Coluna Luta Animal - Patrícia NunesColunistas

Protetores independentes: quem cuida de quem dedica a vida aos animais?

Dois voluntários cuidam das unhas de um cachorro em abrigo de animais, durante atividade de assistência e proteção animal.

Protetores independentes: quem cuida de quem dedica a vida aos animais? | Reprodução

Enquanto milhares de voluntários dedicam suas vidas a resgatar animais abandonados, uma pergunta permanece sem resposta: quem protege aqueles que escolheram proteger?

Há um sofrimento que raramente aparece nas fotografias dos resgates. Não é o do cachorro atropelado, do gato abandonado ou do animal retirado de uma situação de crueldade. É o sofrimento de quem está do outro lado da câmera, tentando salvar uma vida enquanto a própria saúde, as finanças e a estabilidade emocional se deterioram.

Os protetores independentes são, em sua maioria, cidadãos comuns, em sua maioria mulheres, que decidiram agir diante do abandono animal. Transformaram suas casas em abrigos improvisados, comprometeram salários, aposentadorias e economias pessoais. Muitos acumulam dívidas em clínicas veterinárias, lojas de ração e farmácias.

Não possuem horário de expediente. O telefone toca durante a madrugada, os pedidos de socorro chegam diariamente e a cobrança social parece não ter limites.

Quando conseguem salvar um animal, são elogiados. Quando não conseguem atender a outro pedido, frequentemente enfrentam críticas.

A sociedade aprendeu a pedir socorro aos protetores, mas ainda precisa aprender a socorrê-los.

Dores na coluna, lesões musculares, fadiga e privação de sono são riscos associados a essa rotina. Há também a exposição a mordidas, arranhões e agentes infecciosos, o que reforça a importância de medidas de biossegurança e acompanhamento médico.

Mas existe outro problema: muitos voluntários acabam colocando suas próprias necessidades em segundo plano.

Adiam consultas, interrompem momentos de descanso e deixam de cuidar de si porque sempre existe um animal precisando de atendimento.

O resultado pode ser uma rotina de desgaste progressivo, na qual a saúde do cuidador se torna a última prioridade.

Quando salvar vidas se transforma em sofrimento emocional

Existe um fenômeno conhecido como fadiga por compaixão, relacionado ao desgaste provocado pelo contato contínuo com o sofrimento.

Na proteção animal, esse processo pode ser agravado pela exposição repetida a cenas de violência, abandono, doenças graves e mortes.

A cada novo resgate, o protetor enfrenta a possibilidade de não conseguir salvar o animal. A cada pedido recusado por falta de recursos, pode surgir um sentimento de culpa.

O problema se intensifica quando familiares, conhecidos e seguidores passam a enxergar aquela pessoa como alguém que tem obrigação de atender a todas as emergências.

A pressão emocional pode favorecer ansiedade, esgotamento, alterações no sono e isolamento social.

Isso não significa que todos os protetores desenvolverão transtornos psicológicos, mas evidencia a necessidade de atenção à saúde mental desses voluntários.

O amor pelos animais não torna ninguém imune ao sofrimento.

E reconhecer esse limite não diminui a dedicação de quem protege. Pelo contrário, é uma condição essencial para que esse trabalho possa continuar.

O endividamento de quem não consegue dizer não ao sofrimento de outra vida

A dimensão financeira é outra face dramática da proteção animal.

Uma internação veterinária pode comprometer o orçamento de uma família. Quando os animais acolhidos são numerosos, despesas com alimentação, medicamentos, limpeza e tratamentos tornam-se compromissos permanentes.

Muitos protetores dependem de doações espontâneas, campanhas nas redes sociais e contribuições de pequenos grupos de apoiadores.

O problema é que as despesas chegam todos os dias, enquanto as doações são imprevisíveis.

Alguns voluntários recorrem a empréstimos, cartões de crédito ou parcelamentos para impedir a interrupção de tratamentos. Outros enfrentam atrasos no aluguel e dificuldades para atender às próprias necessidades.

Essa situação expõe uma contradição: pessoas que trabalham para reduzir o sofrimento animal podem acabar vivendo em condições de vulnerabilidade financeira.

Não é aceitável que a solidariedade se transforme em uma sentença de endividamento, adoecimento e abandono social.

A ciência confirma que o sofrimento é real

Um estudo publicado em 2021 na revista científica Anthrozoös , com 530 voluntários de abrigos de animais nos Estados Unidos, identificou diferentes níveis de fadiga por compaixão. Entre os participantes, 61% relataram preocupação constante com os animais sob seus cuidados.

Outra pesquisa, publicada na revista Frontiers in Veterinary Science, analisou os riscos emocionais enfrentados por trabalhadores de abrigos e discutiu a presença de assistentes sociais como uma possível estratégia para reduzir o estresse e oferecer apoio psicossocial.

A omissão de estudos no Brasil

Embora esses estudos não representem estatisticamente a realidade brasileira, demonstram que o sofrimento dos cuidadores é um problema reconhecido pela literatura científica internacional.

No Brasil, ainda são necessários levantamentos específicos sobre a saúde física, mental e financeira dos protetores independentes.

O que o poder público pode fazer?

A proteção animal não deve ser tratada como responsabilidade exclusiva de quem voluntariamente acolhe animais.

O Decreto Federal nº 12.439, de abril de 2025, instituiu o Programa Nacional de Proteção e Manejo Populacional Ético de Cães e Gatos e incluiu os animais sob responsabilidade de protetores independentes entre os grupos prioritários.

É um reconhecimento importante, mas não representa, por si só, garantia de atendimento veterinário ou assistência financeira aos protetores.

É necessário avançar com propostas concretas, como cadastramento responsável, convênios veterinários, castração permanente, programas de adoção e redes de apoio social.

Também merece atenção a criação de programas de acompanhamento psicológico e assistência social para protetores em situação de vulnerabilidade.

Afinal, a proteção animal também envolve saúde pública, responsabilidade coletiva e dignidade humana.

Quem salva também precisa ser salvo

É preciso abandonar a ideia romantizada de que o amor pelos animais é suficiente para sustentar qualquer sacrifício.

Não é.

O amor não paga uma conta veterinária. A compaixão não substitui uma consulta médica. A dedicação não elimina o cansaço, não cura doenças e não impede o esgotamento emocional.

Por trás de cada abrigo existe alguém que também sente dor, adoece, envelhece, enfrenta dificuldades e precisa de cuidados.

Uma sociedade verdadeiramente comprometida com a proteção animal precisa compreender que cuidar dos protetores é também uma forma de proteger os animais.

Não podemos continuar exigindo que essas pessoas sejam fortes o tempo inteiro, como se a capacidade de sentir compaixão lhes retirasse o direito à própria fragilidade.

A crueldade silenciosa em uma sociedade que se emociona com o animal resgatado, mas permanece indiferente ao sofrimento de quem o resgatou.

A pergunta mais urgente da causa animal não seja apenas quantas vidas ainda precisam ser salvas.

Mas quantas pessoas estão adoecendo enquanto tentam salvá-las.

Patrícia Nunes

Jornalista

Patrícia Nunes
Patrícia Nunes é jornalista, repórter e colunista do Folha do Leste desde 2023. Paralelamente, é comunicadora e ativista de projeção nacional na defesa dos animais e de pessoas em situação de vulnerabilidade. Fundadora do Instituto Segunda Chance, reúne mais de 202 mil seguidores no Instagram. Em sua coluna, aborda temas que mobilizam a sociedade. Faz do jornalismo instrumento para denunciar violações de direitos, promover campanhas humanitárias e cobrar políticas públicas em diversos níveis.

Leave a reply