O vereador Sandrinho Oficina do Som foi executado a tiros em Tanguá no dia seguinte à formatura da própria filha. A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar as circunstâncias e a motivação do crime. Alexsandro Gusmão Duarte, tinha 45 anos e exercia o primeiro mandato; na semana anterior ao crime, havia relatado “perseguições políticas” na tribuna da Câmara

Vereador Sandrinho do Som em frente à Câmara Municipal de Tanguá (RJ), durante o exercício d seu mandato parlamentar.
O vereador de Tanguá Alexsandro Gusmão Duarte, conhecido como Sandrinho do Som ou Sandrinho Oficina do Som, de 45 anos, foi executado a tiros na noite desta quinta-feira (20), no Centro do município. Parlamentar de primeiro mandato pelo Progressistas (PP), ele havia sido eleito em 2024 com 710 votos. Combativo, atuante e ,
Ainda tomado pela emoção da formatura de sua filha Andressa, celebrada na noite anterior, Sandrinho atravessou aquela que seria sua última quinta-feira exaltando uma conquista familiar. Nas redes sociais, publicou uma homenagem à filha recém-formada em Enfermagem e falou do orgulho de vê-la iniciar uma profissão dedicada a cuidar de vidas.
“Hoje é um dia de muita emoção e orgulho”, escreveu. “Minha filha, Andressa, se forma em Enfermagem.”
O vereador ainda falou sobre as dificuldades enfrentadas pela filha ao longo da graduação.
“Ver sua dedicação, suas lutas e sua conquista me enche de orgulho. Hoje você realiza um sonho e inicia uma linda missão de cuidar de vidas.”
Menos de um dia depois da celebração, a família enfrentaria uma realidade oposta àquela registrada nas imagens da formatura.
Da formatura ao luto
Andressa também havia publicado sobre a própria conquista.
Em sua rede social, contou que passou por crises de choro, ansiedade, medo e insegurança durante a graduação até chegar à colação de grau.
“Um dia, você está tendo crises de choro e ansiedade, com medo de não conseguir passar em uma prova. No outro, você está colando grau e se tornando oficialmente enfermeira”, escreveu.
Imagens da cerimônia mostram Sandrinho presente na formatura
Era um registro familiar de celebração, orgulho e encerramento de uma etapa. Na noite seguinte, o vereador seria alvo de um ataque que abalaria uma cidade pouco acostumada a acontecimentos dessa dimensão.

O vereador Sandrinho do Som e sua filha, Andressa, registrados em momento de emoção durante a formatura dela no Clube Portugês, um dia antes de seu trágico assassinato.
Tanguá, no Leste Fluminense, amanheceu nesta sexta-feira diante do assassinato de um integrante do próprio Poder Legislativo.
E a morte ocorreu justamente quando Sandrinho atravessava um período de intensa exposição política.
Vereador vinha acumulando frentes de cobrança
Nas semanas que antecederam o crime, Sandrinho aumentou o tom das fiscalizações e abriu simultaneamente diferentes frentes de cobrança envolvendo Prefeitura, empresas, serviços públicos e contratos municipais.
A atuação não estava escondida em gabinetes.
O vereador utilizava a tribuna da Câmara e as redes sociais para anunciar requerimentos, divulgar pedidos de informação e antecipar quais assuntos pretendia investigar.
Em janeiro, afirmou ter solicitado informações detalhadas sobre contratos relacionados à coleta de lixo, ao asfaltamento da Estrada da Posse, à instalação de aparelhos de ar-condicionado em escolas e prédios públicos e aos gastos realizados com o Carnaval de 2026.
A cobrança sobre o Carnaval abrangia serviços como som, iluminação, estruturas, contratação de bandas e trio elétrico.
“O dinheiro é público, e a população merece respeito”, afirmou.
Na sequência, completou:
“Se tiver algo errado, vamos cobrar.”
Cobranças sobre usina de asfalto
No início de agosto, Sandrinho abriu outra frente. Nesse sentido, passou a cobrar esclarecimentos sobre a atuação da Construtora Ápia em Tanguá. Acima de tudo, diante do que alegava se tratar de reclamações de moradores relacionadas à produção de massa asfáltica durante a noite.
Conforme informações tornadas públicas pelo parlametar, moradores relatavam forte mau cheiro. Isso já, consequentemente, por conta da fumaça proveniente da atividade da usina instalada no município.
Em 4 de agosto, Sandrinho levou o assunto ao plenário.
“Em defesa da população do Pinhão, reforço na cobrança por transparência sobre a atuação da empresa Ápia, diante da queima de asfalto durante a noite”, afirmou.
O vereador anunciou que protocolaria pedidos formais de informação ao prefeito. De igual forma, protocolizou requerimentos ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea), ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Além disso, ainda buscou apoio na Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Dois dias depois, Sandrinho voltou às redes sociais para informar que os pedidos haviam sido protocolados.
“Hoje protocolei importantes pedidos de informação em defesa da nossa população”, anunciou.
Além da Ápia, informou ter solicitado esclarecimentos sobre o trailer de segurança da Posse e sobre o efetivo destinado ao Senadarte.
“Nosso compromisso é fiscalizar, cobrar transparência e buscar respostas”, afirmou.
Arteris e outras cobranças
A concessionária Arteris Fluminense, responsável pelo trecho Niterói-Campos da BR-101, também estava entre os alvos de cobranças públicas feitas pelo vereador.
Sandrinho questionava serviços relacionados à concessionária. Ao mesmo tempo, mantinha uma postura frequente de confronto diante de problemas que chegavam ao mandato por meio de moradores.
Outra frente envolvia o Centro Educacional de Natação, Dança e Artes Marciais. Isso porque, nas semanas anteriores à morte, o vereador cobrava informações sobre funcionários, bem como listas de presença ligadas ao equipamento.
Somadas, as iniciativas revelam um parlamentar que, em pouco tempo, passou a enfrentar diferentes interesses e setores simultaneamente.
Uma semana antes, falou em “perseguições políticas”
O pronunciamento mais contundente ocorreu exatamente uma semana antes do assassinato.
Em 13 de agosto, Sandrinho ocupou a tribuna da Câmara Municipal para afirmar publicamente que considerava estar sofrendo “perseguições políticas”.
O vereador relacionou a declaração às ações sociais que realizava e citou dificuldades impostas à realização do Festival de Pipa.
Na ocasião, fez referência ao secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, Trabalho e Renda, Paulo Renato Faria, conhecido como Paulinho.
Sandrinho sustentava que o festival tinha como objetivo retirar crianças das ruas e proporcionar uma atividade de lazer em ambiente seguro.
“Meu compromisso sempre foi com as crianças, com as famílias e com uma cidade mais humana e acolhedora”, declarou.
Em seguida, prometeu não recuar.
“Nenhuma dificuldade vai me fazer desistir de lutar por projetos que promovam segurança, lazer e esperança para quem mais precisa.”
Sete dias depois, estava morto.
Circunstâncias passam a integrar investigação
A Polícia Civil terá agora a responsabilidade de identificar executores, eventuais mandantes e a motivação do assassinato.
À imprensa cabe reconstruir as circunstâncias que cercavam a vida pública de Sandrinho antes de sua morte.
E essas circunstâncias mostram um vereador que, nas semanas anteriores ao crime, fiscalizava contratos, cobrava documentos, questionava empresas, confrontava integrantes da administração municipal e afirmava publicamente estar sofrendo perseguições políticas.
Não existe, até o momento, elemento conhecido que permita atribuir o assassinato a qualquer uma dessas frentes específicas.
Mas a sequência de acontecimentos faz com que as atividades recentes do parlamentar se tornem parte inevitável da reconstrução de seus últimos dias.
A investigação deverá estabelecer se alguma delas possui relação com a execução ou se a motivação está fora da atividade política de Sandrinho.
“Quem mais vai denunciar?”
A morte provocou uma reação imediata nas redes sociais de moradores de Tanguá.
Entre homenagens e manifestações de revolta, uma pergunta apareceu de forma recorrente.
“Quem mais vai denunciar?”
Em uma publicação local, um morador questionou a ousadia dos criminosos diante da existência de estruturas de segurança e monitoramento na região.
“Se isso não for uma afronta, não sei mais o que é”, escreveu.
Outro comentário dizia:
“Fiscalizar empresários tem sido muito perigoso.”
As manifestações não indicam autoria nem constituem prova sobre a motivação do crime.
Mostram, porém, como parte da população interpretou a violência contra um vereador que vinha transformando cobranças e fiscalizações em uma marca pública do mandato.
Primeiro mandato
Sandrinho havia chegado à Câmara nas eleições municipais de 2024.
Recebeu 710 votos e terminou a disputa como um dos candidatos mais votados de Tanguá.
Era seu primeiro mandato.
Nos últimos meses, sua atuação passou a ganhar visibilidade justamente pela sucessão de cobranças, requerimentos e confrontos públicos.
Com sua morte, uma vaga é aberta na bancada do Progressistas.
O primeiro suplente da legenda, Luiz Carlos Tostes Padilha, o Playboy, já havia assumido uma cadeira em janeiro deste ano após a cassação do então vereador Delson Franco.
Com isso, o próximo nome na ordem de suplência é Jailson Rosa Antunes, conhecido como Porca, que recebeu 385 votos em 2024.
De uma noite de orgulho a uma cidade em choque
Na quarta-feira, Sandrinho estava ao lado da filha numa formatura.
Publicava fotografias, falava de orgulho e desejava sucesso à nova enfermeira.
“Que Deus abençoe sua caminhada profissional e sua vocação tão linda”, escreveu para Andressa. E prosseguiu “Parabéns, minha filha! Você é meu orgulho. Te amo!
Agora, além do luto de uma família que passou em menos de 24 horas de uma colação de grau para uma morte violenta, Tanguá espera, minamante, respostas para um crime que atingiu diretamente um de seus Poderes.







