O avanço do El Niño no Rio de Janeiro levou a Prefeitura a antecipar a preparação para o próximo verão. As projeções apresentadas nesta segunda-feira (20), apontam 81% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, com efeitos que poderão se prolongar pela estação mais quente do ano.
A estratégia reúne ações contra calor extremo, chuvas intensas, alagamentos e deslizamentos. Além disso, mais de 50 órgãos e agências municipais participarão da resposta, apoiados por sistemas de monitoramento em tempo real e cerca de 50 protocolos operacionais.
El Niño faz Rio antecipar preparação para o verão
O anúncio ocorreu no Centro de Operações e Resiliência, que funciona durante 24 horas por dia e integra informações meteorológicas, operacionais e de saúde.
Segundo o prefeito Eduardo Cavaliere, a cidade não consegue impedir os efeitos do fenômeno climático. Entretanto, pode reduzir os impactos com planejamento, obras e preparação das equipes.
“Estamos antecipando a preparação que a cidade já faz todos os anos para lidar com o verão, porque esse é um dos efeitos desse super El Niño”, afirmou.
O prefeito destacou que o Rio possui clima tropical e úmido, marcado naturalmente por temperaturas elevadas e chuvas fortes. Por isso, eventos extremos exigem respostas integradas.
O que é o El Niño
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial apresentam um aquecimento acima do padrão.
Essa alteração interfere na circulação da atmosfera e modifica os regimes de temperatura e chuva em várias regiões do planeta.
No Sudeste brasileiro, o fenômeno pode favorecer temperaturas acima da média, ondas de calor mais frequentes e mudanças na distribuição das chuvas. Contudo, seus impactos exatos dependem da intensidade, da duração e da interação com outros sistemas meteorológicos.
Rio prevê mais calor desde o fim do inverno
A meteorologista Juliana Hermsdorff, do Sistema Alerta Rio, explicou que os efeitos poderão surgir ainda no fim do inverno.
A tendência é de aumento das temperaturas médias durante a primavera e o verão. Além disso, episódios de calor intenso poderão ocorrer com maior frequência.
Segundo a projeção municipal, existe 81% de chance de o El Niño atingir intensidade muito forte entre outubro, novembro e dezembro.
A previsão não significa, porém, que todos os dias terão calor extremo ou chuva forte. Ela indica um cenário mais favorável à ocorrência desses eventos.
Protocolo do Rio possui cinco níveis de calor
O Rio utiliza um protocolo formado por cinco níveis, e não quatro. A classificação considera o índice de calor, calculado pela combinação entre temperatura e umidade, além do tempo previsto de permanência dessas condições.
Os modelos são atualizados a cada quatro horas e consideram a previsão para os três dias seguintes.
Calor 1
Não há previsão de índices elevados. A cidade mantém a rotina normal.
Calor 2
Ocorre quando há previsão ou registro de índice de calor entre 36°C e 40°C, por um ou dois dias consecutivos.
Nesse nível, o COR reforça as orientações sobre sintomas e formas de proteção. Ainda assim, não há mudança obrigatória na rotina da cidade.
Calor 3
É acionado quando o índice permanece entre 36°C e 40°C, com previsão de continuidade ou aumento por pelo menos três dias.
A comunicação de risco ganha maior intensidade, embora a rotina ainda possa continuar sem alterações generalizadas.
Calor 4
É caracterizado por índices entre 40°C e 44°C, com previsão de permanência ou elevação durante pelo menos três dias consecutivos.
Nesse estágio, o município pode recomendar mudanças em atividades externas e ampliar as medidas de proteção.
Calor 5
Representa o nível máximo e ocorre quando o índice supera 44°C, também com previsão de permanência ou aumento por pelo menos três dias.
O protocolo prevê restrições mais severas, boletins meteorológicos a cada seis horas e possível interrupção de atividades incompatíveis com o calor extremo.
O que pode mudar nos níveis mais elevados
A partir do Calor 4, a Prefeitura pode indicar equipamentos refrigerados como pontos de resfriamento.
Também estão previstas ampliação da distribuição de água, adaptação de atividades ao ar livre e eventual reagendamento ou cancelamento de eventos que não ofereçam condições adequadas de proteção.
As escolas poderão transferir atividades externas para espaços cobertos. Além disso, trabalhadores expostos ao sol poderão receber pausas adicionais para hidratação.
As decisões dependerão das condições meteorológicas, dos indicadores de saúde e da avaliação do comitê responsável pelo protocolo.
Município nunca chegou ao Calor 5
O Rio já atingiu o Calor 4, inclusive em fevereiro de 2025. Na ocasião, o índice permaneceu entre 40°C e 44°C, exigindo adaptações na rotina e reforço das orientações à população.
Até agora, contudo, o município não chegou ao quinto e mais grave nível.
Durante o verão de 2024 para 2025, a cidade contabilizou 45 dias de calor extremo, sendo 41 no nível 3 e quatro no nível 4.
Parques funcionam como áreas de refrescamento
A Prefeitura também aposta nos parques urbanos como espaços capazes de reduzir a exposição ao calor.
Entre os locais destacados estão o Parque Madureira Mestre Monarco, o Parque Susana Naspolini, em Realengo, o Parque Piedade, o Parque Carioca Pavuna e o Parque Oeste, em Inhoaíba.
Além disso, quatro novos projetos estão em andamento: a ampliação do Parque Realengo, a segunda fase do Parque Oeste, o Parque Terra Prometida e o Parque Linear da Maré.
Reflorestamento busca reduzir ilhas de calor
As políticas ambientais também integram a preparação. O programa Refloresta Rio já contabiliza mais de 10,8 milhões de mudas plantadas.
Já o Planta+Rio possui a meta de plantar mais de 200 mil mudas até 2028, inclusive a partir de solicitações feitas pela Central 1746.
Atualmente, 41% do território municipal está protegido por unidades de conservação.
A ampliação da arborização pode contribuir para o sombreamento, a redução das temperaturas locais e a retenção da água da chuva.
Grandes obras miram áreas vulneráveis
A Prefeitura destacou intervenções em bairros sujeitos a enchentes, alagamentos ou deslizamentos.
O PAC Realengo prevê um reservatório capaz de armazenar 20 milhões de litros de água, além de novas estruturas de drenagem.
Já o projeto de Jardim Maravilha inclui diques e reservatórios com capacidade combinada de 231 milhões de litros.
Também estão previstas intervenções em Acari, Maré, Rocinha e Complexo do Alemão, além do túnel hidráulico do Rio Maracanã.
Rio reforça prevenção contra chuvas fortes
A preparação não se limita ao calor. A Defesa Civil mantém 165 sirenes instaladas em 103 comunidades, com protocolos específicos para situações de chuva, ventos fortes e ressaca.
A cidade também possui 225 pontos de apoio para moradores de áreas de risco.
Desde 2014, foram realizados 869 simulados de desocupação, com treinamento de comunidades para situações de emergência.
Alertas podem chegar diretamente aos celulares
O município utiliza o sistema Cell Broadcast, que envia alertas geolocalizados aos celulares presentes em áreas sob risco.
A tecnologia não depende de cadastro prévio ou instalação de aplicativo. Dessa forma, moradores e visitantes podem receber avisos de emergência conforme a localização do aparelho.
O sistema complementa sirenes, mensagens institucionais e comunicados pelos canais do COR.
Operação Ralo Limpo supera 51 mil estruturas atendidas
Em 2026, a Operação Ralo Limpo já atuou em mais de 28,7 mil bueiros e 22,4 mil tampões.
No total, as equipes da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos limparam mais de 51 mil estruturas da rede de drenagem.
Além disso, a limpeza de rios e canais retirou aproximadamente 257 mil toneladas de resíduos em cerca de 70 quilômetros de cursos d’água.
O investimento anual em ações contra alagamentos passou de R$ 30 milhões em 2025 para R$ 70 milhões em 2026.
Motos atuam na desobstrução emergencial
A operação Moto Abre Ralo, iniciada em janeiro, utiliza motocicletas equipadas com ferramentas para desobstruir ralos e bueiros.
As equipes já realizaram mais de 8,8 mil atendimentos em 145 bairros.
Ao todo, os veículos percorreram mais de 30 mil quilômetros e retiraram aproximadamente 9,6 toneladas de resíduos.
Além disso, a Prefeitura instala mega ralos em pontos historicamente afetados por alagamentos.
Preparação combina clima, saúde e infraestrutura
O plano municipal reúne dados meteorológicos, indicadores epidemiológicos, intervenções urbanas e protocolos de resposta.
A Secretaria Municipal de Saúde acompanha atendimentos relacionados ao calor e prepara profissionais das unidades de urgência, emergência e Atenção Primária.
Já o COR coordena a comunicação e integra os órgãos responsáveis pela mobilidade, conservação, drenagem, defesa civil e assistência à população.
A antecipação busca permitir que a cidade chegue ao próximo verão com equipes treinadas, estruturas limpas e planos de contingência atualizados.









