
Trabalhadores por aplicativos cumpriam jornada semanal maior e recebiam 12% menos por hora que os demais ocupados, segundo o IBGE | Paulo Pinto/Agência Brasil
Quase 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos no Brasil em 2025, segundo levantamento divulgado nesta sexta-feira (04) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora o rendimento mensal médio praticamente iguale o dos demais trabalhadores do setor privado, quem depende das plataformas trabalha 5,4 horas a mais por semana e recebe 12% menos por hora.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua identificou 1,959 milhão de trabalhadores “plataformizados”, como o IBGE classifica quem utiliza aplicativos para prestar serviços. Eles representavam 1,9% de todas as pessoas ocupadas no país.
Além da jornada maior, os dados mostram outra diferença relevante: 72,1% dos trabalhadores por aplicativo estavam na informalidade, contra 42,7% entre os demais ocupados. A cobertura previdenciária também era muito menor.
O levantamento inclui motoristas, entregadores e profissionais que usam plataformas para conseguir clientes, como designers, tradutores e até médicos que realizam telemedicina.
Motoristas formam o maior grupo
O transporte de passageiros concentra a maior parcela desse mercado.
Cerca de 1,2 milhão de pessoas utilizavam aplicativos para transportar passageiros, o equivalente a 58,9% dos trabalhadores por plataformas.
Dentro desse grupo, aproximadamente 1,1 milhão trabalhava com aplicativos como Uber e 99, enquanto 232 mil utilizavam exclusivamente plataformas de táxi.
Já os entregadores somavam 376 mil pessoas, ou 19,2% do total. Nesse grupo entram trabalhadores ligados a plataformas como iFood, Rappi e Zé Delivery.
Além disso, outros 313 mil profissionais, equivalentes a 16%, utilizavam aplicativos de serviços gerais ou especializados.
Essa categoria reúne atividades bastante diferentes, desde design e tradução até atendimento médico realizado por meio de plataformas digitais.
Três em cada quatro trabalhadores de transporte usam aplicativos
A presença das plataformas ganha ainda mais peso quando o IBGE observa setores específicos da economia.
Na atividade de transporte, armazenagem e correios, 75% dos trabalhadores utilizavam aplicativos.

Entregadores por aplicativos representam parte dos quase 2 milhões de trabalhadores em plataformas digitais identificados pelo IBGE em 2025 | Paulo Pinto/Agência Brasil
Em outras palavras, três em cada quatro ocupados nesse segmento estavam ligados de alguma forma às plataformas digitais.
O dado mostra como esse modelo deixou de funcionar apenas como alternativa complementar e passou a ocupar posição central em determinadas atividades.
Número de trabalhadores por apps continua crescendo
O IBGE já havia pesquisado o trabalho em plataformas em 2022 e 2024. No entanto, existe uma diferença metodológica importante.
Nas edições anteriores, o instituto contabilizou somente pessoas que tinham os aplicativos como ocupação principal.
Já em 2025, a pesquisa também passou a incluir quem usa plataformas para complementar a renda.
Por isso, o total de 1,959 milhão não pode ser diretamente comparado aos resultados anteriores.
Para permitir a comparação, o IBGE isolou somente os trabalhadores que continuavam tendo os apps como atividade principal.
| Ano | Trabalhadores com apps como ocupação principal |
|---|---|
| 2022 | 1,3 milhão |
| 2024 | 1,7 milhão |
| 2025 | 1,8 milhão |
Nesse recorte, o contingente cresceu 9,1% em apenas um ano e 36,8% em três anos.
Entregadores foram os que mais cresceram
Entre 2024 e 2025, uma categoria se destacou.
O número de entregadores por aplicativo aumentou 18,6%, sendo a única ocupação analisada a registrar crescimento de dois dígitos no período.
Assim, enquanto o trabalho pelas plataformas avançou de maneira geral, a entrega de refeições, bebidas e produtos apresentou expansão ainda mais acelerada.
Falta de outro emprego aparece como principal motivo
A pesquisa também perguntou por que essas pessoas começaram a trabalhar por aplicativos.
Entre motoristas de transporte de passageiros, exceto taxistas, e entregadores, a resposta mais frequente foi direta: não conseguir encontrar outro trabalho.
Depois apareceram outros motivos, como:
- flexibilidade de horários;
- possibilidade de obter rendimento maior;
- falta de oportunidades consideradas melhores.
Portanto, embora a flexibilidade seja frequentemente associada ao trabalho em plataformas, a dificuldade de encontrar outra ocupação aparece como fator central para uma parcela importante dos trabalhadores.
Homens são 84,4% dos trabalhadores de apps
O perfil também revela uma forte predominância masculina.
Entre aqueles que tinham as plataformas como ocupação principal, 84,4% eram homens.
Além disso, 47% tinham entre 25 e 39 anos.
Assim, praticamente metade desse universo se concentra justamente na faixa etária de maior participação no mercado de trabalho.
Trabalhador de app ganha praticamente o mesmo por mês, mas trabalha mais
À primeira vista, os rendimentos mensais parecem semelhantes.
Em 2025, os trabalhadores por aplicativo receberam, em média, R$ 3.147 por mês em sua atividade principal.
Já os demais trabalhadores tiveram rendimento médio de R$ 3.148.
A diferença é praticamente inexistente.
Entretanto, ela passa a ser relevante quando o IBGE coloca a jornada semanal na comparação.
| Grupo | Renda mensal média | Jornada semanal |
|---|---|---|
| Trabalhadores por aplicativos | R$ 3.147 | 44,7 horas |
| Demais trabalhadores | R$ 3.148 | 39,3 horas |
Ou seja, para chegar praticamente ao mesmo rendimento mensal, quem trabalhava por aplicativo dedicava, em média, 5,4 horas a mais por semana.
Ganho por hora fica 12% abaixo
A consequência aparece com clareza no rendimento por hora.
Os trabalhadores plataformizados recebiam, em média, R$ 16,20 por hora.
Já os demais alcançavam R$ 18,40 por hora.
Portanto, o trabalhador por app ganhava aproximadamente 12% menos por hora trabalhada.
Além disso, enquanto os não plataformizados tiveram ganho real de 4,1% no rendimento entre 2024 e 2025, descontada a inflação, o rendimento dos trabalhadores por plataforma ficou praticamente estável.
Eles recebiam R$ 3.151 em 2024 e passaram para R$ 3.147 em 2025.
O IBGE ressalta que esses valores correspondem ao que efetivamente sobra para o trabalhador depois dos custos da atividade, como o combustível pago pelo motorista.
Informalidade chega a 72,1%
Outra diferença aparece na proteção trabalhista e previdenciária.
| Situação | Trabalhadores por apps | Demais trabalhadores |
|---|---|---|
| Informalidade | 72,1% | 42,7% |
| Cobertura previdenciária | 34% | 63% |
Assim, quase três em cada quatro trabalhadores de plataformas atuavam informalmente.
Ao mesmo tempo, apenas 34% possuíam cobertura previdenciária, quase metade do percentual observado entre os demais ocupados.
O IBGE classifica como informais, por exemplo, empregados sem carteira assinada e trabalhadores por conta própria sem CNPJ.
Na prática, isso significa maior exposição à ausência de proteções associadas ao emprego formal e menor acesso a benefícios previdenciários.
A maioria se considera autônoma, mas plataforma determina preço
Uma das contradições mais importantes do estudo aparece na relação entre autonomia e controle.
86,8% dos trabalhadores por aplicativos se declararam trabalhadores por conta própria. Na economia privada como um todo, esse percentual fica em 28,9%.
Contudo, o próprio IBGE encontrou sinais de forte dependência das plataformas na organização do trabalho.
Entre motoristas de transporte de passageiros, excluídos os taxistas, 80,2% disseram que o valor recebido por cada tarefa depende totalmente da plataforma.
Entre entregadores, esse percentual chega a 78,3%.
Além disso:
- 65,9% dos entregadores afirmam que o prazo para realizar a tarefa depende do aplicativo;
- 71,3% dizem que a plataforma determina a forma de recebimento.
Portanto, embora juridicamente e estatisticamente muitos apareçam como trabalhadores por conta própria, o grau de autonomia prática pode ser limitado pelas regras definidas pelas empresas digitais.
IBGE aponta diferença em relação ao autônomo tradicional
O analista da pesquisa Gustavo Geaquinto Fontes chamou atenção justamente para essa característica.
“Apesar de essa pessoa não ter um vínculo formal com a plataforma, ele, na verdade, tem uma dependência em vários aspectos em relação à empresa que controla a plataforma digital”, afirmou.
Segundo o IBGE, essa relação coloca o trabalhador plataformizado em uma condição diferente da vivida pelo trabalhador autônomo tradicional.
A pessoa pode decidir quando ligar o aplicativo, por exemplo, mas frequentemente não controla aspectos como preço do serviço, prazo ou forma de pagamento.
Dados chegam enquanto STF discute “uberização”
A divulgação acontece em meio ao debate nacional sobre a chamada “uberização” das relações de trabalho.
O Supremo Tribunal Federal adiou recentemente a retomada do julgamento que discute a existência de vínculo empregatício entre trabalhadores e plataformas.
Representantes de motoristas e entregadores defendem, em diferentes ações, o reconhecimento de direitos trabalhistas e argumentam que o modelo atual gera precarização.
As empresas do setor, por outro lado, rejeitam essa caracterização e defendem a natureza autônoma da relação.
Além disso, parecer da Procuradoria-Geral da República sustenta que o STF não reconheça automaticamente o vínculo empregatício.
Nesse contexto, os novos números do IBGE adicionam dados concretos ao debate: o trabalho por aplicativos cresceu, mas continua associado a jornadas maiores, menor rendimento por hora, alta informalidade e menor cobertura previdenciária.








