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Com Lula na Sapucaí, Acadêmicos de Niterói polariza o Samba e luta para ficar no Grupo Especial

Com Lula na Sapucaí, Acadêmicos de Niterói realiza homenagem a Lula mas expectativa foi maior do que a entrega. Agora, a agremiação luta permanência no Grupo Especial | Marco Terranova

Com Lula na Sapucaí, Acadêmicos de Niterói realiza homenagem a Lula mas expectativa foi maior do que a entrega. Agora, a agremiação luta permanência no Grupo Especial | Marco Terranova

A Acadêmicos de Niterói realizou uma das mais polêmicas e esperadas homenagens da história da Marquês de Sapucaí ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e após cumprir sua missão, luta para ficar no Grupo Especial. A azul e branco niteroiense encerrou seu desfile com 79 minutos enfrentando diversos desafios na avenida. Ao mesmo tempo, chegou ao fim a maior maior expectativa do Carnaval 2026, sob uma perspectiva crítica e com olhar polarizado à esquerda.

André Freitas

Por André Freitas

Diretor-executivo e repórter do Folha do Leste, desde os anos 1990 cobrindo carnaval direto da Marquês de Sapucaí

Do rio de janeiro  • em tempo real

 

Apesar de não ter desfilado, a princípio por questões de resguardo eleitoral, Lula esteve na Passarela do Samba para assistir à apresentação no camarote do prefeito do Rio, Eduardo Paes. Ele estava acompanhado da primeira-dama Janja e do vice-presidente Geraldo Alkmin.

Em ambiente reservado, no Camarote da Prefeitura do Rio, assistiram ao desfile da Acadêmicos de Niterói a primeira Dama Janja da Silva; o prefeito do Rio, Eduardo Paes; o presidente Lula, e o vice-presidente Geraldo Alckmin | Jão Salles/Riotur

Em ambiente reservado, no Camarote da Prefeitura do Rio, assistiram ao desfile da Acadêmicos de Niterói a primeira Dama Janja da Silva; o prefeito do Rio, Eduardo Paes; o presidente Lula, e o vice-presidente Geraldo Alckmin | Jão Salles/Riotur

Nesse sentido, pode-se dizer que o desfile entregou muito mais volume crítico ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à atual direita conservadora brasileira do que a história de vida de Lula. Além disso, a escola teve problemas de evolução e no acabamento das alegorias, que colocam em xeque sua permanência na elite.

Em contrapartida, o samba-enredo rendeu e funcionou muito bem, com excelente performance de Emerson Dias. Pelo que já do artista até hoje, tratou-se da sua melhor exibição como intérprete principal. Os componentes da escola, em sua maioria, cantavam letra e melodia do começo ao fim.

Enredo polariza o samba e marca posição da Niterói

A proposta da Niterói de apresentar um desfile linear e narrativo, estruturado em cinco setores se cumpriu, mas com carga crítica à extrema-direita, como contraponto. Isso torna imponderável qualquer previsão de interpretação de leitura dos julgadores, diante de algo tão complexo como o ambiente de polarização política.

Como saber, então, se isso vai contaminar ou não o julgamento: impossível. No conjunto da obra, a azul e branco realizou uma biografia dramatizada na avenida, mas com forte discurso ideológico.

Atriz Dira Paes interpreta Dona Lindu, mãe de Lula | Tatá Barreto/Riotur

Atriz Dira Paes interpreta Dona Lindu, mãe de Lula | Tatá Barreto/Riotur

Combinando épico político e simbolismo popular o enredo propriamente começa no primeiro setor, mostrando a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva desde o nascimento em Guaranhuns. Tudo sob forte carga de realismo fantástico inspirado nas memórias de Dona Lindu. Em seguida, passa pela migração retirante para São Paulo em meio à seca dos anos 1950.

Alegoria da Acadêmicos de Niterói | Lucas Victório

Alegoria da Acadêmicos de Niterói | Lucas Victório

A história prossegue até a ascensão como líder sindical, fundador do PT e protagonista das grandes greves durante a Ditadura Militar.

Atriz Juliana Barone interpreta a ex-primeira-dama Marísa Letícia, falecida em com Paulo Vieira como Lula | Tatá Barreto/Riotur

Atriz Juliana Barone interpreta a ex-primeira-dama Marísa Letícia, falecida em com Paulo Vieira como Lula | Tatá Barreto/Riotur

A escola avançou para os mandatos presidenciais, destacando políticas sociais e a tensão da luta de classes.

Tatá Barreto/Riotur

Por fim, encerrou com uma leitura contemporânea do terceiro mandato, em tom de enfrentamento à extrema direita e exaltação da soberania nacional.

O herói e o palhaço

A agremiação deixou claro já na Comissão de Frente o atual contexto de polarização política no Brasil, batizada de “O Amor Venceu o Medo”. Principalmente, pelas encenações envolvendo o Palhaço Bozo como forma de alusão ao ex-presidente Jair Bolsonaro, antagonizado ao longo de toda  narrativa.

Por outro lado, Lula tem sua figura exaltada, como personagem que traduz uma luta secular por direitos, contra à “elite do atraso”.

Lula, tal qual herói, enfrenta o palhaço na disputa contra o retrocesso | Marco Terranova/Riotur

Lula, tal qual herói, enfrenta o palhaço na disputa contra o retrocesso | Marco Terranova/Riotur

Na conta das trevas que envolviam o medo, estão o dito golpe de Temer contra Dilma, sucedido por argumentos relacionados à negligência durante a pandemia da Covid-19.

Na defesa do conceito artístico, a Acadêmicos de Niterói afirma que o povo havia se tornado apenas um detalhe irrelevante na paisagem do poder”. Mas que Lula, resiliente, regressa à presidência para um terceiro mandato em catarse popular, após o que chamou de “farsas judiciais”. Acima de tudo, em sua visão, reabrindo os caminhos para a democracia voltar a respirar.  

Bailado Sertanejo

O Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira se apresentaram com indumentária representando os sanfoneiros da noite das festas de família. Sobretudo, a canção Luar do Sertão. Isso porque Dona Lindu, mãe de Lula, gostava de ouvir Luiz Gonzaga através do rádio valvulado de quem tinha condições de ter o aparelho.

Emanuel Lima reverencia Thainara Matias durante exibição aos jurados | Alex Ferro/Riotur

Emanuel Lima reverencia Thainara Matias durante exibição aos jurados | Alex Ferro/Riotur

A evolução deles mostrou a proximidade das canções de Gonzaga com o povo sertanejo. Ao mesmo tempo, a distância entre o cantor, já radicado no Sudeste, e o povo sertanejo no receptor.  

Ora perto, ora distantes, Thainara Matias e Emanuel Lima fizeram uma bela apresentação, exibindo uma dança condizente com a proposta da Niterói. Em suma, um dos pontos altos da agremiação.

Bateria perdeu energia

A bateria do mestre Branco Ribeiro perdeu a sustentação do ritmo ao deixar o Espaço Jamelão e ganhar a pista de desfiles. As passadas do samba-enredo passaram a ter maior tempo de execução. Ou seja, começou com um ritmo de batidas por minuto — os chamados BPM — mas eles foram diminuindo no decorrer do percurso.

Fantasias e alegorias deixam a desejar

Considerando a competitividade no Grupo Especial, faltou luxo à escola em fantasias. Se o carnavalesco Tiago Martins apostou na sua concepção para defender os dois quesitos, não houve acerto para gabaritar nenhum dos quesitos.

Elemento alegórico utilizado na Comissão de Frente

Elemento alegórico utilizado na Comissão de Frente | Alexandre Macieira

Em se tratando de fantasias, as baianas, por exemplo, estavam praticamente descaracterizadas, com fantasia feita à base de espuma. Há gosto para tudo mas nessa ala a tradição não pode perder lugar para inovação descabida.

Baianas feitas com espuma da Acadêmicos de Niterói, cuja luta é para ficar no Grupo Especial | Alex Ferro/Riotur

Baianas feitas com espuma da Acadêmicos de Niterói, cuja luta após homenagem a Lula é para ficar no Grupo Especial | Alex Ferro/Riotur

Diversos carros alegóricos apresentaram falta de capricho no acabamento final, daqueles geralmente feitos na concentração. Muito peso, excesso de pessoas, gente demais para subir. O planejamento não foi dos melhores.

Evolução vira problema

A Niterói também enfrentou muitas dificuldades de armação para colocar seus destaques em carros alegóricos. Por diversas vezes, a azul e branco teve que ficar parada na pista, resultando em falta de fluidez do desfile e abertura de buracos.  O primeiro carro alegórico teve dificuldades para acoplamento da sua terceira parte. Os demais carros também passaram perrengues.

Último Carro, com Fafá de Belém à frente, onde desfilariam Lula e Ministros, de acordo com o planejamento inicial | Alex Ferro/Riotur

Último Carro, com Fafá de Belém à frente, onde desfilariam Lula e Ministros, de acordo com o planejamento inicial da Acadêmicos de Niterói, que em sua estreia no Grupo Especial, luta para ficar na elite  | Alex Ferro/Riotur

Finalizando por ora, a Acadêmicos de Niterói cumpriu sua missão de pautar o debate nacional. Também  mostrou a potência da tradição das agremiações de Niterói no canto. Todavia, no Grupo Especial, detalhes decidem décimos. Agora, ela está por conta de quem julga, tal qual a esperança do mulungus na quarta-feira de cinzas.

André Freitas
Diretor-Executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Radialista e Jornalista desde a década de 1990. Narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Tem vasta experiência na cobertura da editoria de política em razão dos cargos públicos que exerceu nos poderes Legislativo e Executivo: Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo, Campos dos Goytacazes, além da Alerj e ainda na Prefeitura de Niterói. Dirigiu a Rádio Absoluta por 15 anos, onde apresentou programas noticiosos diários. Pela emissora, cobriu por mais de uma década a seleção brasileira de futebol e esteve em duas Copas do Mundo e uma Olimpíada. Narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, tem 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Trabalhou, também, nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e (Litorânea/ES). Exerceu cargo de editor-chefe em Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ). Colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

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