polícia Técnico-Científica
Estrada do Mendanha, 1.672, Campo Grande.
Duque de Caxias – Posto Regional de Polícia Técnico-Científica
Rua Ailton da Costa, s/nº, 25 de Agosto.
Nova Iguaçu – Posto Regional de Polícia Técnico-Científica
Rua Edna, s/nº, Posse.
Volta Redonda – Posto Regional de Polícia Técnico-Científica
Avenida Paulo Erlei Abrantes, 1.325, Três Poços.
Angra dos Reis – Posto Regional de Polícia Técnico-Científica
Rodovia Governador Mário Covas, km 504, Bracuí.










