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Startup brasileira faz parceria com alemã para criar peças de foguetes em 3D

Engenheiros inspecionam componente metálico de motor de foguete fabricado por impressão 3D em laboratório de tecnologia aeroespacial.

Startup brasileira faz parceria com alemã para criar peças de foguetes em 3D | Folha do Leste/Imagem ilustrativa gerada por IA

A startup brasileira BIZU Space firmou parceria com a alemã EOS para avançar na impressão 3D de componentes de motores de foguetes. Anunciada nesta quinta-feira (29), a colaboração oferecerá capacitação e suporte de engenharia à empresa de São José dos Campos, no interior paulista. O objetivo é desenvolver conhecimentos técnicos para fabricar peças metálicas complexas utilizadas em sistemas de propulsão espacial.

Entre as aplicações estudadas estão câmaras de combustão e turbobombas, componentes fundamentais para o funcionamento de determinados motores de foguetes. Além disso, a iniciativa poderá contribuir para projetos brasileiros de acesso ao espaço, incluindo tecnologias relacionadas ao Microlançador Brasileiro (MLBR).

Entretanto, o anúncio não representa a conclusão de um motor fabricado por impressão 3D. A parceria começa pelo desenvolvimento de competências técnicas e pelo apoio especializado. As empresas ainda não divulgaram equipamentos específicos, valores contratuais ou um calendário de fabricação dos componentes.

Empresa brasileira receberá treinamento especializado da EOS

A colaboração envolve a Additive Minds Academy, programa de capacitação da EOS voltado à fabricação aditiva industrial. Por meio dessa estrutura, engenheiros da BIZU Space poderão aprofundar conhecimentos sobre o desenvolvimento de peças para impressão 3D metálica.

Além das atividades educacionais, especialistas da Additive Minds oferecerão suporte técnico aos projetos. Dessa maneira, a startup pretende aproximar o desenvolvimento de seus sistemas de propulsão das possibilidades oferecidas pela manufatura aditiva.

O treinamento utilizará conceitos de Design for Additive Manufacturing (DfAM), expressão que significa projeto orientado à fabricação aditiva.

Na prática, essa abordagem permite desenvolver peças considerando, desde o início, as características e limitações do processo de impressão 3D. Assim, o engenheiro não precisa simplesmente adaptar um componente convencional para tentar reproduzi-lo em uma impressora.

Michael Wohlfart, responsável pela área de desenvolvimento de negócios e capacitação da EOS, destacou a importância de combinar tecnologia e formação profissional. Segundo o executivo, o domínio dos princípios de fabricação aditiva ajuda engenheiros a explorar aplicações complexas, como sistemas de propulsão espacial.

O comunicado, porém, não informa quantos profissionais participarão dos treinamentos nem estabelece uma duração específica para o programa.

Impressão 3D poderá fabricar câmaras de combustão de foguetes

Uma das aplicações estudadas pela BIZU Space envolve as câmaras de combustão, responsáveis por receber propelentes e permitir as reações que produzem gases quentes dentro de determinados motores.

Durante o funcionamento, essas estruturas precisam resistir a pressões elevadas e temperaturas extremas. Por isso, os engenheiros precisam considerar materiais, resistência mecânica, geometria e sistemas de resfriamento.

A impressão 3D metálica oferece possibilidades interessantes nesse contexto. Dependendo do projeto e do processo utilizado, a tecnologia permite criar canais internos complexos, que podem ser difíceis de fabricar por usinagem convencional.

Essas geometrias podem ajudar a conduzir fluidos destinados ao controle térmico. Além disso, determinadas soluções permitem integrar estruturas que, em métodos tradicionais, exigiriam diversas peças e operações de montagem.

Entretanto, uma peça impressa não apresenta desempenho superior apenas por utilizar fabricação aditiva. Os benefícios dependem do projeto, dos materiais, das condições de produção e dos resultados dos ensaios.

Em motores de foguetes, pequenas falhas podem comprometer todo o sistema. Portanto, qualquer novo componente precisa passar por avaliações rigorosas antes de integrar uma configuração operacional.

Turbobombas também estão entre as tecnologias estudadas

Outro foco anunciado envolve as turbobombas, equipamentos utilizados para movimentar propelentes em sistemas de propulsão líquida.

Esses conjuntos podem reunir rotores, carcaças, canais internos e outros componentes que operam sob condições exigentes. Além disso, precisam manter desempenho adequado durante diferentes etapas de funcionamento do motor.

A BIZU Space investiga possibilidades de fabricação aditiva para tecnologias de turbobombas associadas a sistemas de ciclo fechado. Entretanto, o comunicado não identifica peças específicas já fabricadas por meio da nova parceria.

A tecnologia pode oferecer vantagens quando o projeto exige geometrias complexas ou integração de componentes. Em determinadas aplicações, também pode reduzir operações de montagem e permitir mudanças mais rápidas durante o desenvolvimento.

Por outro lado, a fabricação precisa considerar acabamento superficial, propriedades dos materiais e precisão dimensional. Peças rotativas, por exemplo, também exigem atenção ao balanceamento e à integridade estrutural.

Assim, a impressão representa apenas uma das etapas do desenvolvimento. Inspeções, tratamentos posteriores e testes continuam fundamentais para verificar a adequação dos componentes.

BIZU Space participa do desenvolvimento do Microlançador Brasileiro

A parceria possui importância estratégica porque a BIZU Space participa do Projeto Brasileiro de Microlançadores (MLBR), iniciativa voltada ao desenvolvimento de um veículo capaz de transportar pequenos satélites ao espaço.

A empresa integra o projeto como fornecedora especializada e desenvolve tecnologias associadas à propulsão líquida. Segundo o catálogo da Agência Espacial Brasileira (AEB), sua atuação inclui engenharia de sistemas, simulações, segurança de voo e operações de lançamento.

Além disso, a startup trabalha em um motor para o terceiro estágio do microlançador, utilizando peróxido de hidrogênio e querosene como propelentes.

O projeto integra esforços nacionais para ampliar a capacidade de desenvolver sistemas espaciais no Brasil. Entretanto, sua conclusão ainda depende de etapas de engenharia, integração, testes e validação.

A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) também reconhece a BIZU Space entre as empresas com projetos aprovados para desenvolver tecnologias de propulsão. Entre os objetivos divulgados estão um estágio de lançador espacial e uma turbobomba.

Contudo, o financiamento público desses projetos não deve ser confundido com o valor da parceria entre BIZU Space e EOS. O anúncio das duas empresas não apresenta um investimento financeiro específico associado à colaboração.

Startup brasileira já desenvolve motores e realiza testes próprios

Com sede em São José dos Campos, a BIZU Space atua no desenvolvimento de motores, equipamentos e tecnologias destinados à indústria espacial.

Entre seus projetos está o ARION, motor de propulsão líquida utilizado em trabalhos de desenvolvimento e testes. A empresa também criou o FTL-Perseu, foguete experimental destinado à avaliação de sistemas e à preparação de atividades operacionais.

A BIZU mantém ainda a instalação de testes T8, desenvolvida para realizar ensaios de motores com propulsão líquida e híbrida.

Essas atividades demonstram que a startup já possui experiência prática no desenvolvimento de equipamentos espaciais. Entretanto, não comprovam que seus motores anteriores tenham utilizado peças produzidas com tecnologia da EOS.

O comunicado da parceria apresenta uma fotografia de um teste de propulsão realizado em outubro de 2026. Contudo, a imagem não identifica quais componentes, eventualmente, utilizaram impressão 3D.

Essa distinção importa porque a colaboração recém-anunciada possui objetivos específicos de capacitação e engenharia. Portanto, não seria correto atribuir automaticamente resultados de testes anteriores à tecnologia da empresa alemã.

Por que a impressão 3D metálica interessa à indústria espacial?

A fabricação de motores de foguetes envolve peças complexas, processos especializados e sucessivas etapas de desenvolvimento. Dependendo da geometria, métodos convencionais podem exigir várias operações de usinagem, soldagem e montagem.

A fabricação aditiva oferece outra abordagem. Em determinados processos, um equipamento utiliza um modelo digital para construir componentes metálicos camada por camada.

Assim, os engenheiros podem desenvolver estruturas com formatos internos que seriam difíceis de alcançar utilizando ferramentas tradicionais.

Além disso, a possibilidade de modificar projetos digitais pode facilitar a produção de protótipos e a realização de novas etapas de testes. Entretanto, isso não significa que a impressão 3D seja sempre mais rápida ou econômica.

O resultado depende do material empregado, da complexidade da peça, dos equipamentos disponíveis e das exigências de pós-processamento.

Na indústria espacial, a qualificação de processos também exige demonstrar repetibilidade. Afinal, fabricar um protótipo funcional não garante que o mesmo desempenho será alcançado em sucessivas unidades.

Por isso, a parceria entre EOS e BIZU Space concentra esforços no conhecimento de engenharia, considerado essencial para transformar possibilidades de fabricação em aplicações espaciais confiáveis.

Parceria ainda não tem valor ou prazo de produção divulgado

O anúncio de 29 de outubro confirma a colaboração e identifica suas principais áreas de atuação. Entretanto, algumas informações comerciais e operacionais permanecem indefinidas.

As empresas não divulgaram o valor do acordo nem especificaram quais modelos de impressoras EOS participarão dos trabalhos.

Também não apresentaram uma quantidade prevista de câmaras de combustão, turbobombas ou outros componentes a fabricar. Da mesma maneira, não estabeleceram datas para concluir testes de qualificação ou utilizar eventuais peças em voo.

Portanto, ainda não é possível calcular quanto a tecnologia poderá reduzir os custos de fabricação ou acelerar o desenvolvimento de motores brasileiros.

Raphael Galate, cofundador da BIZU Space, afirmou que a fabricação aditiva ocupa um papel cada vez mais importante no desenvolvimento de componentes aeroespaciais complexos. Segundo o executivo, a colaboração permitirá fortalecer o conhecimento técnico necessário às futuras aplicações espaciais.

O avanço confirmado, neste momento, está na aproximação entre uma empresa brasileira especializada em propulsão e uma fabricante internacional de soluções industriais de impressão 3D.

O que muda para o desenvolvimento espacial brasileiro?

A colaboração amplia as oportunidades de capacitação da BIZU Space em processos industriais de fabricação aditiva. Além disso, aproxima a empresa de profissionais com experiência no desenvolvimento de aplicações metálicas complexas.

Para o setor espacial brasileiro, o potencial está na possibilidade de desenvolver componentes de maior complexidade técnica e fortalecer conhecimentos utilizados em programas nacionais.

Entretanto, a parceria não garante, por si só, novos lançamentos, redução de custos ou autonomia tecnológica completa. Esses resultados dependerão de investimentos, testes, capacidade produtiva e evolução dos projetos.

Ainda assim, a iniciativa conecta dois campos importantes da engenharia: a fabricação de componentes metálicos complexos e o desenvolvimento de sistemas de propulsão espacial.

Agora, a principal questão será acompanhar como a BIZU Space aplicará os conhecimentos da EOS em seus projetos e quais componentes chegarão efetivamente às etapas de fabricação e validação.

Enzo Carvalho
Enzo Carvalho é jornalista profissional, com atuação voltada à cobertura de inovação, tecnologia, cotidiano e esportes. Ex-jogador profissional de e-sports, traz para o jornalismo uma compreensão prática do universo digital, das plataformas tecnológicas e das transformações provocadas pela cultura conectada.

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