BrasilColuna do André FreitasEconomia

Caixa tem lucro de bilhões e explosão de devedores ao mesmo tempo; saiba de onde vem o calote

Banco lucrou R$ 3,9 bilhões entre abril e junho, depois de pagar todas as despesas da operação, mas percentual de devedores do agronegócio chegou a 20,74%; tarifaço, socorro público, casa própria, dívida e privatização entram na conta da Caixa

Calote na Caixa lucro de bilhões mesmo com calote os devedores

Calote na Caixa lucro de bilhões mesmo com calote os devedores

A Caixa Econômica Federal lucrou R$ 3,9 bilhões entre abril e junho de 2026. Isso não se resume a faturamento nem mesmo a dinheiro que, nesse meio tempo, entrou no caixa. Trata-se, somente, da sobra, ou seja, aquele lucro limpinho. Dinheiro que entrou na contabilidade isento de qualquer desconto.

Por mais que a soma desperte nossa atenção, afinal estamos falando do resultado de apenas 3 meses, esse dinheiro resulta de tudo que a instituição arrecadou em produtos e serviços. É muito importante que vocês, caríssimos leitores e leitoras entendam que isso se trata do saldo positivo do banco. Apesar disso, o meio político discute nesse período eleitoral, a privatização do banco estatal.

Acredite: mesmo após a Caixa pagar todos os seus funcionários, e arcar com todas as despesas com agências, ela ficou com R$ 3,9 bilhões livres de puro lucro. para que não lhe reste nenhuma dúvida, as despesas incluem segurança, sistemas, impostos, limpeza, energia, o ar-condicionado que você respirou, o papelzinho que imprimiu seu saldo, lixeira, cera do chão, o cafezinho servido para alguns e todas as demais despesas para funcionar.

Esse resultado não foi construído por acaso. Ao contrário disso, nele, há o suor e por vezes o sangue da classe trabalhadora brasileira. Do assalariado, do poupador, de quem usa os produtos do banco, dos seus milhões de clientes no Brasil. Pessoas que quando aplicam dinheiro recebem muito pouco de volta mas que pagam uma fortuna de juros caso usem o cheque especial ou atrasem a fatura do cartão de crédito.

Enfim, brasileiros comuns, que financiam seus bens (quando conseguem), sejam eles carros ou casas no banco.

Lucro e calote

Portanto, é justamente por isso que o outro número do balanço exige indignação, e não desculpa. Esse número só não é maior por conta de R$ 7  bilhões que a instituição considerou como “fundo perdido”. Usando outro modo de falar, como ativos que o banco entende que não receberá.

Nesse sentido, o maior percentual de inadimplentes da Caixa, perfazendo um incrível índice de 20,74%, consiste numa categoria que tem bancada no Congresso Nacional e um imensurável número de “executivos” que exercem a profissão de Influenciadores de Opinião Política, vulgo lobistas.

Estou me referindo aos techs e pops exaltados em spots de sustentação de atividade econômica na Rede Globo de televisão: o agronegócio, vulgo agro.

Os atrasos acima de 90 dias no agronegócio chegaram a 20,74% em junho. Um ano antes, estavam em 7,02%. Falando português claro: em síntese, de cada R$ 100 emprestados pela Caixa ao setor, mais de R$ 20 estavam atrasados havia pelo menos três meses.

A Caixa lucrou, pagou sua estrutura e contas. Mas coube a um setor que frequentemente exige socorro, renegociação e proteção estatal a pior taxa de atraso de toda a carteira.

Caixa dos inadimplentes

O emprego da expressão calote não tem o condão de atacar quem trabalha na terra, muito menos pequenos produtores. Ela, simplesmente, traduz o dado objetivo do banco: o agronegócio se tornou a carteira com maior inadimplência da Caixa. Aqui, reconhecemos que há motivos de natureza global para isso ter ocorrido com o setor.

O banco até registrou queda leve da inadimplência geral em relação a março, quando ela era de 3,71%. Porém, em um ano, o índice total subiu de 2,66% para 3,64%.

O crédito imobiliário segura a média. Ele representa 69,4% de tudo o que a Caixa empresta e tem atraso de apenas 1,45%.

A pergunta é direta: por que o pobre que atrasa a casa pode perder o teto, enquanto o grande devedor rural rapidamente entra no debate sobre socorro, carência, garantia, subsídio e renegociação?

Caixa precisou separar R$ 7 bilhões para perdas

A Caixa também registrou R$ 7 bilhões em provisões para perdas esperadas no segundo trimestre. É o valor que o banco reconhece como possível prejuízo porque sabe que parte dos empréstimos pode não voltar.

Essa despesa ficou 97,6% maior que a de um ano antes.

O banco pode explicar regras, modelos contábeis e classificações de risco. Tudo isso precisa ser informado. Mas o dado essencial permanece: a Caixa precisou colocar muito mais dinheiro na conta das perdas enquanto o agronegócio apresentava atraso superior a 20%.

No semestre, o lucro recorrente somou R$ 7,4 bilhões, queda de 17,6% em relação aos seis primeiros meses de 2025.

O resultado de abril a junho melhorou. Porém, o primeiro semestre mostra que o custo do risco já atingiu o resultado do banco.

Tarifaço não começa no dia em que a tarifa entra em vigor

A inadimplência rural da Caixa precisa ser lida junto do cenário internacional.

O índice de 20,74% foi registrado num período de ameaça comercial, tarifaços e incerteza sobre o acesso de produtos brasileiros ao mercado dos Estados Unidos. A instabilidade não começa no dia em que uma tarifa passa a valer.

Ela nasce antes

Começa quando comprador suspende pedido. Depois disso, quando há renegociação de contratos. Igualmente, quando exportador perde margem. No instante em que bancos enxergam mais risco. Por fim, quando o produtor não sabe por quanto vai vender, quanto vai receber e se terá mercado para escoar sua produção.

Não podemos confundir patriotismo de Copa do Mundo com relações internacionais porque é desse modo que uma ameaça de Washington produz efeitos. Primeiramente, chega à planilha de uma empresa brasileira. Em seguida, vira prestação vencida. Por último, chega ao balanço de um banco público.

Bolsonaristas ajudaram a construir esse cenário

Em meio a isso tudo, o Brasil não pode sofrer de amnésia. Integrantes do clã Bolsonaro estão nos Estados Unidos desde o ano passado trabalhando por punições econômicas contra o próprio país. Estimularam os tarifaços, forneceram materiais para subsidiar as investigações pela chamada Seção 301.

Essa Seção 301 é o instrumento usado pelo governo americano para abrir investigações comerciais e aplicar retaliações. A bem da verdade, um meio de chantagem econômica travestida de preocupação com regras, paz mundial e ordem ambiental — sobretudo quando conduzida por um governo comandado por Donald Trump, um negacionista megalomaníaco que não esconde seu uso político do poder econômico americano.

Quem ajudou a criar ou aprofundar a instabilidade comercial brasileira não pode depois posar de defensor do produtor prejudicado pela crise.

Socorro para o agro, execução para quem atrasa a casa?

O governo discute medidas para enfrentar os efeitos dos tarifaços e da insegurança comercial. Isso abre uma questão que precisa ser respondida antes de qualquer nova linha pública de ajuda ao setor.

Produtores e empresas rurais que já estão inadimplentes com a Caixa poderão receber dinheiro novo, garantia pública, subsídio, carência ou renegociação?

Se a resposta for sim, o país precisa saber o nome, o tamanho e a condição desses devedores.

A comparação com a casa própria é inevitável.

A Caixa tem R$ 1,005 trilhão em crédito imobiliário. É líder do setor, com 67,9% de participação de mercado. De janeiro a junho, contratou R$ 137,6 bilhões em financiamentos habitacionais.

Mesmo assim, financiar uma casa já é difícil demais para quem vive de salário. Sem a Caixa, seria pior.

O imóvel é garantia do banco. Quando a família atrasa, a execução pode levar embora o único teto que ela tem. Não há discurso de “setor estratégico” que devolva uma casa a quem foi despejado.

Portanto, se o risco comercial justifica ajuda pública a devedor rural, o risco social de uma família perder a moradia precisa receber prioridade igual ou maior.

Não se trata de defender inadimplência. Trata-se de impedir que o devedor forte tenha porta aberta, dinheiro novo e proteção estatal, enquanto o devedor pobre recebe apenas cobrança e ameaça de perder a casa ou outros bens.

A tabela mostra que a Caixa disputa mercado com os grandes bancos privados, lucra bilhões e mantém uma carteira de crédito superior a R$ 1,4 trilhão.

Ela rende menos que Itaú, Bradesco e Santander. Mas isso não transforma a Caixa em banco deficitário, muito menos em instituição incapaz de competir.

Transformar todo banco público em sinônimo de prejuízo é uma mentira útil para quem quer entregar mercado, clientes, patrimônio e capacidade de crédito ao setor privado.

Privatizar a Caixa para favorecer quem?

A Caixa não é apenas uma marca de agência. Ela financia a casa própria, administra o FGTS, opera loterias, paga benefícios, mantém presença em todo o país e pressiona a concorrência bancária.

Sem ela, os bancos privados teriam menos motivo para disputar cliente, reduzir taxas ou oferecer crédito habitacional em escala.

Privatizar, reduzir ou enfraquecer a Caixa significa entregar espaço de mercado a instituições que não têm obrigação de financiar a moradia de quem ganha pouco. Significa tornar ainda mais difícil o que já é difícil: comprar uma casa.

A Caixa dá lucro depois de pagar cada custo de sua operação. Ao mesmo tempo, cumpre funções que banco privado só executa se der retorno alto e risco baixo.

A pergunta não é se a Caixa deve ser eficiente. Deve. A pergunta é por que vender ou desmontar uma instituição lucrativa que financia moradia, dá concorrência aos bancos privados e ainda cumpre missão pública.

Quem defende privatização e quem defende o quê

O debate eleitoral precisa mostrar as posições como elas são.

Renan Santos, candidato à Presidência pelo Partido Missão, defende uma plataforma de privatizações agressivas e uma agenda política de valorização do agronegócio.

Romeu Zema defende privatizações em várias áreas, mas já declarou que manteria a Caixa e a Embrapa sob controle estatal por reconhecer que elas exercem funções estratégicas.

Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado defendem concessões, parcerias e redução do tamanho do Estado.

As diferenças precisam aparecer. Mas todos os candidatos que se apresentam como defensores do agro têm uma obrigação: dizer se cobram transparência sobre grandes devedores rurais antes de apoiar novos socorros, garantias e renegociações bancadas com recursos públicos.

Defender o agronegócio não pode virar licença para defender calote em banco público.

Selic, dívida pública e o banquete dos juros

A mesma população que paga crédito caro e teme perder a casa também paga a conta de uma dívida pública cada vez mais dependente da Selic.

O Plano Anual de Financiamento do Tesouro Nacional prevê que títulos atrelados à taxa básica de juros representem entre 49% e 53% da Dívida Pública Federal até o fim de 2026. A dívida total pode ficar entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões.

Com a Selic em 14% ao ano, isso significa que uma parcela gigantesca da dívida pública renderá conforme os juros altos exigidos por quem empresta dinheiro ao governo.

Em linguagem simples: o governo precisa tomar dinheiro emprestado para pagar as contas do país. Os investidores emprestam, mas querem rendimento. Como preferem títulos corrigidos pela Selic, o governo se compromete a pagar mais quando os juros estão altos.

É o pobre dividindo a conta de um banquete servido aos rentistas.

A autonomia do Banco Central foi vendida como remédio técnico, moderno e neutro. Na vida real, ela ajudou a criar um sistema em que juros altos encarecem a dívida, restringem crédito, pesam sobre o orçamento público e empurram a população para mais dívida.

Enquanto isso, quem vive de rendimento financeiro recebe protegido pelo contrato. Quem vive de salário recebe prestação cara, cartão caro, aluguel caro e financiamento quase impossível.

Perguntas que Caixa, governo e Ministério Público precisam responder

Para irmos além nesse assunto, é fundamental que a Caixa responda:

  1. Quantos devedores formam os 20,74% de inadimplência do agronegócio.
  2. Qual é o valor total em atraso.
  3. Qual é o perfil desses devedores.
  4. Quais garantias eles ofereceram.
  5. Quantas ações de cobrança foram ajuizadas.
  6. Quantos contratos já foram renegociados.

Já o governo federal precisa esclarecer:

  1. Se produtores ou empresas rurais já inadimplentes com banco público poderão receber novas linhas, garantias, subsídios ou renegociações ligadas ao tarifaço.
  2. Qual será o critério para separar dificuldade real de pagamento de uso oportunista de dinheiro público.
  3. Que proteção será oferecida à família de baixa renda que atrasa o financiamento habitacional.

O Ministério Público Federal precisa informar se fiscaliza eventual tratamento desigual entre grandes devedores rurais e mutuários habitacionais de baixa renda, especialmente quando a negociação envolve banco público, fundo público ou renúncia indireta de receita.

A Caixa lucrou bilhões depois de pagar cada custo para funcionar. Esse dinheiro não pode servir de cortina para esconder dívida rural, proteger devedor forte ou tornar aceitável que a família pobre perca a casa enquanto o grande inadimplente recebe mais uma chance paga pela sociedade.

André Freitas
André Freitas é diretor-executivo e repórter do Folha do Leste e da Brasil 21 Comunicação. Jornalista e radialista desde a década de 1990, é narrador esportivo e cronista especializado em Carnaval, com 26 coberturas presenciais na Marquês de Sapucaí. Possui ampla experiência na cobertura da editoria de política, em razão de funções exercidas nos poderes Legislativo e Executivo, com atuação nas Câmaras Municipais de Niterói, São Gonçalo e Campos dos Goytacazes, além da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e da Prefeitura de Niterói. Dirigiu por 15 anos a Rádio Absoluta, onde apresentou programas noticiosos diários e conduziu coberturas esportivas, incluindo mais de uma década acompanhando a seleção brasileira de futebol. Nesse período, esteve presente em duas Copas do Mundo e em uma edição dos Jogos Olímpicos. Trabalhou também nas rádios Campos Difusora (Campos/RJ) e Litorânea (ES). Exerceu o cargo de editor-chefe nos jornais Olho Vivo (Niterói/RJ) e A Tribuna (Niterói/RJ), além de atuar como colunista do jornal O Diário (Campos dos Goytacazes/RJ).

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