A Adidas quer levar a impressão 3D dos tênis para uma etapa que pode mudar completamente a forma como uma entressola é construída.
Depois de usar estruturas impressas em 3D para substituir partes tradicionalmente feitas de espuma, a empresa estuda agora aplicar manufatura aditiva à própria espuma.
A ideia é deixar de depender apenas de moldes que produzem o mesmo comportamento mecânico para milhares de pares.
Em vez disso, a geometria impressa poderia controlar onde o material fica mais macio, rígido, flexível ou responsivo.
No limite, isso abre caminho para um tênis ajustado não apenas ao tamanho do pé, mas também à maneira como cada pessoa corre.
Espuma tradicional nasce de um molde
Grande parte das entressolas de tênis esportivos nasce em moldes.
A fabricante define o material, densidade, espessura e geometria. Depois, produz milhares de unidades com características semelhantes dentro daquele modelo.
Esse processo funciona bem em escala.
Entretanto, oferece menos liberdade quando a intenção é alterar pequenas regiões da entressola de acordo com as necessidades de um atleta específico.
É justamente nesse ponto que a impressão 3D pode mudar a equação.
Geometria pode substituir parte da receita química
Em uma espuma convencional, grande parte do comportamento vem da composição química do material.
Densidade, células internas e formulação ajudam a definir amortecimento e retorno de energia.
Com a manufatura aditiva, surge outra ferramenta: a geometria.
Uma estrutura pode ganhar regiões mais abertas, fechadas, grossas ou finas.
Dessa forma, partes diferentes de uma mesma entressola poderiam reagir de maneiras distintas sem exigir vários componentes colados entre si.
É uma lógica semelhante à usada em estruturas lattice, mas aplicada diretamente ao comportamento do material de amortecimento.
Adidas já imprime entressolas há anos
A empresa não está começando do zero.
Em 2015, a Adidas apresentou o Futurecraft 3D com a ambição de produzir entressolas personalizadas a partir de dados do próprio corredor.
Na época, a visão já envolvia analisar pegada e pontos de pressão para fabricar uma estrutura adaptada ao usuário.
Anos depois, a parceria com a Carbon levou essa pesquisa a produtos comerciais da família 4D.
Nesse sistema, a entressola utiliza uma estrutura em treliça produzida por manufatura aditiva a partir de resina.
4DFWD mostrou o que a geometria consegue fazer
O Adidas 4DFWD levou essa ideia ainda mais longe.
Sua entressola usa células com geometria específica para deformar de maneira planejada quando o corredor pisa no chão.
A Adidas afirma que a estrutura consegue direcionar parte da força vertical para a frente.
Esse comportamento não vem apenas do material utilizado.
A forma das células também influencia diretamente como a entressola comprime e retorna.
É justamente esse princípio que torna interessante a próxima etapa da pesquisa.
Próximo alvo pode ser a própria espuma
A proposta relatada agora aponta para uma diferença relevante.
Em vez de apenas imprimir uma estrutura que substitui espuma convencional, a Adidas estuda produzir estruturas de espuma por manufatura aditiva.
Isso permitiria combinar propriedades conhecidas dos materiais espumados com liberdade geométrica muito maior.
Um corredor poderia, por exemplo, ter regiões diferentes de suporte ao longo do mesmo pé.
Outro poderia precisar de comportamento distinto entre calcanhar e antepé.
Esses exemplos representam possibilidades técnicas, não recursos comerciais anunciados pela Adidas.
Ainda não existe um tênis de corrida personalizado dessa forma disponível no varejo.
Patente mostra que a Adidas também pesquisa espuma por camadas
A movimentação não aparece apenas em declarações sobre o futuro.
Uma patente da Adidas publicada em abril de 2026 descreve um método para fabricar uma estrutura de sola camada por camada usando pequenas peças pré-formadas de espuma.
Nesse processo, porções do material são depositadas em camadas e seletivamente unidas para formar a geometria desejada.
A técnica não é necessariamente o mesmo processo citado na pesquisa mais recente.
Ainda assim, mostra que a empresa explora diferentes maneiras de levar materiais espumados para processos de fabricação aditiva.
Personalização é uma promessa antiga
O objetivo de produzir tênis adaptados ao indivíduo acompanha a impressão 3D na Adidas há mais de uma década.
O primeiro Futurecraft 3D já imaginava um cenário no qual o cliente entraria na loja, correria brevemente em uma esteira e teria seus dados usados na fabricação da entressola.
Essa visão nunca virou rotina no varejo em larga escala.
Entretanto, a tecnologia avançou bastante desde então.
A Adidas hoje comercializa produtos impressos em 3D e já levou a manufatura aditiva para modelos de lifestyle, corrida, futebol e basquete.
Adidas já imprime até tênis praticamente inteiros
Outro sinal dessa evolução aparece no Climacool.
A Adidas comercializa versões com estrutura praticamente toda produzida por impressão 3D, deixando para trás a ideia de que a tecnologia serve apenas para protótipos.
Em agosto, a empresa também apresentou o Futurecool, nova geração de calçado impresso em 3D que terá distribuição mais ampla em 2027.
Ou seja, o desafio deixou de ser provar que um tênis pode ser impresso.
A pergunta agora passa a ser quanto do desempenho do calçado pode ser programado durante a fabricação.
Um tênis diferente para cada corredor ainda está distante
A possibilidade chama atenção, mas existe uma diferença entre demonstrar tecnologia e produzir milhões de pares personalizados.
Para chegar ao varejo, a Adidas ainda teria de resolver questões como:
- velocidade de fabricação;
- repetibilidade;
- durabilidade;
- custo;
- coleta de dados do corredor;
- validação biomecânica;
- logística;
- escala industrial.
Além disso, personalização não significa automaticamente melhor desempenho.
Seria necessário demonstrar que as diferenças produzidas realmente beneficiam cada usuário.
Impressão 3D pode transformar o amortecimento em software
Essa talvez seja a parte mais interessante da ideia.
Em uma entressola tradicional, mudar o comportamento normalmente exige alterar molde, material ou ambos.
Na manufatura aditiva, parte dessa mudança pode acontecer no arquivo digital.
Modificar células, espessuras e densidades geométricas pode gerar outra resposta mecânica sem reconstruir toda a linha de produção.
Isso aproxima a fabricação de calçados de uma lógica comum no software: mudar o projeto e produzir outra versão.
Se a Adidas conseguir aplicar essa liberdade também à espuma, o próximo avanço dos tênis impressos em 3D pode não estar em sua aparência.
Pode estar escondido justamente na parte que amortece cada passo.









