A Braskem anunciou nesta segunda-feira (24) que recorrerá à recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras quirografárias. O Conselho de Administração aprovou o ajuizamento do pedido depois que terminou o período de proteção contra execuções de credores sem que a petroquímica conseguisse concluir uma reestruturação de sua dívida.
Em comunicado ao mercado, a companhia informou que fará o protocolo assim que concluir a formalização dos documentos necessários. Segundo a Braskem, o objetivo é criar um ambiente jurídico protegido para negociar e implementar a reorganização das obrigações financeiras abrangidas pelo processo.
A companhia também procurou separar a crise financeira de suas operações. De acordo com o comunicado, fornecedores, clientes e demais parceiros não estão incluídos no escopo da recuperação extrajudicial, e os contratos comerciais permanecem em vigor.
“A medida possui escopo limitado, estritamente financeiro”, afirmou a empresa ao comunicar a decisão.
Assim, a Braskem tenta reorganizar uma dívida bilionária sem interromper sua atividade industrial e comercial.
Recuperação envolve US$ 10,9 bilhões
O principal número do anúncio ajuda a dimensionar a situação financeira da companhia.
A Braskem pretende incluir no processo aproximadamente US$ 10,9 bilhões em créditos sujeitos à recuperação.
O foco está nas chamadas obrigações quirografárias, categoria que, de forma geral, reúne créditos sem uma garantia real específica vinculada ao pagamento.
A própria estrutura de dívida da companhia mostra obrigações de longo prazo relevantes em moeda estrangeira. O site de Relações com Investidores lista bilhões de dólares em títulos com vencimentos que vão de 2028 até 2081.
Agora, a companhia busca renegociar condições e prazos antes que o peso dessas obrigações comprometa ainda mais sua liquidez.
O que é recuperação extrajudicial
Apesar do nome, a recuperação extrajudicial também passa pela Justiça, mas funciona de maneira diferente da recuperação judicial tradicional.
Pela Lei 11.101/2005, a empresa pode negociar diretamente com determinados grupos de credores e depois pedir ao Judiciário a homologação do plano.
A legislação também permite que o plano alcance todos os credores de determinada classe abrangida quando houver adesão superior à metade dos créditos daquela espécie.
Portanto, a Braskem tenta construir primeiro uma solução negociada para sua estrutura financeira.
Caso não consiga reunir apoio suficiente ou o modelo extrajudicial se mostre inviável, a companhia ainda poderá avaliar outros instrumentos previstos na legislação, inclusive uma recuperação judicial.
Proteção de 60 dias chegou ao fim
A decisão ocorre justamente quando termina o período de proteção concedido anteriormente à empresa.
Em junho, a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo aprovou uma tutela cautelar que protegeu temporariamente a Braskem contra determinadas medidas de execução por credores.
A proteção tinha duração de 60 dias.
Durante esse intervalo, a companhia negociou alternativas para sua estrutura de capital. Entretanto, o prazo terminou nesta segunda-feira sem um acordo definitivo para reorganizar a dívida.
Por isso, a recuperação extrajudicial passou a representar o próximo passo da estratégia financeira.
Ratings da Braskem já refletem situação crítica
A deterioração financeira também aparece nas classificações de risco de crédito.
A página de Relações com Investidores da própria Braskem mostra que a S&P mantém rating global “D” desde 26 de junho, enquanto a Fitch passou a classificar a companhia como “RD” em 14 de agosto.
Essas classificações refletem um ambiente de forte estresse financeiro e já incorporam as dificuldades da companhia em administrar suas obrigações.
Portanto, o anúncio desta segunda-feira não surge isoladamente.
Ele representa uma nova etapa de uma crise de crédito que vinha se aprofundando há meses.
Braskem recusou financiamento de US$ 700 milhões
Durante as negociações, credores chegaram a defender uma solução que incluía garantias sobre ativos da própria Braskem e um novo financiamento de US$ 700 milhões.
A companhia, entretanto, recusou essa alternativa.
Ao mesmo tempo, uma proposta ligada ao grupo IG4 prevê alongamento por cinco anos das linhas atuais e carência de juros por 30 meses.
O desenho não prevê redução do principal da dívida — o chamado haircut — nem conversão das obrigações bancárias em participação acionária.
A estrutura societária atual da Braskem mostra o Shine I FIP com 50,11% das ações ordinárias, enquanto a Petrobras detém 47,03%.
Além disso, executivos ligados à IG4 passaram a ocupar posições centrais na administração da petroquímica em 2026, incluindo a presidência e a diretoria financeira.
Setor petroquímico pressiona margens
A dívida não é o único problema.
A Braskem atravessa um período de margens comprimidas, excesso global de oferta petroquímica e demanda enfraquecida.
Nesse ambiente, o custo dos produtos vendidos chegou a consumir aproximadamente 96% da receita líquida, reduzindo drasticamente a capacidade de geração operacional de recursos.
Além disso, o aumento das taxas de juros elevou o custo financeiro.
A Selic, que esteve em 2% ao ano em 2020, alcançou 15% em março de 2026. Ao mesmo tempo, parte relevante da dívida da Braskem está denominada em moeda estrangeira.
Assim, a companhia passou a enfrentar simultaneamente pressão operacional, financeira e cambial.
Tragédia em Alagoas criou passivo bilionário
Outro elemento estrutural pesa sobre as contas da petroquímica: o afundamento do solo em Maceió provocado pela exploração de sal-gema.
O episódio criou um passivo de grandes proporções para a empresa.
Dados divulgados pela própria Braskem mostram que, até setembro de 2025, cerca de 14,5 mil imóveis haviam sido desocupados, enquanto o montante desembolsado em indenizações, auxílios financeiros e honorários advocatícios já superava R$ 4,2 bilhões.
O impacto, entretanto, ultrapassa as indenizações diretas.
A companhia ainda mantém obrigações relacionadas ao fechamento e monitoramento das minas e às medidas de reparação e compensação previstas nos acordos firmados.
Braskem Idesa também recorreu à Justiça
A reorganização financeira também alcançou uma operação estratégica fora do Brasil.
Na semana passada, a Braskem Idesa, joint venture da companhia no México, buscou proteção judicial nos Estados Unidos por meio do Chapter 11.
A própria página de Relações com Investidores da Braskem registrou em agosto informações sobre a reestruturação da subsidiária mexicana.
Embora sejam processos diferentes, os movimentos evidenciam a necessidade de reorganização financeira dentro do grupo.
Operações continuam normalmente, diz Braskem
A companhia tenta evitar que o pedido seja interpretado como paralisação das atividades.
Segundo a Braskem, a recuperação extrajudicial tem caráter exclusivamente financeiro.
Por isso, obrigações comerciais com fornecedores, clientes e demais parceiros permanecem fora do processo e continuam sendo cumpridas conforme os contratos existentes.
Essa distinção será central nos próximos meses.
Enquanto fábricas e operações comerciais seguem funcionando, a administração terá de negociar com credores uma saída para uma estrutura de dívida que chegou a US$ 10,9 bilhões apenas entre os créditos abrangidos pelo processo.
O desafio agora é conseguir apoio suficiente para transformar a recuperação extrajudicial em um plano de longo prazo capaz de reduzir a pressão financeira sem interromper a operação de uma das maiores petroquímicas da América Latina.








