Estado do Rio de Janeiro

El Niño: Rio cria índice que prevê risco de calor extremo à saúde nos 92 municípios

Ilustração editorial representa o monitoramento do calor extremo no estado do Rio de Janeiro, com mapa dividido por níveis de risco, indicadores de temperatura, saúde, população, capacidade hospitalar e atuação integrada do SUS, vigilância em saúde e Defesa Civil

El Niño: Rio cria índice que prevê risco de calor extremo à saúde nos 92 municípios | Folha do Leste/Imagem ilustrativa gerada por IA

O estado do Rio de Janeiro passou a contar com um sistema capaz de identificar quais dos 92 municípios enfrentam maior risco à saúde diante de episódios de calor extremo, considerando não apenas a temperatura prevista, mas também doenças prevalentes, idade da população, condições socioeconômicas, cobertura vegetal, infraestrutura e capacidade de atendimento do SUS.

Chamado de Índice Multidimensional de Excesso de Calor (IMEC-RJ), o instrumento foi incorporado ao Monitora RJ e será usado juntamente com as previsões meteorológicas para orientar alertas e medidas de prevenção. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, essa combinação poderá antecipar em até cinco dias situações de maior risco para cada município.

Na prática, duas cidades submetidas ao mesmo episódio de calor poderão receber classificações diferentes. Um município com maior população idosa, alta incidência de doenças cardiovasculares e menor capacidade hospitalar, por exemplo, pode demandar uma resposta mais intensa do que outro exposto a temperaturas semelhantes, porém menos vulnerável.

O próprio painel estadual confirma que o IMEC-RJ considera dimensões relacionadas ao clima, sensibilidade da população, vulnerabilidade socioeconômica, ambiente e infraestrutura. O sistema cruza esse índice com o Fator de Excesso de Calor, o EHF, para produzir o sinal de risco destinado à vigilância e à resposta.

Alerta deixa de olhar apenas para o termômetro

Essa é justamente a principal diferença introduzida pelo IMEC-RJ.

O monitoramento de ondas de calor tradicionalmente parte de variáveis meteorológicas. Entretanto, uma temperatura elevada não produz o mesmo impacto sanitário sobre todas as populações.

Por isso, o novo índice incorpora informações sobre morbidades cardiovasculares, respiratórias e renais, além de características demográficas e da disponibilidade de leitos e serviços públicos de saúde.

Também entram no cálculo condições socioeconômicas, infraestrutura urbana e presença de áreas verdes, fatores que podem aumentar ou reduzir a exposição da população ao calor.

Com esse conjunto de dados, o estado pretende identificar previamente onde uma onda de calor pode pressionar mais fortemente a rede assistencial.

“Nosso objetivo é dar condições e suporte aos municípios para pronta resposta aos impactos do El Niño. Essa combinação de dados vai permitir que a nossa área técnica emita alertas às cidades com antecedência de cinco dias do efeito climático extremo”, afirmou o secretário estadual de Saúde, Ronaldo Damião.

Segundo ele, a antecipação permitirá que unidades de saúde se preparem antes do agravamento das condições meteorológicas.

Como funciona o IMEC-RJ

O índice analisa cinco grandes grupos de informações.

Clima — histórico de exposição do município a episódios de calor.

Vulnerabilidade demográfica — idade da população e perfis associados à mortalidade.

Sensibilidade — ocorrência de doenças cardiovasculares, respiratórias e renais.

Capacidade instalada — disponibilidade de leitos e serviços do SUS.

Ambiente — condições socioeconômicas, infraestrutura urbana e presença de áreas verdes.

Esses dados são transformados em indicadores padronizados e permitem posicionar cada município em diferentes faixas de vulnerabilidade.

O painel público acrescenta depois a previsão do chamado Fator de Excesso de Calor, que considera a intensidade e a persistência das temperaturas elevadas. As informações abrangem o dia selecionado e os quatro dias seguintes.

Temperatura acima de 35°C entra no sistema de alerta

O painel estadual informa ainda um critério objetivo para emissão dos alertas meteorológicos associados ao excesso de calor.

A SES-RJ considera a classificação do Fator de Excesso de Calor e verifica também se a temperatura máxima prevista supera 35°C no município.

Quando o EHF alcança condição severa ou extrema e a máxima prevista ultrapassa esse limite, a Secretaria pode emitir o alerta correspondente para a cidade.

A classificação consolidada cruza esse cenário meteorológico com o IMEC-RJ.

Com isso, o sistema deixa de responder somente à pergunta “quanto vai fazer de calor?” e passa a acrescentar outra: “qual pode ser o impacto desse calor sobre a população daquele município?”.

Cinco níveis orientam resposta das cidades

O Plano de Contingência para Enfrentamento ao Excesso de Calor estabelece cinco níveis de resposta, do 0 ao 4.

  • Nível 0 — ausência de excesso de calor.
  • Nível 1 — condição leve.
  • Nível 2 — condição severa.
  • Nível 3 — condição extrema.
  • Nível 4 — situação associada à persistência de calor severo ou extremo por mais de cinco dias, conforme a combinação do evento com a vulnerabilidade indicada pelo IMEC-RJ.

O painel técnico esclarece que, quando o EHF permanece severo ou extremo por mais de cinco dias consecutivos, a persistência pode elevar o sinal consolidado para os níveis 3 ou 4, dependendo da posição do município no IMEC-RJ.

Portanto, os níveis não representam simplesmente cinco faixas de temperatura. Eles expressam uma matriz de risco formada pela intensidade e duração do calor combinadas com a vulnerabilidade sanitária local.

Municípios começam capacitação na próxima semana

A implantação será acompanhada por oficinas presenciais destinadas às equipes municipais.

O primeiro ciclo ocorre nos dias 25 e 26 de agosto e reúne municípios das regiões Noroeste, Norte, Baixada Litorânea, Médio Paraíba e Costa Verde/Ilha Grande.

Nos dias 27 e 28, participam representantes das regiões Serrana, Metropolitana I, Metropolitana II e Centro-Sul.

O trabalho será coordenado pelo Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde estadual e pretende integrar vigilância epidemiológica, planejamento e assistência.

Os municípios também receberão material específico para gestores, profissionais de saúde, população e ações relacionadas à saúde animal.

“A partir da implementação do IMEC-RJ, a Secretaria estabelece uma série de ações a serem implantadas como prevenção”, explicou Luciane Velasque, superintendente de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde.

Plano prevê reforço de ambulâncias e até aeronaves

Nos cenários mais graves, a resposta prevista ultrapassa a emissão de orientações ao público.

O plano estadual contempla reforço da capacidade de emergência, incluindo veículos de intervenção rápida, motolâncias e ambulância preparada para ocorrências com múltiplas vítimas na capital.

Também estão previstas duas aeronaves para transferências inter-hospitalares, além do envio de insumos estratégicos para áreas atingidas.

A lógica é deslocar recursos conforme a combinação entre previsão meteorológica e vulnerabilidade apontada pelo índice, em vez de esperar o aumento dos atendimentos para somente então ampliar a resposta.

Calor extremo dobrou média diária de mortes em 2023

A preocupação tem fundamento em um episódio já observado no Rio.

Segundo estudo conduzido pela Secretaria de Estado de Saúde, o evento de calor extremo registrado entre 11 e 18 de novembro de 2023 fez a média diária de mortes no estado dobrar.

A Região Noroeste apresentou a maior sensibilidade, com crescimento de 74% no risco de mortalidade, principalmente entre idosos, segundo os dados apresentados pela SES-RJ.

Esse tipo de diferença regional ajuda a explicar a escolha por um índice multidimensional.

Uma onda de calor que cobre grande parte do território estadual não necessariamente produz o mesmo número de internações e mortes em todas as cidades. Características demográficas, sociais e assistenciais interferem diretamente na dimensão do dano.

El Niño já está em fortalecimento

A ferramenta chega justamente quando as projeções para o El Niño de 2026/2027 se tornaram mais preocupantes.

Em sua atualização de 13 de agosto, o Climate Prediction Center da NOAA informou que o El Niño está se fortalecendo e apontou probabilidade superior a 90% de o fenômeno alcançar intensidade muito forte durante o outono e inverno do Hemisfério Norte, período que coincide com a primavera e o verão brasileiros.

A agência calcula ainda 69% de probabilidade de o evento atingir, entre outubro e dezembro, uma magnitude histórica superior à dos episódios registrados desde 1950 pelo novo índice RONI. Contudo, a própria NOAA ressalta que um El Niño muito forte aumenta a probabilidade dos impactos associados ao fenômeno, sem determinar exatamente o que acontecerá em cada região.

No Brasil, o Cemaden informou no começo de agosto que todos os modelos acompanhados apontavam o episódio para a categoria de El Niño muito forte. Para o trimestre agosto-setembro-outubro, a previsão nacional indica temperaturas acima da média em todo o país e maior possibilidade de chuva abaixo da média em grande parte do Centro-Oeste e Sudeste.

Por isso, embora a expressão “Super El Niño” seja utilizada em comunicações públicas e no debate sobre eventos excepcionalmente intensos, “El Niño muito forte” permanece uma formulação tecnicamente mais precisa para o cenário atualmente projetado.

Rio já vinha antecipando preparação

A implantação do índice é mais uma etapa de um movimento iniciado antes da chegada do período mais quente.

Em julho, o município do Rio antecipou seu planejamento para o verão diante do fortalecimento do El Niño, organizando protocolos para calor extremo, chuvas intensas, alagamentos e deslizamentos. Naquele momento, as projeções já apontavam forte probabilidade de um evento de grande intensidade.

O estado também vinha utilizando o Monitora RJ para acompanhar excesso de calor. Durante a onda de janeiro, municípios como Maricá e São Gonçalo chegaram ao nível laranja de alerta, enquanto a rede estadual reforçou hidratação e protocolos de atendimento.

Agora, o IMEC-RJ acrescenta ao acompanhamento meteorológico uma camada permanente de vulnerabilidade sanitária.

População pode consultar o painel

O monitoramento é público e pode ser acompanhado na área de Excesso de Calor do Monitora RJ.

A plataforma mostra mapas para os 92 municípios, previsão de temperatura máxima, classificação do excesso de calor, matriz de risco e informações do IMEC-RJ.

Além disso, disponibiliza orientações diferentes para profissionais de saúde, gestores e população.

A atualização exibida no painel consultado pelo Folha do Leste é de 19 de agosto, sujeita a alterações conforme novos dados meteorológicos entram no sistema.

O que muda na prática

Com a implantação do IMEC-RJ, o estado passa a trabalhar com três informações simultâneas:

— qual calor está previsto;

— por quanto tempo ele deve persistir;

— quão vulnerável está cada município aos efeitos daquele evento.

A partir daí, a Secretaria poderá orientar antecipadamente a preparação de unidades de saúde, reforçar estruturas de emergência, emitir alertas e definir quais territórios precisam de maior atenção.

O desafio começa agora: transformar a classificação de risco em resposta efetiva antes que ambulâncias, UPAs e hospitais sintam primeiro os efeitos do calor.

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Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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